No filme, cujo título original é “Paths of Glory”, lançado em 1957 e dirigido por Stanley Kubrik, o comandante supremo, astuta raposa velha da política, general Broulard, sempre ansioso pela divulgação de vitórias no front e dos frutos que angariaria com tais sucessos, ordena que seu subordinado imediato, general Mireau, ataque a trincheira alemã, conquistando uma posição estrategicamente vantajosa. O bastião germânico é fortemente defendido e o ataque frontal resultaria em muitas baixas para o exército francês.
O ladino Broulard, mesmo sabendo da possibilidade de muitas mortes, acena para Mireau com a possibilidade de uma promoção, caso as tropas francesas conseguissem desalojar as forças inimigas. O general Mireau, então, entrega a missão impossível ao batalhão comandado pelo coronel Dax (magistralmente interpretado por Kirk Douglas).
O coronel Dax ele próprio vai às trincheiras e comanda várias tentativas de ultrapassar as barreiras de arame farpado, fustigadas pela artilharia alemã ao tentar a progressão pela Terra de Ninguém, mas os franceses, a despeito de sua bravura, não conseguem avançar e retrocedem para seus abrigos. Isso frustra o general Mireau, que via sua promoção não vir a acontecer, e o leva a insistir com o coronel Dax para avançar contra os postos alemães. Mireau rotula o não avanço francês como resultante de covardia dos soldados comandados pelo coronel Dax. E, em vez de autorizar fogo de artilharia francesa para bater as defesas germânicas, manda que suas baterias disparem contra as trincheiras onde se abrigava o batalhão de Dax, o que levou a morte de muitos franceses pelo fogo amigo e insucesso final da missão.
O general Mireau, furioso, acusa os homens de Dax de covardia e ordena que três militares fossem escolhidos aleatoriamente a fim de serem fuzilados sob acusação de covardia perante o inimigo. Serviriam tanto de exemplo para que tais atos de “covardia” não voltassem a acontecer, como pra dar uma satisfação à imprensa de que, da parte dele, general Mireau, não haviam faltado esforços para conquistar a posição inimiga.
O enredo principal do filme não está nas muito bem filmadas cenas de combate, mas, sobretudo, na corte marcial a que são submetidos um sargento, um cabo e um soldado, escolhidos por sorteio para serem fuzilados por covardia. A defesa dos subordinados é feita pelo próprio coronel Dax. Este, na véspera do dia em que seus comandados iriam ser fuzilados, amealha provas de que os artilheiros franceses haviam recebido ordens do general Mireau pra atirar contra suas próprias tropas, forçando-os a deixar as trincheiras e prosseguir nos malogrados ataques suicidas contra as posições alemãs.
Chega de spoilers. O que vai acontecer quando o supremo comandante general Broulard, em meio a um baile de gala, receber provas incontestáveis de que seu colega, general Mireau, ordenara que os canhões franceses airassem contra seus próprios irmãos de armas, ou se os condenados à morte vão ou não ser fuzilados… bem, tudo isso, todas essas respostas tê-las-ão os que conseguirem assistir o filme “Glória feita de Sangue”. Verão que vale a pena a pena seu esforço. É uma obra prima da sétima arte.
Para que cessem os xingamentos contra este articulista que lhes deixou sem saber o fim do filme, esclareço que há uma conexão entre a questão desfraldada no título – o radicalismo – e a película de Stanley Kubrik.
Começo afirmando que sou radicalmente contra o radicalismo. E acho que essa é a mais lógica das posições que se pode assumir para afastar-se da polarização a que o radicalismo conduz. Em qualquer situação, o radicalismo leva à polarização indesejável e, no mais das vezes, estúpida. Essa faz com que se devote, de um lado, apoio intransigente; de outro, a oposição sistemática, dicotomia bem resumida no velho dito espanhol se hay gobierno, soy contra…
Artigo que publiquei recentemente sob o título “O Meu Exército” foi levado por amigo meu à escola onde dá aulas. Segundo fui informado, a matéria foi asperamente criticada pelos apoiadores do presidente da República, em razão de críticas que fiz ao capitão Bolsonaro quando ele se referiu ao Exército Brasileiro como “meu” (dele) “Exército”. Já outros viram alguma lucidez nos reparos que fiz, em os quais defendo que só um ditador, um tirano, um déspota, pode referir-se a uma Força Armada como “meu” (dele!) Exército, “minha” Marinha, “minha” Força Aérea.
Fiel àquele meu posicionamento de radicalmente contrário a todo e qualquer radicalismo, não faço parte do grupo que só tem interesse em divulgar e comentar críticas contra Jair Bolsonaro. Embora o saldo negativo até agora seja bem maior, verdade é que Bolsonaro, pelo menos no quesito vacinação e enfrentamento da pandemia, parece vir mudando a partir da nomeação de Queiroga para a pasta da Saúde. Nas Relações Exteriores, livrou-se, e ao país, do trapalhão Ernesto Araújo, mas, no mesmo embalo, retirou o Ministério da Defesa e o comando das Forças Armadas das mãos de quatro grandes soldados.
No Brasil, temos um capitão, e isso, em termos de hierarquia, é bem superior ao que aconteceu na Alemanha de 1933 quando se permitiu com que fosse vertiginosamente subindo as escadas do poder a um cabo austríaco. Sob batuta dele, Hitler, é certo que a Alemanha em menos de uma década saiu da posição de principal país derrotado para se tornar a maior potência do mundo pós Primeira Grande Guerra. Mas também é certo que o Führer mesmerizou o culto povo alemão com facécias estapafúrdias, tais como o mito da supremacia ariana, da pureza racial, da demonização dos adversários políticos, do Holocausto, da divinização e mitificação do líder, e tantas outras mazelas. São mentiras que ainda hoje seduzem pessoas, tais como os skin heads neonazistas e outros supremacistas de qualquer cor ou crença.
Daí que o certo é não radicalizar, sobretudo em julgamentos. Há que sopesar com prudência e senso crítico aquilo que é e aquilo que não é favorável. Em qualquer questão, da mais simples à mais complexa, sempre haverá prós e contras.