Já se disse que, na natureza, nada se perde, nada se cria e tudo se transforma. Por mais que a humanidade se ache especial, o corpo humano se desfaz e, como todos os demais, perde a sua forma e se reduz aos sais minerais e compostos químicos, para se reincorporar à natureza.
Nunca deixamos de ser parte da natureza, embora tenhamos nos esforçados para vê-la como algo a nos servir, colocando-a bem abaixo do nosso ego.
Somos tão natureza quanto o elefante ou o micróbio. Somos parte do todo e não vivemos autonomamente sem esse pertencimento.
O fato de produzir os alimentos não nos coloca como devoradores de comida que não tenha origem natural. Fazemos do mundo a nossa lixeira e em proporção tão elevada que o meio ambiente não consegue processar o lixo, no espaço de uma existência nossa. Quanto mais urbanos e distantes do meio, mais adoecemos a mente e o corpo. Haja depressão e ansiedade.
A verdade se distrai quando nos perdemos de nós mesmos, em meio a discursos que usurpam a sabedoria das antigas lições.
Parece que somos bêbados numa “festa estranha, com gente esquisita” – como já cantava o Legião Urbana – onde não nos encaixamos. Em parte, percebemos que há dissonância no discurso que nos é dirigido, por lideranças políticas, propagandas de empresas e notícias veiculadas nas postagens. A fala a todos não serve a todos.
Além disso, estamos cansados de ouvir uma coisa distinta da prática e ainda ser questionados quando apontamos a incoerência.
Quem dera se todos pudessem falar somente após estar saciados, de comida e bebida, como falava Platão. Só assim a verdadeira verdade ganharia o verbo.
Um banquete! Não somente refeição farta, mas banquete faustoso e além do cinematográfico. Um banquete histórico, com tudo a que se tem direito…
Após todos estarem saciados, estaria a verdade liberta e correndo pelas veias e artérias, para dar lugar ao início dos discursos e das falas, com as propostas, as promessas, os planos e as reais intenções sendo declarados e confessados.
Falamos nisso por influência de antigo ensinamento, contido na frase in vino veritas, in aqua sanitas, significando que “no vinho está a verdade e na água a saúde”. Não se tratava e não se trata de apologia ao álcool.
A questão é que a frase representa a tendência de se perder os freios inibitórios e a vergonha quando se está sob o efeito do vinho.
Se a mentira precisa da frieza mental e é trabalhosamente estruturada, a verdade é simples e direta e não gera contradições. Isso faz com que a mentira não seja eficaz naquelas circunstâncias.
A verdade é simples e direta, não precisa de fantasias, cores e disfarces. Não suporta versões e subdivisões. Ou é ou não é.
No formato oposto, ao contrário da verdade, a mentira traz a manipulação e ambas são tortas, construídas sobre premissas falsas que não podem exsurgir. Devem ficar no lodo e nos levar ao atolamento, dificultando que floresça a verdade e, com ela, a nossa liberdade decisória.
Em cerca medida, somos tão humanos quanto os Antigos e ainda sofremos por amor e desilusão, pranteamos os falecidos entes queridos, oramos por curas e benefícios alvitrados, lutamos nas guerras e trocamos o suor dos nossos corpos por comida. Temos as mesmas humanidades, a mesma medida, os ventos da ética e da moralidade a nos açoitar as ideias e ações e ainda mais facilmente somos traídos por amigos, já que os inimigos mantemos à distância.
Somos esperançosos e crentes e, por isso, tendemos a acreditar nos discursos construídos para nos dizer aquilo que mais gostaríamos de escutar.
No entanto, o que pensam de verdade? Qual a reticência que não nos dizem? O que omitem, quando emitem certas palavras de convencimento?
Algumas propagandas são feitas de forma tão contundente que nos surpreendemos como pudemos viver sem aquele produto milagroso!
No mesmo sentido, acreditamos que o país e o mundo mudarão a partir da eleição de um ator político, como se a partir dali tudo fosse se transmutar em sabedoria e fartura.
A virtude não resiste à calúnia, do mesmo modo que a verdade simples e direta não resiste à encenada mentira. Parecemos mais seduzidos a crer na mentira do que na verdade. Resistimos a dar o braço a torcer quando percebemos o erro e o quanto nos incomodamos com a inocência que nos fez cair de novo no mesmo conto.
Pranteamos o leite derramado sem aprender a lição, do mesmo modo com que arrastamos correntes vida afora sem nos libertar daquilo que nos aprisiona. Temos sido mais escravos de nós mesmos, da nossa embotada visão de mundo, das nossas cegas paixões e na nossa capacidade de mergulhar nas envolventes narrativas que nos distraem da realidade. Tendemos a dar mais valor em dois pássaros voando do que ao que temos nas mãos. Confiamos o nosso voto, o nosso dinheiro e a nossa fé mais essencial nas promessas vazias que nos chegam por vozes sedutoras, sem que o interlocutor seja capaz de nos olhar nos olhos.
Somos ainda escravos da paixão, como dizia Shakespeare, em Hamlet.
Outrora como agora, somos os mesmos, agimos do mesmo modo, crédulos guiados não por cegos, mas pelos que enxergam bem além dos nossos empáticos olhares.
Somos ferramenta, instrumento e meio para que o Poder siga a sua senda e se sirva de nós, inclusive quando tudo muda para que nada mude.
Longe se vai o tempo em que filósofos e pensadores morriam por suas ideias e ideais. Parece que a massa quer o delírio de uma noite de verão à realidade verdadeira do dia de sol.
Sim, vivemos tempos difíceis, em que a Dopamina é liberada por curtidas em postagens nas redes sociais e aplicativos de celular, com essa virtualização e artificialidade das sensações de prazer e satisfação.
Onde nos perdemos de nós mesmos e da nossa humanidade? Quando trocamos as passeatas pelo compartilhamento de postagens? De que forma a marcha dos sensatos deu lugar à cancelamentos e curtidas pela internet ou celular?
Não percebemos que a rede onde nos expressamos é a mesma que nos aprisiona e que a tudo monitora? Emoções tem sido motivadas por algoritmos, sensações e prazeres têm sido fomentados por programas e reações a sensações virtuais têm sucedido ao mundo real.
Como já disse Nietzsche, a loucura é rara nos indivíduos, embora seja a regra, “nos grupos, partidos, nações e épocas”.
Vivemos tempo complexo, onde a liberdade virou conceito fundamental, mais do que valor real.
A nossa sanidade tem sido testada a cada instante, quando percebemos, mais do que por vezes compreendemos, como a verdade, a manipulação e as antigas lições são usadas e deturpadas para nos manter súditos famintos e distraídos com “pão e circo”, enquanto o Poder desfila no andar de cima e se regala com faustosos banquetes, com vinho e mais… e verdades para poucos eleitos.