No momento não pude dar resposta, realmente é algo a se pensar e essa habilidade que nos torna humanos também pode nos fazer sofrer, lembrar, reviver, porém, nos liberta, ensina e nos faz melhores.
Ao pensar sobre a proposta de repetir a idade fui percebendo que mesmo não tendo muito a comemorar, tenho muito a agradecer. Foram tantas lutas, travamos tantas batalhas, enfrentamos tantas dificuldades e por isso mesmo obtivemos muitas conquistas, incontáveis vitórias, entre elas, a própria vida.
Fomos conduzidos a estar em um limite geográfico com familiares e a desfrutarmos da própria companhia, muitas vezes percebendo o quão egocêntricos somos e o quanto somos difíceis.
Perdemos bastante e algumas dessas perdas são irreparáveis, nada poderá substituir, suprir, compensar o que nos subtraíram e por isso podemos parafrasear Marcelo Rubens Paiva, autor de Feliz Ano Velho, ao titular da mesma forma o ano de 2019.
Apologia os anos anteriores e esperança no próximo, nós humanos, somos assim mesmo, como em todos os outros anos esquecemos aquilo que não deu certo, o que nos fez sofrer ou fracassar e esperamos do novo ano que seja melhor, com mais conquistas e sonhos a serem alcançados, com o sucesso e a sorte que desejamos.
Quem seremos após a trágica pandemia de Covid19?
Todos estamos fartos desse vírus que nos tira o que temos de mais valioso. Além da vida, nos tira a sanidade e o equilíbrio mentais, a companhia de amigos, familiares e amores, que nos nega a companhia de queridos, do bom papo, de fazer planos e de festejar os encontros, os aniversários, os passeios.
Nem contabilizamos mais as perdas financeiras ou materiais. Nos mantemos focados em quem resultamos enquanto vítimas quando a morte, a doença e o isolamento nos alcança ou algozes da humanidade a qual pertencemos e na qual nos desumanizamos na exploração, na ganância, no acúmulo desnecessário e consumista a que nos habituamos.
Seremos melhores?
Pela lógica da evolução, do desenvolvimento a resposta é sim, nos tornaremos mais solidários e sensíveis, valorizaremos os abraços, os encontros, a companhia, mas será apenas por pouco tempo, por um pequeno tempo, um breve tempo, enquanto gozaremos as alegrias pequenas do ser, do estar e do sentir. Seremos gratos por miudezas da vida, por olhares, apertos de mão, por opiniões e conselhos.
Amar, cuidar, proteger serão mais importantes do que ter ou possuir. Sentiremos o prazer de sermos necessários e amados, mas em breve retornaremos à ciranda da rotina que valoriza a ostentação, a quantidade em detrimento da qualidade, da competição desenfreada e capitalista do consumo e da exibição, logo estaremos no carrossel de ilusão onde misturamos e nem sempre distinguimos entre o ser e o ter.
Ao voltarmos ao suposto normal, quando pudermos ter novamente nossos queridos num abraço apertado, apesar da felicidade desse momento, haverá uma tristeza, uma falta, um desencanto.
Em todos os lugares em que retornarmos, na igreja, no trabalho, na escola, na família faltará alguém, estará incompleto, passará pela nossa consciência um filme do que éramos antes e sentiremos a dor do que somos agora, daquilo em quem nos tornamos, naquilo em que nos transformamos.
Nada suprirá o que a pandemia nos tirou, a alegria do reencontro não superará a tristeza da ausência. Fomos diminuídos enquanto humanidade, nunca mais retornaremos ao ponto de partida e essa será uma conta muito cara que teremos que arcar, que nos custará em afeto, em vazio de alma, nos custarão muito caro as ausências.
E mesmo assim, por sermos humanos, é que apesar da tristeza e do sofrimento ergueremos bem alta nossa bandeira de esperança, de renovação, de força. Faremos do novo nossa nova alegria, celebraremos a vida, o amor, o respeito e a crença de que dias melhores virão e que renovaremos na bondade, na empatia, no colorido da diversidade tornando o mundo pós pandemia num mundo melhor e nos reeditando maiores e melhores do que éramos no infeliz ano velho.
Denise Morelli, São Paulo, Psicóloga, Centro Universitário do Norte Paulista.