Quem nunca se sentiu perdido por ter seguido os passos de quem se apresentou como profundo conhecedor de algo e que, repentinamente, se percebe nada saber? Quando isso ocorre, ficamos desamparados e com “cara de cachorro que caiu da mudança”.
Quando integramos grupo que segue um líder assim, corremos o risco de ser levados ao precipício, como metáfora para o desastre pessoal e financeiro ou, em escala social, político.
Quem acha que sabe tudo, nada sabe. Sócrates – logo quem! – dizia que só sabia que nada sabia. O conhecimento do mundo é infinito, as bibliotecas encerram livros, que contém páginas, digamos, cheias de letrinhas. Cada letra é um símbolo e a combinação de tantos não cabe no oceano de dúvidas que animou a humanidade e nos fez dominar o fogo, migrar, desenvolver o uso da roda, o início da agricultura e da escrita, as técnicas de forjar o ferro e o bronze, a medicina, a penicilina, a luz elétrica e tantas incontáveis invenções.
Se os seres humanos tivessem a certeza de tudo e tudo fosse imutável em cada década dos tempos antigos, ainda viveríamos como dantes.
Aliás, não podemos ignorar os pergaminhos e os rolos com textos antigos. Não podemos descartar o que ainda não foi decifrado e que, portanto, ainda não foi revelado. De quantas Pedras de Roseta precisaremos para perceber que temos muito a aprender?
Apesar de tudo isso – e de muito mais – Sofomaníaco é quem precisa parecer sábio, dono da verdade e conhecedor dos assuntos abordados. Interrompe os demais, dá a sua opinião, acaba dominando a conversa e saindo como o sabichão – e não gosta de ser contrariado, nem pelos mais qualificados conhecedores.
A bem da verdade, esses traços se constituem em tipo de projeção de imagem, para ocultar insegurança.
Como auto projeção imagética, precisa que se fabrique um lugar de fala e um contexto protetor, como área de segurança. A verdade absoluta não passaria a importar, na medida em que, para o objetivo da autoimagem construída, a mentira ou manipulação da realidade seriam apenas meios, naturais, como ferramentas úteis.
Politicamente falando, a sofomania menos afetaria a quem a possua, como líder, do que aos que o seguem e ao povo – esses, destinatários das suas ações.
Como dito, não gostam de ser contrariados, talvez pelo fato de que assim seria revelado o seu não conhecimento dos assuntos que apenas aparenta dominar.
Podemos considerar que, sem saída argumentativa, talvez tenham tendência de atacar pessoalmente o interlocutor, mantendo, ainda assim, uma áurea superior, professoral.
Atribui-se à Platão a frase de que o sábio é aquele que sabe que nada sabe.
A inteligência não é a própria sabedoria. Esta é construída pelo aprendizado e pela troca de experiências. Em certa medida, a sabedoria é o acúmulo do complexo de circunstâncias individuais.
Ao contrário da soberba, a sabedoria combina com uma mente aberta a novidades, ao comportamento humilde e à empatia, sem os quais haverá resistência à absorção e percepção do que se apresentar como novo, como desafiador, como algo a se analisar e compreender – até para concordância ou discordância.
Precisamos estar abertos aos desafios do princípio da vantagem comparativa e vencer o peso da influência de uma certa psicologia do subdesenvolvimento, para aceitar a realidade, como elemento sólido e alavancador de um futuro diferente. Só assim se transformarão as estruturas sociais e, sim, temporais da modernidade.
Aliás, a realidade não pode ser modificada por novo significado linguístico. O que é não deixará de ser, por receber outro nome. Até nos contos infantis a magia das fadas não modifica a essência, só a aparência.
Do outro lado do fosso, longe dos castelos onde os discursos empolados costumam desfilar, o povo é empalado historicamente pela realidade a que está adstrito. Pode fazer revolução, pode tomar as ruas, pode derrubar símbolos de opressão – que logo outros sentarão nos tronos dos antigos déspotas e, como cordeiros mansos, destilarão em nome do povo os belos discursos, enquanto obrarão para se manter no poder. No fim, “opressor e autoritário” era o outro e o “minha tirania” acaba servindo para te (e se) proteger do outro. Algo como se o remédio matasse pela doença.
Na verdade, com esse ou aquele situação e om essa ou aquela liderança, no Antigo Regime feudal ou nos sistemas pós revolução, o povo segue como tal, longe dos tapetes vermelhos, dos rituais das cortes e do interior dos palácios e gabinetes.
Trocaram-se os títulos de condes e barões por medalhas de mérito e comendas simbólicas.
Trocaram-se o domínio dos rincões distantes por empresas. Trocaram-se os governantes hereditários e os seus apoiadores, cujas famílias casavam-se entre si, para se protegeram das ascensão social dos camponeses e, sim, ainda a respeito, mantinham certos filhos como bastardos para que não pudessem ter direitos hereditários ou ao trono, etc.
Trocamos esses governantes hereditários, cujo poder monárquico se mantinha no seio de uma família dominadora, pelo “revezamento” feito na cadeira do poder, com eleições periódicas onde simbólicos representantes de um ou outro grupo possam ter o seu tempo de governo.
Ainda assim, ali, apesar de toda a bela e simpática escola democrática e republicana ocidental, o sistema ainda é minoria no mundo e, mais do que isso, os verdadeiros “donos do poder” estão à margem desses holofotes da mídia, das faixas presidenciais e dos carros oficiais, faturando alto, dominando atividades econômicas, grandes negócios transnacionais, precificando alimentos e energia e ditando os rumos da economia mundial, regional e setorial – enquanto o povo, os povos, as gentes, continua sonhando com um amanhã certo, bondoso e próspero, com empregos, alimento e moradia, como fartamente falam os discursos proferidos pelos eleitos de plantão pelo mundo.
Ao desatendimento dessas promessas, novas oportunidades eleitorais se têm, nos ciclos periódicos de escolha de governantes, nesse revezamento de cadeiras – e renovação de promessas.
Enquanto isso, estamos reféns, de qualquer jeito. Somos vítimas das circunstâncias para as quais colaboramos como donos do poder popular, que o exerce por meio dos seus representantes, que nem sempre nos representam, talvez porque, do alto da nossa postura de seres humanos que não dão o braço a torcer e se parecem seguros de estar sempre certos, não ouçamos o que tem a dizer o outro lado, não damos o braço a torcer e não deixamos de agir, de certo modo, com pequenos traços de sofomania, como se entendêssemos de macroeconomia, de geopolítica e de coisas tão ou mais complexas, tendo opiniões – “sólidas e seguras”, apenas em decorrência de algumas linhas digitadas em aplicativos de conversas e nas redes sociais.
No fim, o ciclo se fecha, com a escolha de quem fale o que queremos ouvir e não o que precisamos – e a vida segue.