Sopa de letrinhas, para a nutrição infantil e distração da criançada, funcionou bem, na década de 90. Foi um “xou aos baixinhos”. Quem precisava forçar, quando a receita pronta vinha a encantar o alvo? Assim é, na apresentação de causas e efeitos sociais e econômicos indigenistas, no país.
Começam sempre com a letra N de negligente. Apontam o Y, dos Yanomamis. Inserem também o G de genocídio e demarcam o R, de Roraima. Adicionam ainda D, de desnutrição, M de malária e outras letrinhas a mais.
Avisam os preparadores da mistura que a receita inclui crise sanitária e humanitária, atividade ilegal, contaminação dos rios por mercúrio e morte de crianças, além de atos contra a democracia.
Mesmo assim, sem correr o risco de parecer indigesta, a receita inclui G de garimpo e I de ilegal. Tem também o F de fim de atividade garimpeira. Pronto! Feito o prato predileto servido a Chanceler, no Palácio do Planalto, em Brasília.
As letrinhas seduzem, elas esculpem formas e interpretações ou até divagações sobre temas pesados e indigestos. De competência exclusiva, constitucional e histórica, como a autorização, em terras indígenas, da exploração e do aproveitamento de recursos hídricos e da pesquisa e da lavra de riquezas minerais, tais letras atraem investimentos.
Em reportagem de âmbito nacional, circulou, nesta segunda, que a Alemanha anunciou a doação de 200 milhões de euros para ações ambientais no Brasil. Na cotação atual, o valor pode chegar a R$ 1,1 bilhão. Letras caras!
Há um tom de convencimento de que a atividade minerária tem provocado toda ordem de desgraça ambiental, das últimas décadas, nos interiores da Amazônia. Dão-se sabor de mercúrio à mistura. Substância essa produzida pela própria natureza, mas, inadvertidamente, despejada na letrinha G de garimpo.
E, como por ultima ratio, o Presidente Lula surge e brada: “Então decidimos tomar uma decisão: parar com a brincadeira. Não terá mais garimpo. Se vai demorar um dia ou dois, eu não sei, pode demorar um pouco, mas que nós vamos tirar, vamos”.
Que sossego saber que o Presidente, certamente, guarda melhor alternativa aos povos da Amazônia, inclusive, aos indígenas, que da atividade garimpeira sobrevivem, desde antes da Constituinte!
Confiar com C maiúsculo é pôr-se em reverencia às decisões do Executivo, sobre os 203 milhões de euros, que serão divididos entre Fundo Amazônia e estados da Amazônia, para maior proteção da floresta e, quem sabe, ir além da floresta e perceber o povo dela! O A de amor pelo povo Yanomami fica nítido com a destinação de tanto recurso alemão.
A sopa de letrinhas da década de noventa traz a mesma organização fundamental das prioridades para a nutrição infantil, quanto as decisões políticas, baseadas em narrativas soltas e acordos internacionais, trazem, para o desenvolvimento socioeconômico de um povo. É querer aplicar a geopolítica que funcionou lá em outro continente, aqui e agora. E aí ocasionam a distração de alguns “xous” pitorescos, como o da atividade garimpeira.
Não há que discutir: os garimpeiros, sejam indígenas ou não, carecem de ordenação e coordenação, para se socorrerem de legalização. E, por mais que busquem, a eles é negada! Assim é, na apresentação de causas e efeitos sociais e econômicos indígenas e garimpeiros, no país! Independentemente do estado da Amazonia, o alfabeto a se percorrer para regularizar tal atividade tem mil letras e ordem nenhuma. Quanto pior, melhor!
Aos que se servem da mistura, vale todo tipo de alarde, incluindo, porque não, inquéritos federais, que, ao fim, se nada derem, renderam manchete com muitas letrinhas de sangue sobre a honra dos povos do fim do mundo: os amazônicos.
O toque de chefe à receita vem com as operações mega elaboradas destroçando fogo do céu e queimando bens e casas, além da honra de um povo invisível. Aliás, o I de ilegal e invisível é gourmet, posto serem servidos com requinte, nessas ações federais, cuja repercussão degradante emudece as populações investigadas e incendiadas pelas forças operacionais.
Como dizia: as letrinhas seduzem, elas esculpem formas e interpretações ou até divagações sobre temas pesados e indigestos. São mais de cinco décadas de indigestão por letrinhas mal ditas sobre seu próprio povo. Povo rico, povo trabalhador, povo ordeiro, povo que não precisa de ajuda estrangeira, para se ordenar ou se nutrir. Povo com P maiúsculo que precisa apenas ser apreciado e ouvido, em sua magnitude. Povo de Atitude!
Sopa de letrinhas
