Parece estar para nascer uma mulher que, depois da maternidade, desconheça a sensação da culpa em relação a algo que fez ou deixou de fazer pelos filhos. A lista das situações que despertam essa falta de benevolência consigo mesma é longa.
A crença coletiva de que cabe à mãe os cuidados com as crianças é a principal razão para a autopunição que elas se impõem. Os homens estão mais acostumados a ter autonomia e independência e são menos cobrados em relação à criação dos filhos. Embora eles estejam mais participativos, a divisão de tarefas ainda é desigual:
Se um programa com os amigos é importante para o homem, ele vai sem os filhos numa boa. Já a mulher vai com culpa ou nem vai.
O excesso de informação deixa as mães “perdidas”. Com um acesso mais fácil a todo tipo de conteúdo, seja pela internet ou em livros, as mulheres deparam com opiniões nem sempre convergentes. Então surgem dilemas como “tenho que investir na minha carreira ou ficar mais em casa?”, “devo passar mais tempo com meu filho ou com meu parceiro para salvar o casamento?”, “posso brigar com minha filha ou não, porque criança tem que ter autonomia?”.
É importante reconhecer seus valores, saber o que quer passar para o seu filho.
A lista das situações que despertam essa falta de benevolência consigo mesma é longa.
Se a mulher está segura do que é importante para ela, fica mais conectada consigo e com o filho, para criá-lo da melhor forma possível, sem tanta culpa.
Existe essa ideia do senso comum de que não há nada pior, para uma mãe, do que um filho violento. Não sei o que eu faria no lugar de Eva Maria Sousa. Diria que “a culpa não é minha”, como ela faz na entrevista publicada no UOL? E, ao dizer isso, estaria se desculpando pela existência do filho? Estaria pedindo perdão aos familiares das vítimas? Ou estaria se desculpando por ser mãe?
Se a mulher está bem, tem seus espaços para fazer o que gosta, vai ser uma mãe mais feliz. Se ela só lida com chatices, só recebe cobranças, fica triste e isso vai passar para o filho. Vai faltar paciência para as crianças, ela vai brigar com o marido… Quanto mais igualdade houver no lar entre o casal, mais a mulher vai se sentir tranquila.
Há 10 anos aprendendo a lidar com a culpa materna – idade do seu primogênito –, Lola, que também é mãe de outro menino de quatro anos, tenta acalmar o seu coração – e o de outras mães:
– Acho que precisamos pegar mais leve conosco, né? Com toda a certeza, acertamos bem mais do que erramos.
“Me culpo quando estou cansada para brincar, quando tenho que fazer algo em casa como lavar louça, fazer comida, e ele quer brincar. (…) Estou trabalhando isso em mim diariamente, mas vira e mexe essa culpa aparece. Estou fazendo academia às 6h da manhã, acordo às 5h só para não ter que fazer depois do horário em vez de dar atenção a ele. Mas essa escolha até que está sendo bem boa pra mim, fico com mais disposição o dia todo. Ah, me culpo por ele não comer em casa o que eu faço e por, às vezes, esquecer de escovar os dentes…”
Gisele Mendes, analista tributária, de Gravataí
“Acho que, quando nasce uma mãe, a culpa nasce junto! Tenho dois meninos, de 13 e de 12 anos. A minha maior culpa é ter pouco tempo com eles por ter que trabalhar. Sou médica, já alterei muito a minha rotina, até outra especialidade médica faço para ficar mais tempo com eles, mas mesmo assim não é fácil!”
Berenice Scaletzky Knuth, médica, de Pelotas.
Dizem que a culpa da mãe nasce com o filho. Já na hora do parto, vem a dúvida: será que era melhor ter optado por uma cesária? Ou por um parto natural? Será que meu filho vai ficar, em algum nível obscuro da psique humana, traumatizado pelo resto da vida pelo jeito como veio ao mundo? Com as atribuições da vida moderna, será que o filho está sendo negligenciado? Será que ficará marcado pela ausência da mãe que tem que trabalhar? Será que as escolhas são as corretas? Devia matricular no futebol ou no balé? Como escolher a escola? É certo comprar aquela boneca? Será que vai crescer saudável e fazendo boas escolhas?
“Se a criança cresce respeitadora, saudável, inteligente, cheia de sucesso, a criação dos pais foi certinha. Agora, se dá errado, se tem algum trauma, a culpa é toda da mãe”, conta a juíza Rejane Suxberger, 42 anos, mãe de Joaquim, 6 anos, e Mariana, 7 meses. Rejane é juíza da vara de violência doméstica e foi, anos atrás, responsável por julgar casos de tráfico de entorpecentes. Foi quando teve contato com várias mães de jovens acusados e descobriu que a falta de uma base familiar forte era constante. “É só quando se tem contato com histórias de pessoas no mesmo nível social que prestamos atenção, acreditamos que pode acontecer com a gente. Conversei com muitas mães que não estiveram presentes, que trabalharam demais, que não acompanharam de perto o que os filhos estavam fazendo e acabaram na Justiça. Eu me cobro muito por conta dessa vivência, pelo que eu vejo muito de perto.”
Por trabalhar muito — fica a tarde e o começo da noite no Tribunal, leva trabalho para casa, espera as crianças dormirem para trabalhar mais um pouco, acorda antes delas na manhã seguinte ou separa mais uma hora antes de sair para trabalhar mais um pouquinho —, Rejane tem medo de não passar tempo suficiente com os filhos para garantir que cresçam bem, apesar dos dois estarem sempre bem assistidos pela família e por pessoas de confiança da família.
“A culpa pra mim é inerente à maternidade. Sinto culpa quando estou no Tribunal, culpa quando estou trabalhando em casa, quando viajo sem eles, quando saio com um e o outro fica em casa. Sinto culpa até quando vou ao cinema. Monitoro tudo por telefone, mas não é a mesma coisa. Eles estão bem, felizes, eu que fico mal. Faço até terapia por conta disso, é uma situação que não tem como resolver”, explica.
Para compensar a ausência, dorme por pouco tempo e está em vigília até durante o sono, já que a filha pequena exige atenção. Tem dias que acorda quebrada. Já levou criança doente para o sofá do escritório enquanto trabalhava, tenta dividir o tempo com qualidade para estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Em um período que o trabalho era ainda mais pesado, sentiu-se tão culpada que, ao perder o primeiro dente, aos 4 anos, Joaquim ganhou R$ 100 da fada do dente. “Meu marido que me trouxe para a realidade, o que ele ia fazer com R$ 100? Eu dei uma inflacionada. Entendi que tentar compensar com bens materiais é pior, porque a criança fica frustrada. Tudo o que ela recebe é pouco para o que ela precisa. Minha preocupação é essa, estar junto nos feriados, ter tempo de qualidade com eles”, conta.
Rejane explica que se sente responsável não só pela felicidade dos filhos agora, mas pelos adultos que eles vão se tornar.
Preocupa-se com o futuro, com formar pessoas do bem. “Tenho vários amigos adultos que questionam a ausência dos pais na infância, que enxergam os reflexos na vida adulta. Eu não posso delegar a educação deles para ninguém — a responsabilidade é minha”, afirma.
E isso tudo porque os filhos de Rejane foram planejadíssimos. Esperou a carreira estar como ela sonhou para ser mãe, para se casar. “Sofri algumas consequências por ter esperado tanto. Tive que fazer tratamento para engravidar do Joaquim. Depois, foram mais quatro anos, duas fertilizações in vitro fracassadas. Quando desisti, a Mariana veio”, lembra. Além de sentir a pressão para ser uma excelente mãe, a juíza precisa ser ótima no trabalho, uma esposa fantástica, linda e malhada. “É muito complicado.
Eu me sacrifico para fazer tudo, mas tem dia que estou quebrada. Tem viagens que eu faço só para poder dormir. Quando chego ao trabalho, foco tanto para ser produtiva e levar menos serviço para casa que me esqueço até de ir ao banheiro e beber água.”
Uma perfeita loucura
No artigo Mãe culpada e a busca da perfeição, a psicóloga americana Karen Kleiman explica que a culpa pode não ser normal. “A culpa é tão invasora que muitas mães, particularmente aquelas que são deprimidas, presumem que é uma parte natural da maternidade, que é algo incontornável atualmente. Judith Warner descreve os apuros que a mulher americana passa em seu livro Perfect madness (2005): ‘Muitas mulheres estão se tornando ansiosas e deprimidas porque estão sobrecarregadas e desapontadas. Muitas estão deixando suas vidas serem contaminadas pela culpa porque suas expectativas não podem ser alcançadas, e porque há uma enorme dissonância cognitiva entre o que elas sabem ser o certo para elas e o que elas escutam que é o certo para seus filhos’”, afirma.
Karen conta que sempre foi uma mulher independente, mas assim que entrou no mundo da maternidade, teve de recuar. Viu-se presa em uma panela de pressão de ‘oportunidades’ para jovens mães e seus bebês. Foi quando levou o filho de 4 meses para uma aula de ginástica para bebês. “Sentei no círculo de competitividade neurótica, escutando mães conversarem sobre qual bebê estava fazendo o que e quantas atividades estavam sendo espremidas em seu calendário no qual não sobrava tempo para dormir. Foi a primeira e a última aula que fomos e eu determinei algumas regras para manter a sanidade”, lembra. Entre elas, a psicóloga decidiu não se comparar ou comparar seu filho com outros, não se cobrar tanto, pedir ajuda quando precisar, respeitar seus instintos e fazer o melhor que puder.
Existe uma ideia que ser mãe é ser super-heroína. No momento em que se torna mãe, é como se vários poderes aparecessem e a mulher se torna capaz de fazer 1 milhão de coisas ao mesmo tempo. É uma idealização impossível. Daí vem a culpa e, com ela, a “certeza” de que a criança vai sofrer pela falta de habilidade da mãe. É um ciclo vicioso.
Na hora do desespero…
O site lifehacker.com fez uma lista de cinco passos para tentar se livrar da culpa materna:
1 – Decida se você fez alguma coisa que realmente deveria se arrepender.
Além disso, vale separar as coisas que você pode controlar das que você não pode e colocá-las em perspectiva.
2 – Aprenda a deixar algumas coisas passarem.
Segundo Debra Renner, coautora do livro Culpa materna, maternidade não é perfeição. “Você, como mãe, é responsável por providenciar um ambiente seguro no qual o seu filho pode crescer e aprender. A primeira dica para aprender a priorizar é se perguntar de que forma seu filho será prejudicado se você não fizer algo naquele momento. Se a resposta for “não muito”, ou “de forma alguma”, você acabou de achar um item que pode ser deixado para depois.”
3 – Lembre que a grama sempre é mais verde no vizinho.
Mães que trabalham podem se sentir culpadas por não estarem em casa com os filhos. Mães que ficam em casa podem estar culpadas por não ajudar na renda doméstica ou por não conseguir deixar a casa sempre perfeita. “Não há vencedores nesse jogo de comparações, então lembre-se que você está tomando as melhores decisões para a sua família.”
4 – Antes de reagir, pare.
Alguns dos maiores momentos de culpa são quando a mãe perde o controle. A dica é pausar e respirar antes de responder o filho.
5 – Encontre soluções práticas para as coisas que mais a deixam culpada.
Se você se sente culpada por não estar com seus filhos, separe uma hora por dia para se focar completamente neles. Outros pais ou blogs podem ajudar com soluções. “Lembre-se que sentir culpa é um sinal que você realmente se importa e que quer fazer o melhor para os seus filhos.”
Fonte:
https://gauchazh.clicrbs.com.br/donna/maternidade/noticia/2019/12/culpa-materna-como-lidar-com-o-sentimento-tao-comum-entre-as-maes-ck3hrt7jd00g301llrt8dbv0a.html
https://www.uai.com.br/app/noticia/saude/2016/05/06/noticias-saude,190230/sentimento-de-culpa-materna-e-vivenciado-por-todas-as-mulheres-mas-es.shtml