Ouço, aqui fazendo seleção e conexões em textos e contextos, desde cedo o cantar harmonioso de inúmeros pássaros, vejo a bougainville se enroscar na pérgola, a roseira nas grades da janela. Falei grades!? Sim. Sou prisioneira? Somos. Em plena liberdade, prisioneiros de uma sociedade subordinada às mentiras e ao desrespeito à vida, à valoração do dólar e dos pesticidas.
O jasmineiro com suas brancas pétalas faz um dueto com as lavandas e inundam com seus perfumes o jardim. Deixei de ouvir, por ora, os barulhos das construções das casas (Brinco que aqui na minha colina, junto às nascentes do rio Belém, é um canteiro de obras), silenciados que foram pelo cantarolar ou rolar da chuva tamborilando nos telhados, até nos de vidro.
Nos textos consigo colocar harmonia – é até simples. Mas na sociedade, será que os gestores se empenham em conseguir harmonia? Os rumores das dores alheias que chegam até mim deixam-me reflexiva… Não posso, não devo, me omitir. Então, compartilho com vocês situações que de fato não são harmoniosas e belas como eu gostaria.
Há por toda a parte um delírio de atos lunáticos. São desembestados, desencabrestados, ceifando sonhos e vidas cada vez que alguém “topa tudo” por dinheiro, luxuria ou poder – transformando-se em um nada.
Resulta dessa inversão de prioridades o ônibus imundo com gente espremida como sardinha em lata, nas esquinas os pedintes sem data, os drogados dos vícios escravos qual zumbis assaltando os desvalidos invalidados nos cantos escuros das cidades.
E eu que colho sonhos, como quem colhe gotas de chuvas por entre os dedos com as palmas abertas para as nuvens, eu persisto e insisto em esperançar, não desisto de no silêncio voar.