Imagine uma pessoa que costuma criar um tipo de animal em um apartamento… Coloca um ser livre dentro de uma mini redoma de vidro ou um pássaro que nasceu livre, voa para viver e vive para voar, dentro de uma gaiola, sem poder entender ou reagir ao seu novo destino ou porque, aqueles “senhores”, ali se encontram, violando e violentando sua cultura, seus territórios e determinando seu destino, quase sempre de forma catastrófica.
É mister, sempre considerar os paradoxos da política indigenista: entregam o usufruto exclusivo do solo de suas grandes áreas patrimoniais aos imemoriais, mas lhes retiram o constitucional direito de usá-los, com exclusividade, a seu favor e vontade e na trilha da melhor via para o seu amplo etnodesenvolvimento.
Não se pode vencer o princípio natural da alma humana, marcado pelo desejo de usufruir da modernidade que gera bem-estar social mínimo a todos, assim, os indígenas também descobriram esses bens de uso e consumo. Eles também são humanos!
Não há necessidade de se socorrer da trilha Darwiniana e da sinergia homem e ciência, toda essa ordem derivada da infraestrutura e do desejo da natureza humana em participar da vida moderna resume-se a uma única palavra – pan-evolução.
Quando Euclides da Cunha, mesmo vivendo só alguns anos no mundo Amazônico, conseguiu revelar das pegadas dos seus olhos todas aquelas cenas que ainda hoje se reproduzem. Suas cartas e escritos reorganizados, trazem complexas e desconcertantes revelações dos conflitos da vida amazônica e amazônida que hoje, ganharam maior escalas e indiferenças com a recidiva vitimização e uso midiático das sociedades tradicionais, povos imemoriais, já dominados pelas mídias idealistas de plantão, como nessa lenta, silenciosa e anunciada tragédia famélica das sociedades Ianomami, na fronteira entre Brasil com a conturbada Venezuela.
Quando no início do século passado, Euclides da Cunha acertadamente escreveu que “a Amazônia era o último capítulo do Gênesis”, ele já se afogava em grandes escritos e revelações de suas cartas sempre destacando as realidades desconcertantes, ou melhor, conflitos, pelas disputas por insumos ambientais e minerais nas nossas fronteiras. A esse em especial denominou de “Conflito inevitável”. A complexa questão indígena não Amazônia irá se revelar, pela primeira vez, de dentro pra fora. Será um processo de trato de muitos governos e talvez mais de uma geração de nossa Nação.
O que o Estado, a grande mídia e as ONG´s, respiram, em sua grande maioria, é um oxigênio de ignorância sobre essas realidades, tentando, até de paraquedas, jogar comida para essa importante sociedade imemorial, para salvar esses silvícolas, em verdade, se não mudarem essa política de “voo de Galinha”, em 30 anos, irão “matá-los” ou isolá-los em vilas ou aglomerados urbanos subnormais.
Padre Antônio Vieira já dizia, há alguns séculos, na defesa dos nossos imemoriais: “Quando os remédios não têm bastante eficácia para curar a enfermidade, é necessário curar os remédios, para que os remédios curem os enfermos”.
Para finalizar essa fase da visão “Euclidiano da Questão Amazônia” e parear ao episódio da “Tragédia Famélica dos Ianomami”, o autor de “Os Sertões”, assim e sabiamente definiu como devemos ver a Hileia de Humboldt: “Para se conhecer a Amazônia é preciso muitas vidas, numa clara expressão da impossibilidade de aprendê-la, exato por parcelas, fragmentos, pequenas unidades, sem nunca chegar ao seu conhecimento total.”
Quando ouvimos um jornalista ou outros “Globais” pensadores que falam da Amazônia, quase sempre na monocromática visão aquecimentista ou numa cegueira sobre visões etnodesenvolvimentistas, chegamos à conclusão de que jamais construiremos uma solução ampla, eficaz e duradoura para todos esses complexos problemas envolvendo as sociedades indígenas que vivem nas áreas interiores da grande floresta, sem perceber que eles têm quer ser ouvidos e seus desejos devem prevalecer.
Assisti, na CNN, o Jogador Casa Grande, fazer abissais reflexões sobre o destino das sociedades indígenas na Amazônia. Gosto da CNN, mas Casa Grande debater a Amazônia, é demais…
Do que adianta jogar de um avião a jato, e de paraquedas, duas toneladas de alimentos sobre a pista do Pelotão Especial de Fronteira (PEF), do Surucucu se esses indígenas já são bem alimentados?
Esses víveres dos não indígenas, afrontam a cultura alimentar neolítica dos Ianomami e, não haverá aproveitamento de 20% desses alimentos pois, eles não têm hábito de cozinharem alguns alimentos dos ditos civilizados e outros não conseguem sequer comê-los. E as panelas…
Outro tema que deverá ser banido desse debate é separar Ianomami por Estado Soberano. Na fronteira do Brasil com a França, os indígenas são bem acolhidos dos dois lados e muito bem tratados – buscam viver pendularmente, ora meio Francês, ora bem brasileiro. Depende de onde estiver melhor.
Assim, Ianomami é um só povo e temos que socorrê-los, pois ao iniciar sua catequese, “nós” os transformamos em humanos incapazes de viverem só da floresta. São dependentes de nossas “bondades” e vítimas de nossas doenças. A tirania dos antropólogos e o sinal da Cruz, foram o DNA dessa tragédia Ianomami.
As múltiplas facetas, desta importante região da Amazônia, em especial as complexidades envolvendo as novas economias satélites do novo “Narco Poder dos Metais”, precisam de uma abordagem reta, patriótica com atenção local e cuidados com os falsos interesses globais. Recorro, mais uma vez, às palavras do saudoso dr. Antunes Trajano, na revista veja, de dezembros de 1980, quando respondendo sobre a Amazônia e suas verdades: “é talvez, um caso único, em todo o mundo, de empreendimento que quase ninguém viu, conhece ou sabe direito onde fica, mas a respeito do qual todos discorrem com absoluta segurança, em geral contra”.
O teorismo acadêmico é necessário como exercício de sustentação da verdade, mas é mister ouvir os empíricos amazônidas e nossos cientistas da vida que conhecem as realidades pois sempre caminham “com olhos nos pés”. Não se pode mais dar total ouvidos a um falante só porque aparece ao lado Presidente, com cara e roupa de indígena do Texas americano, e passa a construir mentiras e realidades que irão contaminar a trilha da solução definitiva desses complexos problemas.
As fotos e imagens bem escolhidas geram uma miopia social da verdade e realidades do que realmente há, debaixo da Grande Floresta, é que não se revela as causas dos fatos e choque dessas assimétricas culturas. Esse processo tóxico foi construído e sustentado pelo próprio Estado.
Talvez aí nasça esse grande paradoxo amazônico, como revelação da existência de tamanha pobreza onde se inscrevem as sociedades locais amazônidas, em especial nas Terras Indígenas e nas grandes áreas patrimoniais, larga conservação na Amazônia, sobre incomensuráveis riquezas.
Onde está para Amazônia a liberdade que os bandeirantes nos legaram e o Brasil globalizado perdeu o gosto de clamar? Na Amazônia, cada passo humano feito na mata, deixa uma réstia de disputa e, às vezes, nascem conflitos. Como bem observou Eugene Horn, “a Amazônia não é uma terra de promissão, nem uma terra de riquezas incalculáveis, mas uma terra de problemas desconcertantes, ainda por resolver”.
A questão e governança das relações econômicas entre sociedades tradicionais garimpeiras, agronegócio e sociedades imemoriais indígenas exige apenas o chamamento a ordem de um estadista e de uma mídia mais comprometida com o destino da Nação, mas o desejo de produzir o bem-estar social de suas atuais e futuras gerações. Se há algo que pode fazer na floresta é a ampla e sustentável exploração de suas incomensuráveis riquezas e bens ambientais. Se sempre houve soluções, por que produzimos e anabolizamos os problemas?
Quando as ONG’s e a grande mídia mundial, impulsionadas pela cólera etno-ecológica, falam em complexidade amazônica, mesmo em um sentido geo-social, isso deve ser entendido menos em relação à terra do que em relação ao homem. Como vaticinou Charles Wagley “não é a natureza por si mesma, mas a condição humana em face dela, que cria verdadeiramente os problemas geopolíticos, e nenhum problema é mais complexo e ingrato nesta área, do que o de conceituar e sobretudo delimitar regiões, pois nem sempre é possível conciliar, no plano geográfico, as necessidades lógicas do espírito e da necessidade política, com a ordem natural das coisas.
O Governo Collor cometeu um grande erro ao expandir, sem critério técnicos e culturais, a Terra Indígena Ianomami para 9,6 milhões de hectares, maior que Portugal, progradando sobre os garimpos de Cassiterita e Ouro, onde os garimpeiros lá viviam, há mais de 50 anos, sem a presença dos Ianomami. Agora é episódio de Inês de Castro, nos Lusíadas de Camões…. já é tarde, Inês é morta.
A fronteira sem lei da Venezuela com o Brasil merece uma atenção especial. Estradas e energia fortalecem a tecnificação das economias no meio rural amazônico. As assimetrias econômicas entre Brasil e Venezuela acirram essa agonia e o caos etno-ambiental dessa delicada região. O nosso País, precisa conhecer a verdadeira Amazônia humana e, finalmente, construir uma governança capaz desenvolver com harmonia a trilogia NATUREZA, CULTURA E TRABALHO.
A Amazônia e suas riquezas, não podem continuar nessa dormência social, em nome de uma rima etno ecológica que só produz pobreza. A questão se agrava abissalmente quando essas áreas patrimoniais, ditas na Constituição de 1988, como patrimônio nacional, fazem fronteiras com outros Estados Nacionais, onde a governança local é feita por setores de atividades econômicas dirigidas pelas milícias dos metais e/ou extração de insumos ambientais valiosos, além é claro, da já “centenárias narcoeconomias”.
O nosso querido autor de “Os Sertões”, foi cirúrgico e mundividente quando vaticinou: “Se desde sempre duvidar da eficácia de ficcionalizar a história sem pôr em risco a veracidade do relato, agora era como se esbarrasse em obstáculo maior: a Amazônia de brutalidades inauditas ,e violências atrozes vinga-se de todas as tentativas de pô-lo em prosa, seja na ordenação cronológica de relatos falhos, seja na pintura de paisagens entre extremos de monotonia e caos”.
Irei abordar no próximo artigo como tema sequencial Parte II as implicações colhidas do processo territorialista das TIs e de anabolização e progradação dessas grandes áreas “ditas” indígenas sobre as áreas de atividades garimpeiras e potenciais metalogenéticos e suas atuais implicações globais, nacionais e locais.
Enquanto o “Brasil” etnocêntrico, nos agride com seu caminhar de costas para a existência das sociedades amazônidas e imemoriais, vamos continuar nossa jornada em busca da sobrevivência, somos ainda o último suspiro de brasilidade e garantias de nossa defesa. É tempo de mais Brasil e de menos Brasília.
Como corolário dessa grande omissão do Estado Nacional e da guerra de “quinta Coluna” realizada pelas ONG´S estrangeiras, mas tocadas por nacionais é que estamos desantropizando nossas fronteiras, com alta densidade de riquezas minerais e criminalizando retrospectivamente, esses espaços e seus ocupantes, isso mesmo, indígenas e não indígenas são lançados no triste mundo do crime e nos braços dos novos poderes locais: as milícias do Narco Metais.
As sociedades tradicionais garimpeiras, uma vez definidas de forma legal, um espaço territorial para o exercício sustentável de suas atividades, poderão também, com apoio dos governos Federal, Estaduais e Municipais e de organizações de capital social local, explorarem esses e participarem do uso sustentável de novos insumos ambientais existentes na floresta, de forma que ao longo do tempo, estarão substituindo atividade mineral pelas atividades de uso e manejo de insumos ambientais, pela via da sustentabilidade.
O meio ambiente é essencial, mas não pode ser o maior protagonista de nossa pobreza. Não haverá solução para a “Grande Floresta (Hileia) de Humbolt sem incluir todos nós, as sociedades amazônidas.
Msc. Antonio Feijão