Convenhamos, comentar sobre as prioridades de terceiros, externadas, em nossa sociedade é o mesmíssimo exercício, só que mais amplo, socializado e, de certa feita, empático. O meio social, estruturado por zonas urbanas e rurais, condensa uma imensidão de entendedores e intérpretes calados, mas plenamente atentos. Quase sem nossas manifestações, a democracia participativa segue feliz, até os dias das alvoroçadas eleições.
Nesse tempo, algum clamor quer sair pelas nossas bocas, contudo, não soa sagaz por manifestar preferência, afinal, o que se ganha com isso? No final do dia, continuamos com a situação de vida de sempre, pouca coisa mudou, além dos nomes eleitos a cargos públicos periódicos. É aqui que somos tomados pela insatisfação não dita. Mal sabemos o que priorizar em nossos valores, em nosso lar, em nosso bairro, como saberíamos verbalizar as prioridades e exigi-las, em âmbito municipal, regional ou nacional?
A profundidade do problema é tamanha que sai representante eleito, entra representante eleito e continuamos desconhecendo o que compete a quem e o que cada um tem como prioridades em suas políticas públicas. Nem sempre entendemos que as carências que nos abatem, dia a dia, estão no primeiro degrau de políticas públicas, com altos orçamentos destinados ou, pior, que os orçamentos existem, mas nenhum projeto foi elaborado para obter aquela verba.
E assim nossos meios sociais deterioram-se, não suportam a crescente e desorganizada expansão urbana a que estamos inseridos. Falta escola, mas também falta hospitais. Falta segurança, mas também falta saneamento básico. Essa “falta” percorre o alfabeto inteiro. Tem carência de toda ordem. E quando se questiona por solução, vem “prioridades” por cima de “prioridades”. Cada representante eleito, tanto no Legislativo, quanto no Executivo, falando seu próprio “idioma”. Percebeu a Torre de Babel? É melhor que ninguém se entenda, porque assim somos mais suscetíveis a boas teses e argumentos.
Nos discursos de palanque, então, quem nunca se deteve pensando na diferença colossal entre progredir e desenvolver? São importantes e complementares, na política pública. Ocorre que desenvolvimento, ou crescimento, ou engrandecimento, só poderia vir após um bom e comprometido progresso. Nossa bandeira nacional, deslisa com todas as letras o progresso, para lá e para cá. Até a ordem, que lá se ajunta, não se mantém sem o progresso. Por isso, são inseparáveis.
Entretanto, varridos pela atração do desenvolvimento e secos de esperança, seguramos qualquer chance de nos aproximar do progresso, nem que seja a qualquer custo. É quando somos seduzidos por “vamos trazer o desenvolvimento para nossa cidade”, “vamos gerar 10 mil empregos diretos e blá, blá, blá”. Até precisaríamos finalizar a história, se você, nobre amigo, não fosse brasileiro. O final não poderia ser outro, senão inchaço populacional, de 30 a 40 mil pessoas postulando aqueles 10 mil postos de trabalho.
O desenvolvimento é atrelado ao capital, ao capitalismo, à força propulsora do dinheiro, que gera emprego e oportunidade de trabalho, mas que não deveria acontecer sem o movimento do progresso.
O que pode acenar que o progresso vem ocorrendo em nosso meio social? Certamente, sem medo de ofender teses dos experts das ciências sociais, a melhoria na qualidade de vida dos cidadãos, que conta com inúmeros instrumentos, para ser mensurada e comprovada e que é o melhor prêmio do progresso.
A sociedade que fica pronta para receber o desenvolvimento não será por ele atropelada, ofertará organização e proporcionará melhores expectativas de vida às novas concentrações populacionais. A sociedade que não necessita de polícia opressora, para contenção de crimes absurdos e violentos, está no caminho do progresso. Não é desarmar toda a população, é deixar de precisar de arma de fogo para autodefesa, é deixar de se deparar com abusos de todo aspecto, é conduzir e fortalecer os indivíduos, nos bancos de escola, não os enfraquecer com imposições deturpadas que os afastam de seus valores essenciais.
O Progresso é, para se fazer entender, menos que o paraíso e mais que a luta diária. Ele fica entre um e outro, mas não tem propriedades físicas definidas. Ele começa na educação, em casa e nas escolas, estando em nossa escala de prioridades, mesmo sem percebermos, é desejado por toda parte. Ele está no topo, possivelmente. O difícil é senti-lo, ouvi-lo e vê-lo de onde estamos, porque sempre somos induzidos a aceitá-lo como desenvolvimento.
Para nos fazermos entender, talvez seja preciso, antes, compreendermos, o que nos é dado como prioridade em palanques, em vozes representativas dos nossos candidatos escolhidos. O que se quer passar pode estar além do vocábulo lançado em nossos ouvidos. Contemos com nosso julgamento e nos amparemos nos demais sentidos para ver e sentir se o que nos rodeia é, de fato, progresso.