Viver é fazer travessias.
É chegar e partir a cada segundo sob a rotação e translação do mundo.
A cada travessia uma lufada de eternidade sacode e dá asas ao agora da nave da liberdade.
Ontem eu era, hoje sou.
Atravessei saudades, alegrias, sorrisos, mágoas…
Atravessei amores, dissabores, conquistas, fracassos…
Rodopiei em fiascos de ensaiados compassos; contudo, dancei com leveza e graça no palco que não sabia.
Sonhei com o abraço do amado; no entanto, aquele par perfeito foi rapidamente desfeito, acordei distante e sozinha. Não era desencanto, era mais uma travessia.
Encantei-me de graça. Uma graça inocente de olhar com pureza a chama onde a maldade ardia. Não se tratava da chama luzidia, era carvão em brasa, braseiro da travessia.
A travessia se faz nas ondas da ilusão, ou do temporal e impermanente, na imensidão do mar chamado existência.
Todavia, sem a ilusão, não há travessia.
E o fim de cada onda somente é doloroso quando alguém se agarra a ela, em vez de deslizar em harmonia em direção ao mar, onde ela irá desmanchar ao fim da travessia.