Filmes nacionais raramente têm o reconhecimento que merecem. Ainda hoje, há a crença popular leiga de que eles não são tão inventivos ou cativantes quanto os internacionais. Eu poderia listar uma série de filmes brasileiros que quebram esse estereótipo — e acredite, são muitos — mas essa semana um curta-metragem específico me chamou a atenção.
‘’Um Amor em Quarentena’’ é um filme carregado do autêntico ‘’jeitinho brasileiro’’, que através de um humor crítico e hilário narra a pequena odisseia de Firmino (Onaldo Júnior), um cearense que, no limiar da pandemia, começa a planejar seu casamento com Marizete (Cida Silva), o amor de sua vida, para o dia de São João. Apesar do penoso distanciamento social, Mino está decidido a se casar em 26 de Junho de 2020 de qualquer maneira.
Resgatando orgulhosamente as raízes do sertanejo e do folclore envolvendo a Festa de São João, o roteiro ainda tece críticas tão contundentes quanto divertidas ao negacionismo científico, mostrando-se de um humor sólido e perspicaz. A narrativa também converge com a realidade ao mostrar a nem sempre fácil convivência em família durante o isolamento, com direito a brigas, mas com a prevalência do amor.
Sustentado pela Lei Aldir Blanc, ‘’Um Amor em Quarentena’’ mostra-se um grande e pouco conhecido acerto da produção cinematográfica durante a pandemia, reinventando o tão famoso casamento na roça e trazendo à tona a realidade de uma pequena vila cearense com a alegria e sagacidade nordestinas.
Hush – A Morte Ouve (Netflix)
Recentemente, com filmes como ‘’Um Lugar Silencioso’’ de John Krasinski e ‘’O Som do Silêncio’’, de Darius Marder, a comunidade surda vem ganhando cada vez mais representatividade no contexto cinematográfico. ‘’Hush – A Morte Ouve’’ é um embate visceral entre uma protagonista fortíssima e um assassino cruel, com uma atmosfera de terror genuína e extremamente vívida.
No longa, a escritora Maddie (Kate Siegel) vive isolada em uma casa no meio de um bosque, tendo perdido a audição após uma meningite grave na infância. Um dia, um serial killer sádico assassina sua vizinha mais próxima, e após analisá-la com cautela, a escolhe como próximo alvo, criando uma situação em que a autora se vê presa dentro de casa, com o assassino do lado fora.
A princípio, o filme possui uma atmosfera tranquila e bucólica, ideal para a concepção de uma obra que requer tanto quanto um livro, mas como se descobre ao longo do filme, esse início é só para compensar os próximos minutos de agonia, tensão e suspense extremos, que se perpetuam até o final.
Criticando o mito do ‘’homem de bem’’ norte-americano e o capacitismo envolvendo a surdez, o diretor Mike Flanagan entrega um terror potente, repleto de ação e, é claro, pressão.