Cristiane foi uma criança que vi deambular pela minha rua como se debochasse da seriedade da vida e suas vicissitudes. Seus gritos estridentes, recheados de palavrões, cortavam a moral como uma navalha afiada. Nenhuma admoestação, mesmo severa, era capaz de frear seus gritos de revolta, que ainda pareciam sem causa. Antevia-se como uma infante que iria se notabilizar pela insurreição malina dos que nascem sem perspectiva. Havia em seu olho aceso e corpo robusto uma engrenagem pronta para enfrentar as adversidades da vida. Era um protótipo dos seres destemidos que nascem para fazer o que a maioria dos mortais não tem coragem de executar. Revelava-se como um instrumento vocal que fazia ecoar as revoltas adultas no timbre inocente que chamava a vida para briga aberta, sem qualquer pudor ou medo.
Na adolescência, Cristiane viveu a experiência das digladiações recorrentes que envolvem os que cedo se decidem pelo conflito aberto com as contradições sociais. Sua coragem era inspiradora e assustava os que se acautelam diante dos obstáculos da vida. Cristiane não quis os bancos escolares com seus livros e lições enfadonhas que a repugnavam. Sua vivência era no corpo a corpo com o cotidiano marginal que sepulta sonhos e estabelece o encurtamento tenebroso da vida. Apesar das advertências, seu tirocínio destemido para mundo sem lei, fazia-a caminhar para frente na rota fulminante que a levaria à colisão mortal e anunciaria o fim de sua dura e curta experiência terrena.
Cristiane partiu enrolada em lençóis indignos que sugeriu seu descanso eterno das refregas constantes do mundo que decreta o fim, sem piedade, dos lutadores antissociais. O tribunal do crime, seu algoz impiedoso, condena, numa contradição infernal, suas próprias práticas repugnantes. Nele não há direito de defesa, compaixão ou humanidade. As balas são apenas ecos cruéis das escolhas dos infortunados. Nenhum gemido comove e a morte é uma consequência sombria da opção pelo mundo onde não gravita o arrependimento pela ação de solapar a vida. Aliás, a vida não faz nenhum sentido para os carrascos de seus próprios destinos.
Há um choro estridente na minha rua, contraditoriamente silencioso. Cristiane, mais que seus palavrões expressivos, deixou para mim, numa mensagem comovente, uma lição doce que ecoa dentro dos corações dos que pugnam pelos humanos direitos. Sua admirável inocência há de se refletir no estado que se acovarda e não socorre os seres humanos que nascem em situação de risco social. Seu corpo enrolado em infaustos lençóis é o desenho pútrido da múmia social que não se esforça para construir soluções para o combate à violência, signo repugnante da miséria humana. Em cada execução criminosa há a mão omissa e sangrenta do leviatã apodrecido que, por não satisfazer os anseios primários dos indivíduos indefesos sob sua tutela, condena os indigentes sociais, seus filhos, à vala execrável das mortes cruéis e precoces.