Colocar o passado em perspectiva é entender, não apenas um pouco mais de si, como também do todo. A essência do longa-metragem de animação de Luiz Bolognesi é, para além de trazer uma história de romance épico, relembrar que feridas históricas permanecem, e a insistência em pô-las de lado turba o destino de toda uma estrutura social.
A narrativa gira em torno de um indígena tupinambá (Selton Mello) que recebeu de um deus o dom da imortalidade para lutar contra o império de Anhangá (entidade maligna) na terra, é através dessa missão que a jornada de 600 anos do protagonista Brasil adentro é retratada, procurando lutar por seu povo e as reencarnações de seu grande amor: Janaína (Camila Pitanga).
Em síntese, através da analogia do governo de Anhangá entre os vivos, o filme coloca o dedo em diversas feridas abertas, como o genocídio indígena, a escravidão, e a própria ditadura militar. O resultado é um épico que desperta um incômodo pungente, aliado à certeza de que cada uma dessas feridas nunca cicatrizou de verdade ou, em alguns casos, o desconforto de enxergar as próprias atitudes espelhadas nos agressores. Nada disso seria possível, por exemplo, a narrativa dominante colonizadora prevalecesse, ao oferecer a outra face, o roteiro evidencia o peso dos flagelos que rodearam a história brasileira, do centro-oeste ao norte, que por conseguinte, cerceiam o presente.
Falando de aspectos mais técnicos, a qualidade da animação encanta a cada momento. Apesar de o filme ter sido lançado em 2009 e não ser, relativamente, tão novo, a beleza dos traços entregues pela direção de arte é atemporal. A guiada pela trajetória do protagonista torna-se não só uma reflexão sócio-política, como também um espetáculo visual singular no cinema de arte brasileiro.
Outro ponto a se ressaltar, é que não é de praxe no cinema nacional, produzir animações voltadas para o público adulto, ainda mais que tratam de temas tão sérios e, por vezes, difíceis de engolir. A narrativa de Bolognesi carrega uma energia bem parecida com a de “Love, Death & Robots”, colocando o próprio protagonista em posição de repressão e silenciamento diversas vezes para reafirmar a tensão envolvendo cada discussão que se propõe ao longo dela.
Todos esses aspectos fazem com que, no geral, sendo uma produção da década passada, demonstra a ousadia ímpar de recontar a história nacional através da perspectiva daqueles que foram “vencidos”, e ressignifica até mesmo o significado da “derrota histórica” de certos grupos, afinal, só se pode vencer uma luta contra aqueles que pararam de lutar. Traçando esse paralelo, é possível alçar o patamar da animação a um marco reflexivo atemporal, porque sua genialidade não deixa, e não deixará, de fazer sentido ao longo do tempo.
O longa está disponível na Netflix e, seja para enriquecer o próprio repertório cultural, seja para refletir seriamente sobre o estado do país, “Uma História de Amor e Fúria” é, certamente, um primor do gênero que, por carregar tanto as raízes brasileiras ínsitas, se torna um espécime do cinema brasileiro para se orgulhar.