Era um dia comum como qualquer um outro dia em que levantamos, tomamos banho, tomamos café, às vezes reforçado ou não, com ânimo ou não etc. Saiu para o trabalho para enfrentar mais um dia de muitos desafios. Ele é professor e percebeu que o dia a dia da educação é sempre uma incógnita e que nos guarda muitas surpresas, às vezes uma caixa de pandora.
Chegou na escola e notou uma alegria contagiante por parte da direção e professores, pois tinha sido anunciado que o seu Estado tinha saído do lugar de 26º colocado no ranking do IDEB para 6º colocado. Uma notícia surpreendente e de uma grandeza imensa. Algo que nem o mais otimista da educação ousaria cogitar. Todos festejaram, se alegraram e espalharam a novidade entre os alunos. Uma notícia e tanto, algo que ninguém pensara, fosse como a seleção portuguesa ganhasse a copa do mundo ou o Brasil fosse o 1º colocado no quadro de medalhas de uma olimpíada. Algo distante dos otimistas.
É normal quando se quer falar mal da educação, os primeiros a serem citados são os professores, eles são doutrinadores, preguiçosos, só querem ganhar bem e não trabalham. Assim o dizem os mais inteligentes membros da sociedade, pessoas que parecem que não tiveram mestres em suas vidas e que aprenderam tudo sozinhos ou já nasceram sabendo. Quem foram os responsáveis por essa façanha tão grande? Logicamente, que direção e coordenação dirão que todos deram as mãos, que a escola é uma família e a união faz a força. Entretanto, quando há um problema, essa família não existe, os professores se tornam órfãos e os únicos culpados pela derrota.
Contudo, podemos dar uma pausa para dar um “parabéns” à educação, essa Guerreira que sobreviveu a vários ataques por parte daqueles que dela fizeram uso (não digo um bom uso) e que agora cospem no prato que comeram e se lambuzaram. Vale apena ressaltar que houve um governo recente que atacava a educação e seus professores quase todos os dias. Ministro da educação homofóbico e que segregava as crianças com deficiência, outro dizia que as universidades eram fábricas de drogas e não conhecia a LDB e por ai eles iam. Com isso, a educação sofria ataques diários.
Assim como um desvio de alguns graus altera completamente a rota de um navio, alguns anos perdidos na Educação levam a graves retrocessos nas trajetórias escolares e no desenvolvimento do país. Pode-se dizer que este navio não está mais com o leme solto e apesar de ter ficado por vários anos à deriva e sem direção, percebe-se que ele voltou ao seu rumo e sua tripulação está ávida para tomar o leme novamente. Prova disso, é o resultado do IDEB deste ano.
Em um encontro de escritores, a professora Aldenora Cravo disse a seguinte frase: Agora eu estou vadia. Não trabalho mais, me aposentei. Todos lhe deram os parabéns, uma medalha de honra ao mérito oral, juntamente com aplausos. Alguns, naquela reunião, eram professores e reconheciam o valor de seu trabalho como educadora por mais de 40 anos. Porém, ela logo levantou a voz e disse:
- Nem bem eu completei um mês de aposentada, me cortaram o plano de saúde, assim como alguns outros benefícios que eu tinha quando professora. Não recebi se quer um muito obrigado, como não recebi nem uma tapinha nas costas, mas cortes, sim.
Realmente, ele pensou, ela deveria receber todos os agradecimentos por este feito tão nobre: passar mais de quarenta anos ensinando e educando pessoas de diferentes pensar é um ato de uma nobreza imensa. Porém, o agradecimento veio no corte de uma grande parte de seus benefícios. Se ela tivesse servido as forças armadas, ordenando, fazendo ordem unida e tendo de tempo em tempo uma graduação na hierarquia militar, ela se aposentaria com uma patente a mais, ou seja, com um aumento salarial e uma medalha de honra ao mérito como reconhecimento ao seu trabalho, juntamente com todos os seus benefícios intactos, especialmente o seu plano de saúde, algo que ela, na idade como aposentada, precisaria muito.
Por falar em reconhecimento, o governador do Estado, anunciou ou propagandeou que daria um abono de 2 salários e meio (Não o mínimo) a cada professor servidor público do Estado por conta da colocação no IDEB. Agora, é saber se a promessa será cumprida e ficar com o pé atrás, pois quando a esmola é grande, o santo desconfia.
Agora penso na metamorfose de Verissimo e penso na vida de um professor.
“Difícil era ser gente… Precisava comprar comida e o dinheiro não chegava. As baratas se acasalam num roçar de antenas, mas os seres humanos não. Conhecem-se, namoram, brigam, fazem as pazes, resolvem se casar, hesitam. Será que o dinheiro vai dar? Conseguir casa, móveis, eletrodomésticos, roupa de cama, mesa e banho. Vandirene casou-se, teve filhos. Lutou muito, coitada. Filas no Instituto Nacional de Previdência Social. Pouco leite. O marido desempregado… finalmente acertou na loteria. Quase quatro milhões! Entre as baratas ter ou não ter quatro milhões não faz diferença. Mas Vandirene mudou. Empregou o dinheiro. Mudou de bairro. Comprou casa. Passou a vestir bem, a comer bem, a cuidar onde põe o pronome. Subiu de classe. Contratou babás e entrou na Pontifícia Universidade Católica”.
“Vandirene acordou um dia e viu que tinha se transformado em barata. Seu penúltimo pensamento humano foi: “Meu Deus!… A casa foi dedetizada há dois dias!…”. Seu último pensamento humano foi para seu dinheiro rendendo na financeira e que o safado do marido, seu herdeiro legal, o usaria. Depois desceu pelo pé da cama e correu para trás de um móvel. Não pensava mais em nada. Era puro instinto. Morreu cinco minutos depois, mas foram os cinco minutos mais felizes de sua vida”.
VALEU PROFESSOR (A Aldenora Cravo)
Não tem importância,
mas é desde a infância
O desejo de ser alguém,
Alguém importante
Querendo na vida
Ir mais além.
E assim, pensar no futuro
É também andar no escuro
Acreditar em si mesmo
Como também no amor
Carpinteiro ou Dentista
Ser um médico ou jurista
E até mesmo um doutor.
E o que se almeja
Não importa o que seja
Diga com toda a firmeza:
Valeu professor!!!
Jorge A. M. Maia