Entretanto tem um lado bom e extraordinário, que é maior abertura à memória em busca de recordações. E interessante que este envelhecer traz maturidade, serenidade e tolerância aos julgamentos de tudo, tantos e todos que por nós passam.
Quando nasci o mundo vivia tempos de guerra “braba”. Os tiroteios e bombardeios eram globais, ninguém se entendia. Porém, pode se perceber que o mundo mais se projetou, transpondo fronteiras antes sequer deslumbradas. Foi de modernas armas a ciência de forma alucinante.
Meus maiores sentimentos, sempre voltados no Vale do rio Doce, onde está a cidade que nasci, fazem aflorar constantemente a melhor leitura de tudo que por ali aconteceu e passou. E os tempos assim como os homens eram outros… não melhores talvez, mas diferentes.
Fato relevante e histórico mesmo, pouco antes de minha chegada a luz, foi a criação e implantação de formidável empreendimento ao qual denominaram Companhia Vale do Rio Doce.
Foi criada por decreto presidencial (ditador à época) em proveito de patrimônios de um senhor estrangeiro de nome Percival Facquar. Não somente as ricas jazidas de minério de ferro, Itabira Iron, como a estrada de ferro já existente Vitória-Minas, duas entidades jurídicas diferentes, tudo bens do mencionado titã norte americano; com o que ele concordou.
E este Percival realmente era do cacete. Madeira Mamoré em Rondônia, ferrovias outras na América Central e na Sibéria, até chegar a provocar uma revolta longa e armada no conhecido contestado dos resistentes a trilhos, os catarinenses. Tudo isso passando por iluminar a cidade do Rio de Janeiro, deixando em desvio a concorrência da família Guinle, grafiteiros e autores das celebres frases “Yankee go home”. Bem, ele não foi e ainda recepcionando outra figuraça americana no Rio, durante tal evento, em companhia de padrinho batismal, Bilac Pinto, aos 11 anos recebi do destino a dádiva em conhecê-lo.
Mas, certo era que o envolvimento de toda a intenção e caráter de políticos e empresários, seria mesmo prestar o melhor esforço de guerra não só aos americanos como aos aliados, não deixando ainda de cuidar para que tudo trouxesse o melhor desenvolvimento a nossa região e país. E foi beleza, a também recém-nascida Governador Valadares, velha Figueira do Rio Doce, se encheu de “bons gringos”, recebendo os melhores serviços de tratamento de Saúde, esgoto e águas. Eles, com suas fundações, sanearam toda a região.
Nos tornamos então à época o grande município provedor às diligências de guerra na América Latina. A eles mandávamos, além do minério por aqui escoado, cristais de rocha estratégicos e mica (malacacheta)
Porém, intencionalmente ao interesse brasileiro a Vale do Rio Doce foi implantada mais como notável agência de desenvolvimento que grandiosa empresa mineradora. Neste mesmo decreto de parição, estava bem estampado que 8% de seus lucros seriam investidos nos municípios aos quais cruzasse, ainda devendo assisti-los.
Finda a guerra, mais tempos passados, interesses outros, pousa para abastecimento, em um lugar pelado sem vegetação, helicóptero que transportava, além do necessário combustível, um genial geólogo daquela companhia de nome Breno. Ao pôr os pés no chão pode registrar que estava em cima de um dos maiores fenômenos geológicos do planeta, não só em ferro, como inúmeros outros valiosos minerais. Entretanto, havia um senão…
Toda aquela área era resguardada por requerimentos junto a nosso governo administrador do subsolo por empresa norte americana, Bettlem Steel. No poder nacional, duro regime militar, e já que a Vale, além de pública, era voltada ao desenvolvimento, deu uma sacaneada nas pretensões de reserva a estrangeiros, lhes negando não só a prioridade como também a titularidade. À Vale, fica que o filho é seu; e ninguém achou ruim.
Foi mais ou menos copiada a famosa decretação de reserva sem cobre existente no Amapa/Para, que para não se cumprisse o ato de honrar as prerrogativas de outra empresa também norte americana, Hanna Corporation. Na “safadeza legal” usaram também o recurso do descumprimento no Carajás. Quanto a mim, neste caso, faria coisa igual. A velhice causa sorrisos em certas recordações… Porém, final inesperado ocorreu.
Nosso endividado governo de então, mais dinheiro do exterior buscou e implantou o projeto denominado Carajás. Foram 18 bilhões em dólares e mais outro corredor de exportação ferroviário criado.
Meio a tudo, apressada subsidiaria da dita Vale, oferta relatório que num lugar específico, conhecido como Serra Pelada, não havia ouro ou qualquer outro interesse econômico. Gente, como é bom recordar…o metal naquele lugar descoberto num acaso, ocupado por simples trabalhadores garimpeiros explodiu em riqueza, cabendo a seus representante movimentarem políticos, para aprovar lei no Congresso Nacional, autorizando cessão de valores correspondentes a 50.000.000 de dólares a que fossem repassados a Vale, por aquela área, para compensação à empresa americana passada para traz. Levando-se em conta que se pagava a Vale, um patrimônio da União.
Uma ironia garimpeiros repararem palavra oficial descumprida…
Mas, antes que advenha o sono, cabe ainda lembrar, que um irresponsável presidente, juntou todo este patrimônio como um saco merda, embora criado em guerra, por megaempresário estrangeiro, gênios geológicos, simples trabalhadores ditos artesanais, somados a formidáveis engenheiros de múltiplas áreas e mais um montão de dinheiro pago pelo mais humilde ao mais rico
brasileiro, e se dobrando a cobiças empresariais até fora de tal setor, o vendeu por insignificante valor, sequer histórico.
Inexplicavelmente ao arrepio da lei, o que constava em um decreto de instituição presidencial, os tais 8% participativos dos municípios, também sumiram na primeira assembleia com os particulares acionistas. Que digam os juristas…há controvérsias. E pensar que só ditadores, autoritários e militares fazem isso, torna se maledicência…
Da Companhia Vale do Rio Doce, tiraram até o “do Rio Doce”. Ficou só sem nenhuma história, Vale. Famintos, executivos desembarcaram precaução e cuidados, promovendo lavras ambiciosas sob olhares de técnicos reprimidos, o que vem sendo demonstrado em seguidos acidentes. Sequer lavam ou asseiam suas melhores figuras de capa, as poderosas locomotivas recebidas sem maiores custos.
Bem, outra recordação a dividir, Percival, o Gringo, mais nacionalista que alguns brasileiros, também muito dizia com sarcasmo a jovens: “neste país a segura riqueza está na política”. E não era gozação…
BH/Macapá 05/11/2023
José Altino Machado
P.S: Percival Farquhar jamais deixou o Brasil, onde morava no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro, saindo apenas para NY onde morreu em 1953