Chegou em Pernambuco no dia 28 de janeiro de 1549. Mal desembarcou e logo entrou em combate contra uma revolta de índios caetés e negros escapados da escravidão. O governador Duarte Coelho resistia com dificuldades, mas os mercenários do grupo de Staden chegaram como a cavalaria dos filmes de faroeste, combateram e ajudaram Coelho a vencer a batalha.
Caetés eram índios que viviam entre a Ilha de Itamaracá e a foz do Rio São Francisco. São conhecidos por darem nome à cidade onde nasceu o ex-presidente Lula e por terem devorado o 1º bispo do Brasil, Dom Pero Fernandes Sardinha, capturado após o barco em que viajava naufragar na costa de Alagoas.
Brancos e índios tinham hábitos violentos, seja pela antropofagia, seja pela truculência das guerras de conquistas. O homem lobo do homem em seu estado puro, como diria Thomas Hobbes. Ou homem onça do homem, na nossa versão tupiniquim. Era uma relação de brutalidade, a qual até hoje prevalece nas guerras tribais da África, nos conflitos entre sunitas e xiitas no Afeganistão, na guerra civil da Síria ou entre as facções criminosas que disputam o poder no Rio ou em São Paulo.
Há 500, 400 anos, negros perdedores eram escravizados na África por outros negros vencedores de disputas territoriais e de supremacia. Depois de capturados, eram vendidos aos franceses, espanhóis, ingleses, holandeses e portugueses como mercadoria para servirem nas lavouras do Caribe, dos Estados Unidos, das colônias espanholas, holandesas e portuguesas.
Não vou me meter a analisar a fundo a escravidão, porque não tenho nem 10% do conhecimento e do talento de um mestre como Laurentino Gomes. O que sei é que escravos e guerras de conquista sempre andaram de mãos dadas na História da humanidade. Ganhadores subjugam vencidos há milênios no mundo árabe, na Babilônia, na Ásia, em Roma, no Egito ou nas sociedades da américa pré-colombiana. Os talibãs, registram os sites de notícias norte-americanos e europeus, estão resgatando esse hábito milenar no Afeganistão.
Não interessa a etnia. Interessa a condição humana hoje sobrevivendo à base de métodos mais modernos e sofisticados. São vítimas do tráfico internacional de pessoas ou das crises econômicas, uns trabalhando em porões, outros em home office. Meninas servindo de escravas sexuais em Cabul ou Candaar. Existem ainda os escravos da ideologia, os escravos da religião e os escravos das ditaduras onde as pessoas são propriedade do estado, como era na antiga União Soviética e continua sendo na Coreia do Norte.
A ocupação do nosso território foi uma grande e contínua guerra de conquista, na qual o mais forte venceu o mais fraco, não por ser essencialmente mau ou cruel, mas porque isso significava a sobrevivência do seu grupo, das suas crenças. Os bandeirantes se embrenharam pelo nosso território, tornando a linha do Tratado de Tordesilhas algo irrelevante. Sem eles, não haveria São Paulo, Minas Gerais, nem um Brasil com a Amazônia e o Centro-Oeste.
Não podemos comparar o ser humano de 300, 400, 500 anos atrás com o do nosso mundo, são pessoas muito diferentes. Hábitos, costumes, crenças, alimentação, fé, sobrevivência. Uma pessoa do nosso tempo provavelmente não duraria muito no Brasil do passado. Outro dia colocaram fogo numa estátua de Borba Gato, como quem queima um condenado numa fogueira da inquisição.
É preciso muita falta de bom sendo para acreditar que um bandeirante como Borba Gato era simplesmente um matador de índios, um escravocrata capaz das piores barbaridades. Os bandeirantes tiveram seu papel na formação do estado brasileiro, assim como os capitães do mato, os quilombolas, os índios e todos que aqui, juntos e misturados, nos últimos 500 anos transformaram esta terra no Brasil em que vivemos. Não faz o menor sentido querer devorar o passado e expeli-lo reformatado.
Aqui não existiam mocinhos e bandidos, santos ou demônios, gente boa ou gente ruim. Eram seres humanos, nada mais. Querer destruir a memória desses tempos ou apagar nossa história é repetir o que os talibãs fizeram em Bamiyan, no Afeganistão, quando destruíram as milenares estátuas gigantes do Buda e relíquias exibidas em museus no Iraque.
Há 300, 400 anos, viver aqui era uma aventura. Um homem de 40 anos era um ancião. As mulheres se casavam com 12, 13 anos e tinham 10, 12, 15 filhos. Imaginemos o Brasil dos anos 1600 ou 1700, com uma estreita faixa litorânea ocupada por plantadores de cana, pecuaristas e comerciantes de todo tipo, vendendo e comprando desde peles, madeira, especiarias até ouro e pedras preciosas. Imagine as cidades sem saneamento, o cheiro de urina e fezes das ruas, as pessoas usando a mesma roupa dias a fio, a falta de higiene, de remédios, vacinas, sem água tratada e muito menos banho de água quente. Os dentes das pessoas apodreciam, havia lepra, malária, varíola e animais peçonhentos. A coroa cobrava seus impostos com mão de ferro.
A América já era uma terra violenta antes da chegada dos portugueses e espanhóis. Havia guerra tribais, índios literalmente comendo índios, como testemunhou Hans Staden, quando baixou aqui pela 2ª vez. O navio em que viajava naufragou e o mar o vomitou no litoral de São Paulo. Vendeu seus serviços de mercenário para defender o Forte de São Felipe da Bertioga, perto de São Vicente.
Capturado pelos tupinambás, Staden foi tratado como troféu de guerra a ser devidamente devorado. Tentou fugir, foi apanhado, levou uma surra. Obrigado a lutar contra os tupiniquins, teve oportunidade de mostrar seus dotes de guerreiro mercenário. Depois de 9 meses escapou dos tupinambás ajudado pelo corsário francês Guillaume Moner, trocado por um punhado de quinquilharia.
O relato de Staden no seu livro Duas Viagens ao Brasil, publicado em 1557, é uma peça de reportagem sobre uma terra de relações sociais violentas, onde guerras terminavam em banquetes nos quais os vencedores devoravam os vencidos num lugar onde, definitivamente, não era o paraíso. A história inacreditável para a maioria dos europeus da idade moderna fez dele uma celebridade.
Visto desde a perspectiva do século 21, o depoimento de Staden mostra que o ser humano mudou muito pouco na sua essência. A lei do mais forte continua vigendo. Alguns homens devoram homens do presente e outros querem devorar homens do passado. (Publicado originalmente no Poder 360)Era uma vez uma música vinda de outras terras nas vozes de outras gentes e idiomas diferentes.
Entronizou-se em meus pensamentos, saiu de mãos dadas com meus sonhos, embrenhou-se em meu coração, fez piquenique com meus sentimentos.
Sim, Leon Gieco, sim, Mercedes Sosa, “Eu só peço a Deus” traduz para todos os povos os dilemas e justos anseios além-fronteiras.
Peço a luz das manhãs para erguer bem alto o facho verde flamejante da Esperança em meio ao mar tenebroso das inseguranças.
Forças e firmeza para não titubear diante das indiferenças expressas nos olhares e nos altares dos falsos amigos e crentes.
Clareza e persistência para detectar mentiras e saltar fazendo piruetas no ar rumo às nascentes de águas cristalinas onde possa saciar a sede permanente por verdade, liberdade, claridade e o fluir de um rio chamado solidariedade, empatia ou bondade.
Eu só peço a Deus…
Para encontrar coragem e lançar-me em uma corrente de abraços circulando a Terra toda do nascer ao Sol poente sem pestanejar diante das inconsistências de líderes ou subalternos inconsequentes e seus fantasmas perdidos nos redemoinhos do tempo…
Eu só peço a Deus o dom de ouvir e falar com o coração sem teias ou névoas de julgamentos e negações para que possamos nos dar as mãos e, assim, seguirmos na canção da alegria em júbilo pela vida. Vida nossa de cada dia na simplicidade da mesa posta onde não falte o pão.