Mesmo chegando, para não exagerar, à terceira idade, ainda fico com a continuada e grata obrigação, a Ele, pelas dádivas Duda e Marco Túlio. Até porque, poucos as recebem na idade que os recebi. Maravilhoso! Muito mais que se possa imaginar. Acordar pela manhã, mexer com Duda e lhe dizer baixinho no ouvido pra despertá-la. Eu te amo filha, é o máximo. A resposta então arrebenta: – “Eu também te amo, pai”.
Meus irmãos, sem exceção, muito estranham a mudança de hábito. Sempre o primeiro a chegar ao trabalho, agora quando chego, todo mundo já está lá. A justificativa é boa e saborosa. Não saio mesmo, sem bulir um bocado bom com o Marco Túlio que sorri no meu colo e gargalha todas. Deixo em casa Soraya, que sempre fica na cama mais um pouquinho. Nem querendo, consegue dormir e amar cedo! Por isso…
No escritório, me espera generoso comprimento de minha secretária. Um sorriso simpático, lindo mesmo. Todo mundo a acha extremamente graciosa, mas no meu caso, sua grande qualidade, é o bom humor com que me alegra o dia. Eficiente, e sabendo disso, apresenta felicidade e vistosa exuberância.
O vaqueiro Ney, um porreta no trabalho, nascido lá na fazenda mesmo, hoje com prole numerosa, telefona cedinho para contar que mais tabapoãs nasceram em meu pasto. E diz ainda, que juntos chegaram três potrinhas e o garanhão Netuno já fez seu serviço “trabalhando” as éguas mães.
Neste período de plantio, um bom parceiro agricultor avisa que vem ao meu encontro buscar entendimentos, para juntos fazermos uma grande roça de milho. Maior ainda, o diz das que tenho feito. Tá bom, tá bom. Até que tenho dado sorte com o que planto. Já teve vez, em que tudo concorria para dar errado e não deu. Talvez por isso, tenha ficado sempre tal qual galinha do pescoço pelado, só querendo milho.
As pessoas que conheço me sorriem e tem afável comprimento pelas ruas da cidade. Sem dúvida, esse bem tratar, não só acalma e ameniza o viver, como impede que se tenha qualquer outro mau pensamento ou desejo ruim para alguém.
No mundo dos afetos, grandes amigos e companheiros já se foram. Na Amazônia, dos colegas pilotos, restaram poucos. Eu fui ficando. Interessante, quando por lá voava e andava sempre diziam que eu iria logo. Fiquei…
Quanto às acontecidas decepções e sofrimentos, alguns erros bobos, fúteis, sempre por precipitação ou inexperiência. Mas, também não fora momentos de incompreensão e erradas disputas, não só minha vida, como a de todo o homem, seria um marasmo.
Só tenho que lamentar mesmo, pelo lado político, do que vivi e assisti. Homens que nos deixaram, não legaram reposição. Com a pouca participação e o não surgimento de lideranças jovens, estamos numa falta adoidada de caráter, personalidade e expressão política. Era normal, que os antigos, não começassem por desejos apenas próprios, mas por amigos, grupos que os queriam como representantes e porta vozes de seus anseios. Eram reconhecidos pretendentes, com capacidade, carisma e símbolo de coesão para a comunidade. Hoje, o político é homem de si só, se tiver dinheiro então, sai da frente. Os demais, “amigos” e correligionários são apenas para primeira eleição. Daí em diante, troca de partido, de parceiros e de consciência. Serão sempre, representantes de seus próprios interesses e conveniências, cuja meta será gozar do poder. E todo o resto é propaganda.
O melhor acerto que minha experiência mostrou, foi que, para se conhecer homens, deve se olhar a sua volta em busca de velhos e antigos amigos, bons cúmplices que geralmente cercam qualquer um de bom princípio. Se com o passar dos tempos, eles ainda lá estiverem nós também podemos ficar. Vale à pena.
Quanto a isso, não só eu, mas toda minha família exibe extraordinário currículo. Quem dela amigo ficou jamais deixou. E este é dela o maior patrimônio.
Minha vida é boa. Tem sido legal. Comunico bem, e sei amar com amor. Para os senões, hoje, os filhos me apareceram como um santo remédio.