Além de atrapalhar a rotina da família, a enurese noturna – o famoso xixi na cama – pode prejudicar a autoestima da criança. Saiba como lidar com o problema e entenda por que o seu filho não tem culpa nenhuma nisso.
O desfralde é um marco do desenvolvimento infantil bastante esperado pelos pais. Afinal, é sinal de que finalmente o filho cresceu e não é mais um bebê que usa fralda. Mas, se durante o dia é mais fácil a criança fazer xixi no banheiro, por exemplo, à noite é que são elas. Muitas não conseguem e acabam fazendo na cama durante o sono por longos anos.
É o que acontece com Miguel, 6 anos, que desfraldou com 2 anos e meio e até hoje ainda tem os escapes noturnos. “Temos um código aqui em casa para não o constranger com a situação. Falamos sempre: ‘Hoje choveu no colchão’. O jeito é brincar com a situação”, diz a enfermeira Fernanda Cardoso, 39, que também é mãe de mais três meninos, Guilherme, 18, Lucas, 8, e Marcos, 3. Por conta das incontáveis vezes que a situação acontece, a família teve de trocar o sofá da casa e o colchão dele. “Como o pediatra nos orientou que uma vez que você retira a fralda não é para colocá-la mais, nem à noite, as capas dos colchões não davam conta e, agora que ele já é grande, também fica aquele cheiro forte de urina que parece que não sai da casa”, diz.
O caso de Miguel não é raro em sua faixa etária. Segundo dados da Sociedade Internacional de Continência Infantil, referência mundial na área, 10% de crianças aos 6 anos têm enurese noturna primária monossintomática, como é chamado o vazamento do xixi durante a noite, duas ou mais vezes por mês. Vale lembrar que, antes dos 5 anos, é considerado um escape normal. A condição diminui com o passar do tempo e apenas 5% das crianças continuam molhando o colchão aos 10.
Uma das causas do problema é a herança genética. Se o pai ou a mãe fez xixi na cama após os 5 anos, o filho tem 40% de chance de apresentar a enurese também. Se os dois tiveram, o número sobe para 60%. “Geralmente os pais acabam descobrindo que eles próprios ou alguém da família tinham enurese noturna só depois que passam pela situação com os filhos. Esse assunto ainda é tabu. Sem perguntar, ninguém conta”, diz a pediatra e colunista da CRESCER Ana Escobar.
Em busca de respostas
Mas a genética por si só não explica o problema. É preciso uma análise multifatorial para excluir questões que podem resultar no vazamento noturno rotineiro da urina. A professora do departamento de pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Vera Koch foi uma das coordenadoras do projeto Enurese, uma união de forças, realizado entre pesquisadores nas áreas de pediatria, psicologia e fisioterapia em busca das causas do problema.
Durante quatro anos eles estudaram 111 crianças e adolescentes com enurese noturna primária. Da experiência surgiram seis pesquisas científicas publicadas em 2016. Em uma delas, observou-se que a criança afetada pelo problema tem menos controle motor fino, mais dificuldade de se equilibrar e postura diferente, com a barriga levemente projetada à frente. “Do ponto de vista neurológico, os estudos mostraram que essas crianças estão em um processo de amadurecimento aquém do esperado, mas nada anormal. É como se ela ainda precisasse conectar mais alguns pontos”, explica.
O pediatra e/ou urologista é geralmente quem descobre a enurese, depois da desconfiança dos pais, claro. Ele pode pedir alguns exames clínicos e laboratoriais que mostrem o tamanho da bexiga (que é ou age como se fosse menor, expelindo mais vezes) e se há produção excessiva de urina no período da noite. “A dificuldade de acordar mesmo com a bexiga cheia e a própria maturidade da criança sobre o controle da saída da urina também são levados em conta”, diz o pediatra e nefrologista João Domingos Montoni, do Hospital Israelita Albert Einstein (SP).
Faz parte da investigação considerar questões psicoemocionais. “A criança pode responder a agravos emocionais com alterações de suas funções fisiológicas – apetite, vômitos, diarreia, urina…”, explica Vera. Por isso, a separação dos pais ou o nascimento dos irmãos, por exemplo, pode ser um gatilho para o problema. Foi o que provavelmente aconteceu com Miguel, do início desta reportagem. “Depois que ele perdeu o posto de ‘caçula’ da família, seu comportamento mudou bastante. Isso somado à preguiça e ao medo que ele tem de acordar à noite”, diz a mãe. No começo, Fernanda revela que até ficava brava com ele, mas agora conversa numa boa.
Tempo, tempo, tempo…
Ela está certa. O jeito é mesmo ter paciência: segundo os especialistas, o problema diminui 15% a cada ano que a criança completa, gradativamente. Com Henrique, 6 anos, foi assim. Ele só passou a atravessar noites sequinho pouco tempo antes de chegar à sua idade atual – muito além da expectativa dos pais, no entanto. “Eu colocava despertador para levá-lo ao banheiro mais de uma vez durante a noite, não deixava tomar líquido depois das 19h… Nada adiantava”, relembra o designer Rodrigo Costabeber, 42, pai do menino. Uma noite, cansado depois de trocá-lo pela terceira vez, veio a bronca. “Eu fiquei chateado com meu comportamento. Resolvi conversar melhor sobre o assunto e passei a dizer frases como: ‘Se sentir que o xixi está vindo, chama o pai’. Pouco tempo depois, ele começou a acordar para ir ao banheiro”, completa.
Sem constrangimento
Se é muito difícil para os pais enfrentar a enurese dos filhos, pois envolve toda a rotina da família, saiba que, para a criança, a situação também não é nada fácil e pode comprometer, inclusive, a vida social dela. Dormir na casa do amigo ou viajar com a turma? Nem pensar. “É um ciclo: a criança vê que está dando trabalho, é repreendida ou comparada com outras crianças, e isso mexe com a autoestima dela”, explica Ana Escobar. Por isso, o acompanhamento psicológico ajuda e muito, ao lado da compreensão e amor dos pais. A primeira etapa do tratamento é o que os médicos chamam de terapia comportamental: beber mais líquido de dia e limitar a ingestão à noite; fazer xixi antes de dormir; não usar fralda; incentivar o treino elogiando as noites secas (reforço positivo!). Nesse trabalho de conscientização, o mural de conquistas também pode ser um bom aliado. Foi o que funcionou com a psicóloga Juliana Martins, 41, quando tinha 7 anos e sofria com os vazamentos. “Me lembro do penico que a minha mãe deixava no quarto, na esperança de que eu chegasse até ele, já que não conseguia acordar para ir até o banheiro. Uma vez minhas amigas foram em casa e o viram, senti muita vergonha”, relembra. Foi um pediatra quem receitou o caderno de recompensa para a mãe dela. A cada noite sem molhar a cama, uma estrela era colada no caderno. E a cada tantas estrelas, um prêmio. Seja por ironia do destino, seja pelas marcas deixadas pela experiência, atualmente ela tem uma empresa que vende itens pensados para ajudar os pais em diferentes etapas de desenvolvimento dos filhos, como o mural.
Remédio ou alarme
Já para quem deseja ir além das medidas comportamentais há ao menos duas possibilidades, que podem ser prescritas pelo especialista que acompanha a criança. Uma delas é a desmopressina, medicamento antidiurético que inibe a produção de urina à noite. Porém, ressalvas: “Se a criança tomar o medicamento regularmente, ela deixa de treinar a conscientização. O ideal é usar por um período, ou pontualmente, quando for dormir fora”, diz Flavio Trigo, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia de São Paulo. Até porque ele tem efeito paliativo: ao ser suspenso, o quadro de enurese pode voltar.
A outra saída é o tratamento com um alarme específico para casos de enurese. O acessório tem um sensor, que fica perto da cueca ou calcinha e é ligado por fio a um alarme sonoro. Ao sentir as primeiras gotas, o som dispara, despertando a criança. Segundo os especialistas, a tendência é de que em cerca de um ou dois meses, ela aprenda a acordar antes do alarme, resolvendo de vez o problema, ao contrário da medicação.
Trigo é coautor de um estudo realizado este ano com 93 pacientes de enurese primária monossintomática no Hospital Infantil Menino Jesus (SP). Ao comparar tratamentos com medicação e alarme, verificou-se que a segunda alternativa apresentou 70% mais eficácia na resolução do problema, ante 30-40% da medicação. O trabalho foi selecionado para o congresso da Sociedade Internacional de Continência, que acontece este mês nos Estados Unidos.
Se por um lado é ineficaz – e nocivo – exigir um nível de desenvolvimento para o qual a criança não está preparada, por outro é preciso ajudá-la nesse amadurecimento. “Os pais que não conversam com o filho que sofre de enurese – e, em vez disso, apenas o levam ao banheiro ou trocam suas roupas enquanto ele ainda dorme – perdem a oportunidade de transmitir o senso de responsabilidade para uma função que é da criança”, diz Montoni. Mas, além do diálogo, empatia e paciência são uma dupla fundamental para a criança passar com serenidade por esse desafio em sua vida. “As pessoas querem que tudo aconteça rápido, mas não tem jeito: a gravidez ainda dura nove meses, as crianças vão andar por volta de 1 ano e o controle do xixi pode ir até os 5 anos (ou mais)”, completa a pediatra Ana Escobar. Tudo a seu tempo!