Gonçalves Dias, como contei, era filho de uma mestiça de quem foi retirado aos cinco anos, de quem desconhece a ascendência, cuja condição social era a da servidão disfarçada — que, para nossa vergonha, ainda hoje existe no nosso País —, e de um pai branco, que morreu quando ele tinha onze anos. Era mulato. Por sua inteligência vivíssima e por caridade estuda em Coimbra e, de volta, se aproxima da elite cultural e social de São Luís.
Como letrado é acolhido em toda parte. Se hospeda na casa de um amigo. Aí vê olhos negros. Mas parte para a carreira literária na Corte. Tem 24 anos quando os Primeiros Cantos são considerados o que são, um livro excepcional. Aos 28 já publicou os Segundos Cantos e os Últimos Cantos e volta ao Maranhão. Pede: “Dá meu Deus que possa amar, / Dá que eu sinta uma paixão, / Torna-me virgem minha alma, / E virgem meu coração.”
É acolhido na casa amiga. Lá reencontra os olhos negros de Ana Amélia, e eles penetram-lhe alma adentro. A paixão é recíproca e profunda. Total.
É desse momento uma nota de João Francisco Lisboa: “Vi o nosso poeta Gonçalves Dias dando o braço a umas senhoras, conversando alegre e satisfeito, sem deixar rever o menor vislumbre daquela melancolia e desesperação que nos vende em seus mimosos versos. Hei de estimar que continuem as suas infelicidades.” Desejo terrível!
O poeta tem de partir e parte com o coração a sair fora do corpo. Escreve à matriarca, sua protetora, pedindo a mão de Ana Amélia. Teme a resposta e jura respeitar a amizade sobre o amor. Recebe um ofendido “não”. Escreve ao amigo: “Amava, mas não pensei que amava tanto. […] Felizmente não soube nem saberá nunca Ana Amélia com quanto extremo era amada.”
Prevê que ela “ficará mal comigo, ter-me-á em péssimo conceito; […] tirarei algum contentamento do único sacrifício que nisso faço, e quase superior às minhas forças, deixá-la persuadida que a requestei por passatempo, e não dizer-lhe jamais como a amo agora e como a amarei sempre.”
Ela lhe escreve “exproba[ndo-o] duramente por não ter tido coragem nem tanto amor que o compelisse a romper com considerações de amizade e do mundo, indo arrancá-la da casa paterna” — registro de Antônio Henriques Leal, que o encontra profundamente abalado. Se morre de amor?
Amor é vida; é ter constantemente / Alma, sentidos, coração — abertos / Ao grande, ao belo; é ser capaz d’extremos / […] Conhecer o prazer e a desventura / no mesmo tempo, e ser no mesmo ponto / O ditoso, o misérrimo dos entes: / Isso é amor, e desse amor se morre!
“Sobrevive à própria ruína.” Casam para ser infelizes. Ela com um mulato, desafio à família. O trabalho e as muitas doenças arrastam o poeta pelo mundo. Em 1855, quatro anos depois, numa rua de Lisboa, a encontra. Não podendo falar, escreve:
Enfim te vejo! — enfim posso / Curvado a teus pés, dizer-te, / Que não cessei de querer-te, / Pesar de quanto sofri.
Passos da morte senti; / Mas quase no passo extremo, / No último arcar da esp’rança, / Tu me vieste à lembrança: / Quis viver mais e vivi! // Vivi; pois Deus me guardava / Para este lugar e hora!
Ela não responde. Ele tenta se explicar.
Devera, podia acaso / Tal sacrifício aceitar-te / Para no cabo pagar-te, / Meus dias unindo aos teus? // Devera, sim; mas pensava / Que de mim t’esquecerias…
Ele não ousara? Pagara caro. Fora profundamente infeliz, como no mau agouro de João Francisco Lisboa.
Lerás porém algum dia / Meus versos, d’alma arrancados / D’amargo pranto banhados, / Com sangue escritos; — e então / Confio que te comovas, / Que a minha dor te apiade, / Que chores, não de saudade, / Nem de amor, — de compaixão.
Viriato Correia a encontrou, bem velha, e ela lembrou que amara um poeta. Mas conta-se que Ana Amélia copiou os versos de Ainda uma vez, Adeus com o próprio sangue.