Não é comum no meio político um cenário tão favorável a um pretendente a cargo político em que se empenhe, sem relutância metodológica, a locução favoritismo incontestável. Tal fenômeno só é possível, de regra, em ambientes autoritários onde a vantagem é produzida com as forças irresistíveis do exercício do poder. Em ambientes democráticos as vantagens competitivas no campo político são sempre relativas, tangidas e justificadas pelas chamadas variáveis intervenientes, quase sempre presentes. A primeira pesquisa para o cargo de prefeito de Macapá, divulgada semana passada, atribuiu ao atual prefeito Furlan um favoritismo quase incontestável. Sem abordar os números, mas dando ênfase ao cenário, Furlan vive o clímax de uma tempestade perfeita na sua reeleição.
Para quem nunca ouviu falar de tempestade perfeita registre-se que se trata de um calque morfológico que traduz a ideia de o agravamento de uma situação não favorável por circunstâncias que o torna ainda mais desastrosa. A ideia aqui é revelar as causas do atual favoritismo de Furlan. Só para lembrar, Furlan é um remanescente vitorioso de uma guerra em que sequer se cogitava de seu triunfo. Ao final, após sucessivos e pesados contratempos de seus adversários, saiu vencedor, mais pelos atropelos de seus contendores do que pelo brilho de seu desempenho. O exercício do mandato, todavia, conferiu ao atual prefeito um protagonismo inédito, dando banho de interlocução com a população, sobretudo a periférica, alinhado com a eficiência de sua comunicação.
Enquanto isso, os prováveis adversários do atual prefeito, embrenharam-se na burocracia estatal e outras atividades se esquecendo de praticar o exercício da liturgia do protagonismo político. A justificativa, até onde se sabe, era que, como diz o folclórico Gilvan Borges, “periquito só vai à mangueira em tempo de manga”. Essa lógica levou muitos políticos a se divorciarem do cargo. Ocorre que os prováveis adversários de Furlan não só mergulharam no ostracismo como deixaram as pautas municipais ficarem sob as rédeas do prefeito que delas se assenhoreou sem nenhum pudor. Não restou campo para o exercício da oposição responsável. De outro lado, o parlamento municipal cuidou de se agasalhar nas abas dos espaços municipais visando assegurar um próximo mandato.
Para o atual prefeito não poderia ter melhor cenário do que seus adversários lhe impuseram. O exercício do poder, com cofres em abundância, lhe permitiu intervenções que atestam eficiência. O aspecto visual de suas ações atola ainda mais a charrete de seus adversários. Não bastasse isso, mesmo no ostracismo, seus adversários angariaram uma rejeição maior do que a sua no comando do executivo, De fato, é uma tempestade perfeita cujas circunstâncias só agravam ainda mais o poder de disputa da oposição. Se duvidar, os disputantes ainda estão aguardando a manga amarelar para sair pro campo. Enquanto isso, surfando nas ondas da tempestade, o prefeito vai varrendo seus adversários.
A tempestade perfeita
