“Este ano, quero paz em meu coração, quem quiser ter um amigo, que me dê a mão, o tempo passa e com ele caminhamos todos juntos, sem parar…” Esse trecho desta velha canção de augúrios de ano novo toca de novo, mais uma vez e renova o convite tímido à paz universal! E, sim, é verdade que o tempo passa, todavia nem sempre caminhamos todos juntos, o sectarismo alavancado pela tecnologia da informação está célere, promovendo dicotomias, separações, conflitos.
Falar em Fraternidade Universal não é uma novidade do século XXI, tampouco um modismo espiritual contemporâneo. Trata-se de um ideal civilizatório que atravessa mais de cinco mil anos da história humana, presente nos modelos sociais da Ásia, da África, do Oriente Médio e das Américas — estas últimas, ironicamente, registradas nos livros de História sob o rótulo eurocêntrico de “Continente Novo”, como se ali não houvesse civilizações complexas, códigos morais, organização social e profundo senso comunitário muito antes da chegada do Velho Continente.
Da China milenar de Confúcio ao pensamento védico da Índia, das tradições africanas baseadas no Ubuntu — “eu sou porque nós somos” — às civilizações originárias das Américas, como maias, incas, os povos amazônicos, os Tupinambás da Mata Atlântica, o princípio do bem comum sempre esteve no centro da vida coletiva. A fraternidade não era discurso: era prática cotidiana, sustentada pelo respeito à vida, à natureza e ao outro.
No entanto, ao longo do processo histórico de dominação, colonização e racionalização extrema das relações humanas, esses valores foram sendo substituídos por estruturas sociais competitivas, hierarquizadas e excludentes, muitas vezes legitimadas por discursos religiosos, políticos ou econômicos que pouco dialogam com a essência fraterna que dizem defender.
Chegamos a mais um “ano novo”. Repetem-se votos, promessas e slogans: ano novo, vida nova. Mas a pergunta incômoda permanece: o que realmente se renova? Se a fraternidade universal continuar restrita aos discursos vazios, às campanhas publicitárias, aos rituais sociais e às falas moralistas desconectadas da prática diária, estaremos apenas reciclando hipocrisias antigas com embalagens modernas.
Não há fraternidade sem compromisso com o bem comum. Não há fraternidade sem benevolência real, perdão das ofensas, empatia concreta e responsabilidade coletiva. Quando esses valores não se traduzem em comportamento, atitudes e escolhas, o que resta é o engodo: palavras bonitas que não atravessam o coração nem transformam estruturas.
É preciso dizer, com honestidade intelectual, que as religiões, por si só, não darão conta desse paradigma. Não por falta de ensinamentos elevados — eles existem —, mas porque as instituições religiosas são humanas e, como tais, falhas, marcadas por ritualismos, disputas de poder e incoerências históricas. A espiritualidade autêntica não nasce no altar, no púlpito ou no templo: nasce no íntimo de cada ser humano.
A verdadeira espiritualidade é silenciosa, transformadora e expansiva. Ela começa no coração, reorganiza sentimentos, revê comportamentos e transborda naturalmente para o outro e para a sociedade. Sem essa conversão interior, nenhuma reforma social se sustenta. Nenhuma lei, ideologia ou sistema econômico será capaz de produzir fraternidade onde ainda imperam o egoísmo, a indiferença e a violência simbólica ou concreta. Minha proposta aqui é de imersão e autorresponsabilidade, pois, é na responsabilidade pessoal que toda fraternidade genuína, verdadeira, começa.
A História já demonstrou, repetidas vezes, que toda mudança duradoura acontece de dentro para fora. Primeiro o ser humano, depois as estruturas. Primeiro a consciência, depois os sistemas. Inverter essa lógica é insistir em velhos erros com novas narrativas.
Portanto, se não houver mudança real de pensamentos, sentimentos, comportamentos e atitudes fraternais universais — no cotidiano, nas relações familiares, no trabalho, na política, na economia e no cuidado com a vida —, é preciso coragem para admitir: não estamos vivendo um ano novo.
Com todo respeito às convenções sociais, resta dizer, sem ilusões: feliz ano velho.
Fraternidade Universal
Professora, historiadora, coach practitioner em PNL, neuropsicopedagoga
clínica e institucional, especialista em gestão pública.

