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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Rogerio Reis Devisate > A DOPAMINA NAS PAIXÕES, EM ANO DE COPA E ELEIÇÕES.
Rogerio Reis Devisate

A DOPAMINA NAS PAIXÕES, EM ANO DE COPA E ELEIÇÕES.

Rogerio Reis Devisate
Ultima atualização: 3 de janeiro de 2026 às 23:50
Por Rogerio Reis Devisate 3 dias atrás
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Rogerio Reis Devisate Advogado. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ. Palestrante. Escritor. | Foto:Arquivo Pessoal.
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No dia 26 de maio, anunciarão os 26 nomes que irão compor a Seleção brasileira que disputará a Copa do Mundo de 2026. Será como um feriado nacional!
Para grande parcela da população será o mais importante evento do ano, perdendo apenas para a possível chegada do time na grande final, com o hexacampeonato em jogo. Com isso, o interesse nas eleições presidenciais que se aproximam perde, de longe, para a Copa do Mundo.
Enquanto isso, vamos convivendo com coisas que abalam a credibilidade de instâncias e instituições que são fundamentais para a harmonia e a saúde político-jurídico-social do país, como a comida na mesa, o emprego, os juros, a economia, a segurança e a justiça. Falamos da imagem do Banco Central com a questão da pretendida acareação, do Supremo Tribunal Federal diante de acontecimentos recentemente noticiados e das loterias federais – depois desse atraso no sorteio da Mega da Virada, com mais de 1 Bilhão de reais em prêmio.
Precisamos de solidez e credibilidade, em tudo. Foi assim na época do Impeachment do Collor, período que o país atravessou com a régua erguida a cobrar elevados valores. Depois disso, parece que a régua foi baixando e baixando… Em tempos onde imperam as incertezas e a disseminação de informações insustentáveis e no qual a defesa da Soberania e da Democracia servem como slogans que se encaixam em tudo, não podemos ser cegos ao que ocorre no mundo.
Temos eleições periódicas para a escolha dos representantes do povo, na Democracia representativa. Mas, sem muito nos alongar, na Grécia antiga e em outros tempos e reinos europeus, havia escolha por sorteio, mais igualitária e com chances iguais para todos, o que é muito diferente dos políticos profissionais e distante da realidade contemporânea, com as imagens construídas e os discursos envolventes que funcionam muito bem nas campanhas mas não significam habilidade na gestão administrativa.
O contexto talvez explique o motivo pelo qual o povo arrisque menos na hora de escolher onde investir o dinheiro economizado, preferindo a poupança, mais segura, do que investimentos com taxas mais sedutoras, porém, mais arriscados. Sob essa ótica, comprometer o suado dinheirinho merece mais atenção do que arriscar o futuro do país.
O futebol e a política se assemelham em certo ponto. Todos temos opiniões prontas e alto senso crítico para demonizar o artilheiro que perde o gol, o goleiro que franga, o jogador que erra o passe e o juiz que funciona sem isenção e como o 12º jogador de um time. Todos nós defendemos com fervor a camisa do nosso time de futebol, que não se modifica ao longo da nossa vida. Aliás, é curioso que um jogador seja criticado quando está no time adversário e endeusado quando está no nosso – coisas da paixão futebolística.
Na política ocorre o mesmo. Por isso, nos cegamos ao resto quando se trata de defender o nosso time político e é tão difícil admitir que haja acerto ou craque no time adversário – seja quando falamos em futebol ou em política.
Por essa lógica, são as paixões que movem o mundo. As paixões, mais do que a razão. As paixões, mais do que a autocrítica, o certo e o errado, o pecado e o sagrado.
Isto ocorre porque os apaixonados são movidos pela dopamina, um neurotransmissor cerebral que é associado às recompensas e às coisas prazerosas e motivações. É como o prazer de erguer a taça de campeão, o tempo todo. Além disso, está relacionado à frase que diz que “o amor é cego”, indicando que a dopamina e a ocitocina, dentre outros neurotransmissores, jorram no cérebro e potencializam o sistema de premiações e recompensas, tirando o vigor das áreas que envolvem o cognitivo do julgamento crítico. Por isso o apaixonado fica deslumbrado e não vê defeitos, pois acredita que encontrou o amor perfeito enquanto fica em estado de êxtase viciante, razão pela qual o grande Balzac já dizia que as paixões se apoiam “em sua própria consciência, infalível”.
Na política, esses neurotransmissores também atuam sobre as pessoas, envolvendo as paixões partidárias, a cega defesa ideológica, a busca por proteção em grupo que pense do mesmo modo e os traços de recompensa nos palanques e em campanhas e eleições. Isso não envolve certo ou errado, de quem quer seja. Apenas a configuração analítica de comportamento de massa e como os grupos funcionam e os integrantes se motivam na linha do que os une.
Não sem propósito, convém relembrar que, em algum momento, ouvimos alguém dizer que o socialismo seria bom porque as “pessoas socializariam” e isso bem indica como as paixões políticas cegam a capacidade de compreensão dos fenômenos e ignoram o estudo e as pesquisas sobre o que significam os institutos e a história política e social.
Noutro foco, agride-se a democracia republicana por ser algo que não ofereceria condições igualitárias a todos, mas se esquece que Stálin destacou do texto de Lênin, intitulado A re-
volução proletária e o renegado Kaustki (página 16, da obra Dentro dos Arquivos de Stálin, de Jonathan Brent), que “a ditadura não significa necessariamente a destruição da democracia para a classe que constitui a ditadura sobre outras classes, mas necessariamente significa a destruição […] da democracia para a classe sobre a qual ou contra a qual a ditadura é constituída”.
Fica fácil se notar que não há igualdade ali e que a forma de manutenção do poder nas mãos dirigentes se dá pela ditadura. Esta opera com o medo, bem descrito por Lydia Chu-kovskaia, em Sofia Petrovna, escrito nos anos 1938/1939 e publicado, apenas, em 1988, onde se lê que “tinha medo de todos e de tudo. Ela temia o porteiro […] temia o síndico […] tinha medo de olhar para a mesa de seu quarto: talvez uma intimação da polícia estivesse sobre ela? Talvez a estivessem convocando à delegacia de polícia para tomar-lhe o passaporte e enviá-la ao exílio? Ela temia qualquer toque da campainha: talvez tenham vindo confiscar todos os seus pertences”. Esse medo instalado no povo gera desconfiança permanente e insegurança, dando ao governo vantagem total.
Decerto poucos se apercebem desses valores em jogo e como e por qual motivo os regimes socialistas exigem governos fechados, sem eleições livres e com práticas ditatoriais. Romantizar certos propósitos não significa que possam ser realizados com liberdade e amor. Infelizmente, o mundo edulcorado de Alice no País das Maravilhas só existe no livro. A realidade nua e crua nem sempre é bonita e agradável.
Pensar nisso, contudo, dá trabalho e exige mais comprometimento, valores nacionalistas e compromisso com a Pátria do que, como torcedores, cantar o Hino Nacional nos dias de jogo da Seleção brasileira na Copa do Mundo… E, quando significativas parcelas da população são patriotas apenas nos dias de jogo, algo parece estar faltando. Que nas próximas eleições estejamos tão comprometidos, bem informados e conscientes do que representa o voto, pois os jogos são importantes distrações que não definirão o futuro do país que legaremos para os nossos filhos, notadamente quando o mundo está elevando os graus de disputa entre governos e países – e, naturalmente, a busca de fidelidade dos seus aliados.

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Rogerio Reis Devisate 3 de janeiro de 2026 3 de janeiro de 2026
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