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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Rogerio Reis Devisate > Carros elétricos, datacenters de IA e ilusões ambientais
Rogerio Reis Devisate

Carros elétricos, datacenters de IA e ilusões ambientais

Rogerio Reis Devisate
Ultima atualização: 9 de agosto de 2026 às 10:32
Por Rogerio Reis Devisate 8 horas atrás
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Rogerio Reis Devisate Advogado. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ. Palestrante. Escritor. | Foto:Arquivo Pessoal.
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Pouco se fala de onde vem a energia elétrica que alimenta os carros elétricos e os poderosos datacenters de IA. Aparentam ser limpos, operando na imaginação coletiva como sinônimos de um progresso positivo, desmaterializado e não poluente.
Poderíamos formar alguns raciocínios: o que parece limpo nem sempre é materialmente limpo, o que parece imaterial é profundamente material, o que parece distante do corpo humano está ao seu redor e, por fim, o problema não é a tecnologia, mas a ilusão de que ela possa pairar acima dos custos ambientais e materiais produzidos pela sua própria existência.
O carro elétrico é talvez a melhor metáfora dessa transformação: aquilo que antes acontecia diante dos nossos olhos — a combustão, a fumaça, o ruído — passa a acontecer longe deles, nas minas, nas fábricas, nas usinas, nas redes de transmissão e nos locais de geração da eletricidade.
Como estamos extremamente expostos a ondas eletromagnéticas e a tecnologia está em tudo à nossa volta, em 1996 a OMS – Organização Mundial de Saúde estabeleceu um projeto internacional para estudar os possíveis efeitos da exposição humana aos campos eletromagnéticos (OMS – Campos eletromagnéticos – https://www.who.int/health-topics/electromagnetic-fields?utm_source=chatgpt.com#tab=tab_1), onde lemos: “O Projeto EMF incentiva pesquisas focadas para preencher lacunas importantes no conhecimento e facilitar o desenvolvimento de padrões internacionalmente aceitos que limitem a exposição aos EMF”, tendo como principais objetivos, dentre outros, “fornecer uma resposta internacional coordenada às preocupações sobre possíveis efeitos na saúde da exposição ao EMF”, “Avaliar a literatura científica e elaborar um relatório de status sobre os efeitos na saúde”, “identificar lacunas de conhecimento que necessitam de mais pesquisas para fazer avaliações melhores de risco à saúde”. Vivemos uma era de novidades.
Mesmo as fontes consideradas limpas não estão livres de impactos ambientais. Se pensarmos em energia solar ou eólica, encontraremos, ao longo de seus ciclos de vida, mineração de matérias-primas, fabricação industrial, transporte, ocupação territorial e, ao final, equipamentos que precisarão ser reciclados ou descartados.
Por aí se vê que a expressão ‘energia limpa’ precisa ser compreendida em termos relativos, pois mesmo as fontes de menor impacto ambiental não estão livres de mineração, fabricação industrial, ocupação territorial, resíduos e outras externalidades.
A energia produzida nas usinas nucleares possui um elemento assustador – e não estamos falando de acidentes, como em Chernobyl. Trata-se da permanência de resíduos radioativos e da dificuldade de administrar riscos cuja escala temporal ultrapassa gerações humanas. As termelétricas produzem gases que aumentam o efeito estufa. As hidrelétricas, embora apresentem baixas emissões em comparação com fontes fósseis, também podem produzir emissões de gases de efeito estufa, especialmente em determinados reservatórios, além de ensejarem o alagamento de grandes áreas.
A IA vem confrontar esse discurso com uma realidade física inegável quando, por trás da mágica das telas, operam datacenters e supercomputadores que geram calor extremo. Esse choque entre a imagem propagada e a realidade faz com que a fascinação inicial lance áreas de sombra sobre os custos estruturais e éticos da tecnologia. Aspecto pouco falado envolve a crescente apropriação econômica privada de usos estratégicos da água doce, moldando o futuro civilizatório.
Precisamos mensurar os impactos de médio e longo prazo nos ecossistemas locais, a partir de uma leitura inspirada na teoria dos sistemas de Niklas Luhmann. Por seu turno, a percepção de Paula Sibilia — que chega a apontar que somos e somos editados pelo que a grande rede diz que somos — nos alerta que a vida humana e os recursos naturais podem passar a ser progressivamente condicionados por estruturas tecnológicas e econômicas, forçando a transição para um cenário distópico. De fato, há mais sobre a IA do que nos dizem e é importante considerar que, recentemente, um importante documento foi assinado por mais de 200 especialistas e autoridades mundiais, incluindo ganhadores do Prêmio Nobel. O foco desse alerta histórico recai sobre a destruição de mercados tradicionais e o risco de desemprego em massa em escala global.
No entanto, até assusta que, enquanto cientistas e economistas se organizam de forma incisiva para alertar sobre crises no trabalho, vê-se pouca ou quase nenhuma manifestação com o mesmo peso político voltada aos impactos ecológicos imediatos, como a degradação do meio ambiente e a escassez de água para consumo humano.
Não seria surpresa se, no futuro, entre abastecer algum povoado e um datacenter, este último fosse tragicamente privilegiado pela força do poder econômico. A IA apresenta um consumo hídrico relevante. Dependendo da arquitetura de refrigeração e das condições locais, os datacenters podem consumir grandes volumes de água, inclusive mediante sistemas em que parte dela é perdida por evaporação para manter a temperatura operacional adequada. Resta investigar o destino dessa água, sua qualidade após o uso e os efeitos cumulativos dessa retirada sobre os sistemas hídricos locais. Trata-se de outra verdadeira “Charada do Fim do Mundo”, metáfora que formulamos em obra anterior onde questionamos a ética da IA quando cotejada com a nossa própria inteligência e sobrevivência biológica.
Ao mercantilizar e exaurir os suportes vitais do planeta, a humanidade flerta com o diagnóstico sombrio trazido por Marcus Bruzzo, quando descreve a perda do espaço humano para a inteligência artificial e o risco iminente de sermos sacrificados no altar da automação. As evidências empíricas sobre a escala global desse problema foram consolidadas em projeção contida em relatório do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH), com dados alarmantes para o final desta década, estimando que o consumo anual da IA chegue a 9,3 trilhões de litros de água, volume equivalente à necessidade doméstica básica de 1,3 bilhão de pessoas.
Outro aspecto está na manutenção das desigualdades sociais e não na promessa de benefícios globais igualitários, pois a maioria da infraestrutura de computação de alta performance para IA está concentrada nos Estados Unidos e na China, enquanto mais de 150 nações carecem de infraestrutura própria significativa. Isso cria um cenário de injustiça ambiental, sendo previsível que os maiores custos ecológicos diretos e a pressão sobre a retroalimentação de aquíferos atinjam as bacias das comunidades locais do entorno, como exemplificou a ocorrência havida em Montevidéu, onde os planos corporativos de instalação de datacenters colidiram com crises severas de escassez hídrica, provocando protestos civis que exigiam a priorização da água para o consumo humano em detrimento da refrigeração industrial.
A expansão material e predatória da tecnologia sobre os bens comuns atualiza dinâmicas históricas de expropriação. Esse fenômeno se conecta diretamente ao conceito de “grilagem de águas” (water grabbing), que abordamos em artigo publicado há poucos anos, quando evocamos o histórico da grilagem de terras para, adaptando o conceito ao cenário geopolítico, qualificar e categorizar a apropriação indevida e a tomada de controle privado sobre fontes naturais e cursos hídricos. A questão não é só sobre o volume consumido. É sobre o poder decisório de quem poderá utilizá-lo, onde e em que condições.
Não se trata de ser contra a IA, contra os carros elétricos ou contra qualquer evolução tecnológica. Trata-se de reconhecer que a tecnologia não aboliu a matéria, a energia, a água, os resíduos ou o território; apenas tornou parte desses custos menos visível. E aquilo que não vemos não deixa, por isso, de existir. A governança da inteligência artificial deverá incorporar critérios ambientais, especialmente quanto ao consumo energético e hídrico, à localização da infraestrutura e aos efeitos sobre as comunidades que suportam seus custos, sob pena de reproduzir ou ampliar desigualdades socioambientais já conhecidas. Antes de perguntarmos até onde a tecnologia pode chegar, talvez seja necessário perguntar quem pagará, materialmente, para que ela chegue lá.

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