Desde que o ser humano deixou as cavernas, o trabalho deixou de ser apenas um meio de sobrevivência e passou a ser um instrumento de transformação da realidade — e de si mesmo. Foi trabalhando que o homem domesticou o fogo, moldou ferramentas, construiu aldeias, cidades, impérios e civilizações inteiras. O trabalho não apenas acompanha a história humana: ele a estrutura.
Na Antiguidade, o trabalho era visto de forma ambígua. Para alguns povos, era castigo; para outros, necessidade. Na Idade Média, ganhou contornos espirituais: trabalhar era cooperar com a Criação. Com a Revolução Industrial, tornou-se mercadoria, força produtiva, engrenagem de um sistema que acelerou o progresso, mas também aprofundou desigualdades. Já no mundo contemporâneo, o trabalho passou a carregar um peso simbólico ainda maior: identidade, status, realização pessoal e, paradoxalmente, fonte de angústia.
Nunca se falou tanto em trabalho como agora — e nunca ele foi tão questionado. Vivemos tempos complexos, líquidos e instáveis, em que o trabalho é, ao mesmo tempo, desejado e rejeitado. Desejado porque garante dignidade e autonomia; rejeitado porque exige disciplina, renúncia, preparo e responsabilidade. O discurso da exaustão convive com o da improdutividade, e a ideia de sucesso rápido disputa espaço com a ética do esforço contínuo.
Muito se fala que “o trabalho vai acabar” por causa das inteligências artificiais, da automação e das novas tecnologias. Trata-se de um equívoco histórico. O trabalho nunca acabou — e nunca acabará. O que muda é a sua forma. Assim como o arado substituiu a enxada e o computador substituiu a máquina de escrever, a IA substitui funções, não a essência do fazer humano. Onde há problema, há trabalho. Onde há necessidade, há ocupação. Onde há sociedade, há demanda por ação humana.
O que de fato vivenciamos hoje não é a escassez de trabalho, mas a escassez de trabalhadores dispostos a pagar o preço do sucesso. Falta constância. Falta preparo. Falta compromisso com processos longos em uma geração educada para a recompensa imediata. Há vagas, oportunidades, reinvenções possíveis — mas nem sempre há disposição para o esforço silencioso, para o aprendizado contínuo e para a responsabilidade que o trabalho exige.
Trabalho é escolha diária. É renúncia do conforto absoluto em favor da construção de algo maior. É o exercício da liberdade responsável. Não se trata apenas de ganhar dinheiro, mas de produzir sentido, utilidade e pertencimento. O trabalho dignifica porque organiza o tempo, desenvolve habilidades, fortalece o caráter e insere o indivíduo no fluxo da história.
Quem trabalha serve a humanidade inteira direta ou indiretamente, quem não se sente afeito ao trabalho vira peso e angústia para quem, voluntária ou obrigatoriamente irá sustentar o preguiçoso.
Portanto, não nos enganemos: trabalho tem. O que anda raro é o trabalhador que compreende que sucesso não é sorte, é processo. Que entende que não existe atalho sustentável, apenas caminho. Trabalho sempre existirá. A pergunta que permanece é outra — estamos dispostos a evoluir com ele?
Trabalho: entre a essência humana e o desconforto contemporâneo
Professora, historiadora, coach practitioner em PNL, neuropsicopedagoga
clínica e institucional, especialista em gestão pública.

