Há uma narrativa recorrente no mundo contemporâneo que o espaço público precisa ser neutro. Neutro em relação à religião, símbolos tradicionais, e convicções profundas que, por séculos, moldaram civilizações inteiras.
Mas essa neutralidade é uma ilusão cuidadosamente administrada.
O caso recente envolvendo o Crvena Zvezda escancarou essa tensão. Uma torcida ergue um ícone cristão, acompanhado da frase “Que nossa fé nos conduza à vitória”. A resposta da UEFA foi imediata: multa, enquadramento, censura. A justificativa? “mensagem não apropriada para um evento esportivo”.
Mas o que define o que é apropriado?
Eric Voegelin, um dos mais agudos intérpretes do século XX, alertava para o surgimento das chamadas “religiões políticas”, sistemas modernos que reorganizam a vida coletiva com linguagem moral absoluta, símbolos, rituais e códigos de pertencimento. Não são religiões no sentido clássico, mas funcionam como tais no plano existencial.
Vivemos um momento em que determinadas causas são elevadas à condição de valores universais incontestáveis. Campanhas institucionais pelo BLM, símbolos amplamente divulgados do LGBT, tudo não apenas permitido, mas promovido. Ao mesmo tempo, expressões religiosas tradicionais são deslocadas para o campo do “privado”, do “inadequado” ou do “potencialmente divisivo”.
O ponto é a assimetria.
Quando algumas narrativas são institucionalizadas como moral pública e outras são restringidas como manifestações particulares, o espaço deixa de ser neutro. Ele passa a ser filtrado, editado.
O estádio torna-se um ambiente regulado por uma espécie de liturgia secular.
Nesse cenário, retirar a fé crista do espaço público é redesenhar a própria civilização. Ela que é parte orgânica e constitutiva da identidade cultural, a própria expressão de um povo.
Se certas agendas podem ocupar o espaço público sob o rótulo de “valores universais”, enquanto outras são confinadas ao âmbito privado, então não estamos diante de uma nova forma de ortodoxia que não se apresenta como religião, mas que organiza o mundo com fronteiras morais claras, linguagem própria e mecanismos de inclusão e exclusão.
Qual o futuro do espaço público?
Estamos criando um ambiete onde apenas determinadas narrativas têm autorização para existir?
Em alguns jogos, durante o Ramadã árbitros fazem pausas ao pôr do sol para que atletas muçulmanos que estão em jejum possam se hidratar e comer algo. Porque temos uma adaptação do ambiente a uma convicção religiosa específica? Uma fé pode influenciar o ritmo do jogo, outra não pode aparecer na arquibancada?
Se tudo deve ser neutro, por que algumas vozes soam mais alto do que outras?

