A metáfora de meu pai, a partir daí, governou minhas reflexões e minha vida. Não demorou muito e meu pai partiu, numa terça-feira, na hora que mais ou menos dormia todos os dias. Sua partida cortou como navalha meu peito e nunca mais fui o mesmo, pois aconteceu justamente quando me chegou a lucidez de reconhecer sua extraordinária capacidade de dar grandes lições. O tempo passa e todos os dias faço o exercício de descobrir qual é o meu rio, numa operação mental que dilacera as vias neurais pelo esforço ingente. A procura do rio é o desafio diário que chega a entorpecer, sem, todavia, desviar do foco.
Antes que seja indagado pelos meus filhos e chegue aos 90 anos começo a sacudir a árvore da reflexão para descobrir o que teria a dizer-lhes caso me fizessem idêntica pergunta. Já testemunhei – como disse Nietzsche no seu maravilhoso livro Crepúsculo dos Ídolos – verdades ruírem e minhas narrativas a respeito, também, são demônios que dão sonoras gargalhadas. Não copiaria meu pai, porquanto não tenho o talento que lhe sobrava para contar histórias. Minhas menções as minhas conquistas não seriam uma expressão de tanto brilho quanto ao rio que meu pai tão bem desenhava.
Resta-me, então, todo dia me encontrar com o tempo e ver meu filho preparar o futuro de sua filha como fez meu pai atravessando seus rios. Não é necessário que descubra o enigma das superações, mas que surfe na magia de ver o tempo ter a experiência saudável de dar seu testemunho para o processo. O resultado não importa porque todos nós iremos, inexoravelmente, partir deste plano nas nossas terças-feiras, mais ou menos no horário que o corpo pede descanso, deixando para trás as descendências que parimos. O certo é que sempre haverá cobrança da revelação da travessia de nossos rios, mesmo que o silêncio seja a resposta.