Quando meu pai fez 90 anos uma grande interrogação me assaltou: o que teria um pai de 90 anos para dizer para um filho? Numa manhã de maio, meio envergonhado, fiz-lhe a pergunta que me dominava. Meu pai, após ajeitar-se na cadeira e expandir o tórax para demonstrar sua força e virilidade mesmo na decrepitude, contou a história surrada de sua vinda para Macapá. Repetiu que para cá tinha vindo para dar um futuro melhor a sua família. Até aí nada de interessante ou inusitado. Sua finalização, contudo, dita numa expressão corporal de quem quer fazer uma revelação divina, foi fatal. Disse, com sua voz firme e apocalíptica: todo homem, meu filho, tem de atravessar o rio de seus desafios em busca da sua felicidade e de sua família.
A metáfora de meu pai, a partir daí, governou minhas reflexões sobre a vida. Não demorou muito e meu pai partiu, numa terça-feira, na hora que mais ou menos dormia todos os dias. Sua partida cortou como navalha meu peito e nunca mais fui o mesmo, pois aconteceu, justamente, quando me chegou a lucidez e sabedoria de reconhecer sua extraordinária capacidade de dar grandes lições. O tempo passa e todos os dias faço o exercício de descobrir qual é o meu rio, numa operação mental que dilacera as vias neurais pelo esforço ingente que me domina. A procura do meu rio é o desafio diário que chega a me entorpecer, sem, contudo, me desviar do foco.
Antes que faça 90 anos e seja indagado pelos meus filhos com suas perguntas de ouro começo a sacudir a árvore da reflexão para descobrir o que teria a dizer-lhes caso me fizessem idêntica pergunta. Já testemunhei – como disse Nietzsche no seu maravilhoso livro Crepúsculo dos Ídolos – verdades ruírem e minhas narrativas a respeito, também, são demônios que dão sonoras gargalhadas de minhas percepções equivocadas. Não copiaria meu pai, porquanto não tenho o talento que lhe sobrava para contar histórias. Minhas menções as minhas eventuais conquistas não seriam uma expressão de tanto brilho quanto ao rio que meu pai tão bem desenhava.
Resta-me, então, todo dia, me encontrar com o tempo e ver meu filho preparar o futuro de seus filhos como fez meu pai atravessando seus rios. Não é necessário que descubra o enigma das superações, mas que surfe na magia inaudível de ver o tempo ter a experiência saudável de dar seu testemunho para o nosso processo vital. O resultado não importa, porque todos nós iremos, inexoravelmente, partir deste plano nas nossas terças-feiras, mais ou menos no horário que o corpo pede descanso, deixando para trás as descendências que parimos. O certo é que sempre haverá cobrança da revelação da travessia de nossos rios, mesmo que o silêncio, tal qual o segredo de uma preamar, seja a resposta.