É preciso ser muito cuidadoso hoje antes de acreditar em tudo o que dizem e o que divulgam as grandes mídias nacionais e internacionais muito bem remuneradas. Sugiro a todos que as informações sejam checadas em várias fontes antes de acreditar. ‘Estamos na época da pós verdade. As pessoas são mais propensas a aceitar um argumento baseado em suas emoções e crenças, em vez de um baseado em fatos. A ideia de verdade caiu em desuso nos últimos anos. C’est la vie…’, Décio Michellis Jr. Diante de posicionamentos que testemunhamos no dia a dia, somente me resta acreditar no que disse o mestre Décio: vivemos em plena época da pós verdade.
A Gazeta do Amapá publicou, em 29/04/2024, o artigo “A DECADÊNCIA DA MENTIRA” da lavra de outro competente articulista Rogério Reis Devisate, Advogado, Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ e escritor. Transcrevo alguns trechos de seu artigo que considero um dos mais importantes da atualidade.
“A mentira teve o seu tempo de glórias quando era mais rara. Ultimamente, vulgarizando-se, deixou de ser tão relevante. Parece que ninguém mais lhe dá muita importância. No passado, quando descoberta a mentira, enchia-se a boca para dizer: – Fulano é mentiroso! Naquela época, o mentiroso se cobria de vergonhas, sofrendo com os olhares magoados dos enganados e com a pública condenação da sociedade, que primava pela verdade. A mentira, hoje, parece ser mais tolerada ou até festejada. Lamento por esses tempos ditos modernos, quando é vista como sinônimo de esperteza.
Os espertalhões parecem ser enaltecidos por sua arte: pela capacidade de enganar, de manipular e de mentir ou omitir. Também parecem ter menos medo de ser descoberto. Chegam a ter legião de seguidores, admiradores e pessoas que dão ‘curtidas’ nas postagens a respeito das suas atuações. Talvez os astros da mentira tenham lugar no panteão dos que se destacam porque produzem narrativas que atraem a atenção das pessoas. Decerto, sabem encantar, envolver e distrair. Não é que acreditem na própria mentira, mas tem inequívoca capacidade de não dar os sinais habituais de quem mente e, por isso, convencem. São mitomaníacos, patológicos produtores de enredos envolventes e sem exata conexão com a realidade. Até viram filmes, nas telinhas.
Parte do seu encanto está, exatamente, na sua não conexão com a verdade, que normalmente é simples e nua e crua. Aliás, Santo Agostinho teria dito que a verdade é como um leão, que não precisa de defesa, podendo ser deixada solta que saberá se defender. De fato, a verdade não é complexa ou dependente de ampla colcha de retalhos ou recursos cênicos. A mentira, ao contrário, até parece não ser o bastante quando é como tal revelada, momento em que, não raro, se desdobra em outras mentiras e em detalhes ainda mais fantasiosos, criando enredos secundários com personagens que dariam credibilidade à história original, além de atribuir certa imprecisão na narrativa de quem questiona o mentiroso.
Os seguidores, na linha do ‘quem conta um conto aumenta um ponto’ acabam por, orgulhosamente, participar da narrativa e a fazer parte da história, tendo dificuldade de aceitar a mentira, mesmo quando esta deixa aparecer o seu rastro, encobrindo-o, talvez por não querer ter de admitir que participaram daquilo – em vez de apontar o dedo e se afastar. O que seria dos hábeis ilusionistas que nos distraem a atenção para manipular a realidade e nos surpreender com suas mágicas e o resultado da sua magistral teatralidade? Não pagaríamos ingressos para que nos mostrasse que a ajudante de cena não é, de fato, cerrada ao meio ou que o coelho não surge do nada, dentro da cartola, nem que coisas desapareçam ou como funcionam os espelhos mágicos dos espetáculos circenses. Pagamos pela magia, pela ilusão, pelas adivinhações. Pagamos pela arte da palavra envolvente, dos discursos empolados e pelo envolvimento que nos proporcionam.
Fora dos teatros e salões, na vida social e política também sabemos quando estamos sendo ludibriados? Nem sempre. Todavia, temos um sexto sentido que nos espeta a razão e se esforça para nos chamar a atenção para o óbvio propósito dos espetáculos cênicos e envolventes. Entretanto, como explicar que a nossa mente perceba o sinal do mal que se apresenta e prefira, ainda assim, não gritar ‘pare’ e por socorro, deixando-nos, ao contrário, simplesmente, de modo passivo, aguardando o desdobramento daquela arte manipuladora que se desenvolve como espetáculo teatral ali, bem diante dos nossos olhos?
Será que gostamos de ser enganados, iludidos, manipulados? A mente humana têm desses meandros incompreensíveis, com a empatia, a submissão ao outro, a dependência emocional, a admiração e a cegueira moral – seja nos relacionamentos pessoais, na vida política ou nos esquemas de ‘pirâmides’ e outras promessas de lucro fácil. Com os tempos modernos, as fake news ganhando o cotidiano e os valores relativos de boa vida social se tornando relativos ante um certo princípio da vantagem a qualquer custo e do mundo dos espertos, estamos decaindo e, com isso, também desvalorizando a própria mentira, nesse contexto de ilusões, manipulações, omissões e mentiras que nos encantam.
A decadência da mentira está nos evidenciando um certo abismo social, um paradoxo, uma chamada à reflexão. Será possível viver razoavelmente numa sociedade onde a mentira seja tão tolerada, tão natural e até festejada? Onde são ‘condenados’ ou ‘cancelados’ os que apontem que ‘o rei está nu’? Isso deve nos fazer refletir, quando, de fato, parece que a realidade contemporânea se distingue daquela do conto de Hans Christian Andersen, sem o narrado final da história onde menino vê a única realidade existente, apontando a nudez do rei, enquanto a sociedade se perdia entre os que não viam, os que viam e não admitiam o que viam e que ‘passaram a ver’ após a atitude do menino e os que estavam tão fanaticamente iludidos que não eram capazes de perceber o mundo real, mesmo quando aquela manipulação ficou óbvia.”
Devisate tenta acordar a todos para a verdade, entretanto, parece que hoje a sociedade humana está hipnotizada e anestesiada aceitando e festejando mentiras tão obvias que não conseguimos entender como podem ser acreditadas. Os mentirosos manipulam a política, as pessoas e comércio internacional. A mentira não é propriedade do nosso país, está disseminada no mundo inteiro.
Recentemente foi divulgada uma notícia que assustou a todos “China deixará de importar milho do Brasil’, investigamos a notícia, destinada a reduzir os preços do milho brasileiro, e chegamos à notícia verdadeira ‘importadores chineses deixarão de comprar milho de 4 exportadores ucranianos’. Caro leitor tenha sempre muito cuidado no que acredita e se revolte contra as mentiras. A grande verdade é que para a sociedade atual a mentira deixou de ter ‘pernas curtas’. Muita cautela se revolte e reaja. Pare de ser passivo, levante do conforto da sua poltrona e reaja. Não importa se o mentiroso é o seu vizinho, alguma autoridade, algum país, algum ativista ou as grandes mídias, revolte-se e reaja, a próxima vítima da mentira pode ser você.
A mentira precisa apenas ser acreditada, pelos crédulos ou pelos mal intencionados, para se tornar verdade”.
A verdade caiu em desuso.
Estamos na época da pós verdade, onde a mentira prevalece e convence os incautos.
