O feminicídio de Silvia Cristina Costa Dias, de 54 anos, ocorrido na madrugada desta segunda-feira (6), em Oiapoque, extremo norte do Amapá, revelou um histórico de violência que, segundo a Polícia Civil, já acompanhava o suspeito preso pelo crime. O homem, de 51 anos, foi localizado horas depois do assassinato, confessou o homicídio durante interrogatório e agora responderá pelo crime de feminicídio.
O nome do investigado não foi divulgado pela Polícia Civil. Conforme as investigações, ele já havia sido alvo de um inquérito por tentativa de homicídio contra outra mulher no início deste ano, além de apresentar um comportamento considerado agressivo e recorrente em relação às mulheres.
As informações reunidas pelos investigadores apontam que, antes do crime, o suspeito passou a noite em um bar da cidade abordando mulheres de maneira insistente, fazendo comentários e propostas de cunho sexual. Testemunhas relataram que várias delas recusaram as investidas.
Silvia Cristina também teria rejeitado a aproximação do homem. Após a negativa, ela deixou o estabelecimento, mas passou a ser seguida pelo suspeito.
Segundo o delegado Felipe Rodrigues, responsável pelo caso, durante o trajeto houve uma discussão entre os dois. Em uma rua com pouca iluminação, o homem sacou uma faca e desferiu dois golpes na região do abdômen da vítima.
Mesmo gravemente ferida, Silvia ainda conseguiu caminhar até o hospital em busca de atendimento médico. A equipe de saúde tentou reanimá-la, mas ela não resistiu à gravidade dos ferimentos e morreu pouco tempo depois de dar entrada na unidade.
As investigações avançaram rapidamente. Imagens de câmeras de segurança instaladas nas proximidades permitiram identificar o percurso feito pela vítima e pelo suspeito, possibilitando que equipes da Polícia Civil localizassem o homem poucas horas após o crime.
Preso em flagrante, ele foi conduzido à delegacia, onde confessou o assassinato. Durante o depoimento, alegou que teria agido após um desentendimento com Silvia, versão que será confrontada com os elementos reunidos pela investigação.
Durante a apuração, a Polícia Civil constatou que o suspeito já possuía antecedentes relacionados à violência contra mulheres.
Em março deste ano, ele foi investigado por uma tentativa de homicídio contra outra mulher. Na ocasião, conforme o inquérito policial, a vítima foi atacada com uma faca e sofreu um golpe na região do pescoço, conseguindo sobreviver.
Para os investigadores, a existência de um caso anterior com características semelhantes reforça a hipótese de um padrão de comportamento violento, especialmente contra mulheres que rejeitam ou confrontam o suspeito.
Outro ponto destacado pela polícia é que o ataque ocorreu logo após Silvia rejeitar as investidas do homem, circunstância que fortalece os indícios de motivação baseada na condição de gênero da vítima, característica que enquadra o crime como feminicídio.
Entre os elementos levantados pela investigação estão a reincidência em episódios de violência contra mulheres, o comportamento insistente e agressivo registrado durante a noite do crime, a perseguição à vítima após a rejeição e a confissão apresentada pelo suspeito durante o interrogatório.
O homem permanece preso e deverá passar por audiência de custódia, quando a Justiça decidirá sobre a manutenção da prisão preventiva durante o andamento do processo.
Violência contra mulheres cresce no Amapá
O assassinato de Silvia Cristina ocorre em um momento de crescimento dos indicadores de violência contra mulheres no estado.
Dados divulgados pela Defensoria Pública do Estado do Amapá (DPE-AP) mostram que, entre janeiro e maio de 2026, foram registrados 492 pedidos de medidas protetivas de urgência em favor de mulheres vítimas de violência doméstica e familiar.
O número representa um aumento em comparação com o mesmo período do ano passado, demonstrando que cada vez mais mulheres têm buscado proteção judicial para interromper ciclos de agressão.
O levantamento também traçou um perfil das vítimas atendidas pela Defensoria. Grande parte delas possui renda entre um e dois salários mínimos, vive em situação de vulnerabilidade econômica, enfrenta condições precárias ou instáveis de moradia, é responsável sozinha pelo sustento e cuidado dos filhos e depende de programas sociais para complementar a renda familiar.
Segundo especialistas, esse cenário evidencia que fatores econômicos e sociais podem dificultar o rompimento do ciclo da violência, fazendo com que muitas mulheres permaneçam expostas aos agressores por falta de condições para reconstruir a própria vida.
As autoridades reforçam que situações de violência contra mulheres devem ser denunciadas imediatamente. Em casos de emergência ou risco iminente, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo telefone 190.
As forças de segurança destacam que denúncias feitas por vítimas, familiares, vizinhos ou qualquer cidadão podem ser decisivas para impedir novas agressões, preservar vidas e responsabilizar os autores dos crimes. O combate à violência de gênero depende não apenas da atuação policial e do sistema de Justiça, mas também da participação da sociedade na identificação e comunicação de situações de risco.

