A vida, certamente, sem elas, deixaria os sorrisos, os abraços e as pequenas alegrias. Aqueles afetos, amanhecidos bons dias com promessas renovadas, também, nunca surgiriam.
As coisas boas da vida jamais se comunicam com esplendor e, nem de longe, ofuscam o singelo momento de um “até logo” ou de um verso cantado ao arrepio. Não!
Um entardecer não pede aplausos. Tampouco, o amanhecer, com todas as infinitas possibilidades em sua riqueza. É por isso que as boas coisas exigem a dádiva da apreciação.
O riso, a lágrima e o suspiro, qual grandeza exaure a singularidade dessas expressões humanas? São a essência inestimável do instante vivido, o reconhecimento do divino, os momentos eternizados, por pura capacidade de encantamento pela imprevisibilidade e pelo mistério das coisas boas.
E, quando cada singelo detalhe traz consigo alegria genuína, o ser entra em frequência de contemplação, ainda que por curtos minutos.
Diante do naturalmente bom, o sublime desvenda-se afortunado de verdade. Deveras, isso responde a amargura de grandes conquistas. Aqueles anseios e espetáculos desejosos nada são, apartados de coisas pequenas, cotidianas, bobas, que os possam conectar ao humano sonhador.
Sem a simplicidade do dia a dia, os tronos não teriam glória, porque nem memórias despertariam. E por falar em despertar, os cheiros e sabores que alimentam a alma, pouco exigem de requinte.
Quanto a isso, a arte, que move e eleva o espírito e que é o portal dos universos inexplorados, exige algo além de asas à imaginação?
Que saudade! Saudade de imaginar e sentir, assim, a vida com lembranças não vividas. Resta a vida sem as pequenas coisas boas da jornada humana?
Pela eterna busca da plenitude, as memórias de infância deixam de ser as histórias mais queridas?
Os suspiros, próprios em suavidade, aqueceriam a alma, nas tardes intermináveis?
De quando em quando, entre as brincadeiras e os cheiros da cozinha, tudo já foi um convite às boas coisas e afetos.
Histórias contadas à luz de velas, festinhas de aniversário com qualquer bolo e sem tanto a oferecer, enchiam o ambiente de risos e abraços – e nostalgia.
Cada lembrança, cada fragmento de tempo, cada imaginação ganhou o mais valioso status de coisa boa da vida.
Ainda que nenhuma delas alcance o patamar de afortunada conquista, permanecem iluminando o caminho de volta para “casa”.
As recordações dolorosas, dos bancos de parque, dos leitos improvisados, das refeições solitárias e dos momentos de angústia são o que são: coisas boas de contar.
Que a existência seja repleta de grandes coisas e condecorados acontecimentos, mas que nenhum deles conduza a corações vazios em festas lotadas, nem a ausência de abraços acolhedores em celebrações pomposas.
Que, se o desconhecimento do valor singular daquelas boas coisas, pequenas e imperceptíveis, forçar ao sucesso não preenchido delas, a essência da verdadeira riqueza da vida conduza a vida às coisas boas.