As mães se desdobraram e as mães sangraram. Sangraram em silêncio. Vivenciaram uma dor de morte, de exaustão da carga de trabalho, dos traumas, da fome e da miséria. São mães jovens, mães solo, mães casadas, mães estudantes, mães desempregadas, mães empregadas, mães solitárias e com solidão, mães da Amazônia, mães do Amapá, mães das Pontes e das Palafitas, mães das Aldeias, mães do Bailique, mães do Mundo, mães de luto, mães com filhos e sem filhos. Para todas elas a pandemia foi mortal em algum sentido.
A doença aqui no Amapá chegou rápido, primeiro em Macapá e depois foi enraizado e se alastrando paras os interiores, chegaram nas aldeias, nas comunidades ribeirinhas, chegou na fronteira. Essas mães sentiram cada desgaste físico e mental que as restrições sanitárias trouxeram e passaram por situações que jamais poderiam imaginar. Foi desumano para nós.
O cuidado exigido pela pandemia para a redução da contaminação pela COVID-19, foi levado para dentro de casa e tem como protagonista as Mães. Aulas remotas, trabalho a distância, cuidados com a casa, alimentação, higiene com objetos. Nesse momento, ficou claro que os homens/pais não receberam a mesma sobrecarga de trabalho das mulheres/mães, e a divisão sexual do trabalho ainda é sexista. Essas mães também perderam seus empregos, suas diárias, viram seu comércio fechar e tiveram que retornar ao lar e dizer aos seus filhos que não tinham o que lhes dar de comer. Muitas mães deram ossos e pés de galinha como alimentos para seus filhos.
De acordo com o IBGE durante a pandemia foram as mulheres que atingiram os maiores índices de desemprego no Brasil. As estatísticas mostram números, mas não mostram quem são essas mulheres, mas elas são em sua maioria Mães e as responsáveis pelo sustento de seus Lares e de seus filhos.
A pandemia trouxe palavras estrangeiras como trabalho home office, aulas on-line, lockdown, e todas elas levadas para dentro dos lares e para responsabilidade das mães. Além da crise sanitária, essas mulheres foram e ainda são levadas à exaustão diária, crises de ansiedade, depressão, sobrecarga de trabalho, violência doméstica de todas as formas, morte por Covid-19, por enfarto e AVC. O sexismo e a divisão de trabalho ficaram evidenciados na pandemia. No trabalho home office, por exemplo, os homens/pais, em sua maioria, conseguem ficar em seus escritórios residenciais sem serem “incomodados”, dedicando-se ao trabalho e em seguida ao descanso.
Para nós mulheres/mães o quadro foi bem diferente, sem escolas, sem rede de apoio, sem creches, nos desdobramos em trabalhos domésticos, acompanhamento de estudos a distância e também trabalho remoto. Uma das mães ouvidas para esse artigo, moradora de Macapá, cujas iniciais são L.P.P., afirmou que: “Minha filha tem 7 anos e preciso acompanhar as aulas dela durante toda manhã, ocasião em tenho que trabalhar ao mesmo tempo. A tarde tenho que dividir a atenção entre minha filha e novamente o trabalho. Minha filha ficava na escola pela manhã e a tarde com minha mãe, mas por ser idosa, minha mãe está isolada e não pode me ajudar. A noite eu cuido do serviço doméstico e adianto tudo para o dia seguinte”.
Para as mães autônomas a situação foi bem pior, filhos em casa, escolas e creches fechadas, confinamento, comércio fechado e ausência dos recursos financeiros para manutenção de seu lar, elas dependiam do auxílio emergencial do governo, que demorou a chegar e para muitas, nem chegou. Outra mãe ouvida, moradora da Fazendinha, região metropolitana de Macapá, o relato foi que: “perdi todas as minhas diárias na época, estou sem trabalho desde que a pandemia começou, não tenho dinheiro para comprar o açaí do meu filho. Ele tem dez anos, a professora mandou umas folhas e uns livros para ele fazer, mas eu não estudei para ajudar e não tenho dinheiro agora para pagar uma moça aqui da ponte que está ajudando as crianças com as tarefas da escola.” Quando pergunto sobre o pai da criança, ela diz: “o pai só conheceu o menino quando ele nasceu, depois sumiu e não registrou a criança.” (K.P.R.).
Mais uma mãe falou sobre as necessidades financeiras durante a pandemia. O relato é da indígena L. K., da Terra Indígena Uaçá, Oiapoque, que falou: “Já são praticamente quatro meses em quarentena, durante esse tempo todo pudemos perceber quão vulneráveis somos. Temos recebido contribuições de cestas básicas dos nossos parceiros para o nosso povo permanecer nas aldeias, sei que foi feito o possível para ajudar, mas há algo a se destacar, essas cestas não suprem todas as nossas necessidades, infelizmente. Nossas famílias nas aldeias são grandes, há famílias que têm algum membro com necessidades especiais e estes precisam de uma alimentação diferente, nossas crianças precisam de leite para que suas mães façam seus mingaus, elas estão acostumadas com esses produtos. É muito fácil falar “fiquem em suas aldeias” quando você tem onde e como comprar o leite das suas crianças”. (depoimento retirado do livro Fala Parente! A Covid-19 chegou até nós. Organização: Elissandra Barros, Editora da Universidade Federal do Amapá, Oiapoque, 2021).
As desigualdades sociais evidenciaram-se quando na maioria dos lares brasileiros as crianças ficaram sem aulas, pois em suas casas não possuíam nem computador nem internet. Na cidade do Oiapoque a internet é escassa, cara e de qualidade ruim, o que ocasionou em crianças e adolescentes com muita dificuldade para acompanhar o ensino a distância. Mais uma vez a responsabilidade para acompanhar esses alunos eram das mães. Uma mãe da Cidade de Oiapoque (G.P.B) falou que: “Eu só tenho meu telefone, a professora está mandando mensagens das tarefas para fazer, mas só quando tenho dinheiro para comprar crédito é que dá para ouvir.”
O confinamento social, ausência de escolas e atividades recreativas elevou o nível de estresse das crianças, e consequentemente das mães. A indígena S.F., do povo Galibi Kali’na e Karipuna, mãe de quatro filhos, entre 15 e 3 anos, relatou: “Há outro ponto importante nessa situação, como lidar com as crianças e adolescentes que ficam em casa, presos, sem poder sair? É muito difícil! Minha filha de 15 anos, no começo, chorava muito, dizia que não estava aguentando ficar presa. Agora ela está mais calma, mas os outros também pedem para sair, embora eu não permita.” (depoimento retirado do livro Fala Parente! A covid-19 chegou até nós. Organização: Elissandra Barros, Editora da Universidade Federal do Amapá, Oiapoque, 2021).
Outro ponto agravador das situações das mães da pandemia é a romantização da maternidade, o fato da mãe ter que dar conta de tudo e com amor incondicional. Não é bem assim! É irreal e surreal. Essas ações exigidas, na verdade, estão mascarando a opressão do sexismo cultural. A sociedade não cobra dos homens/pais a mesma atitude em relação aos filhos. Essa representação irracional da maternidade é herança de um processo histórico de segregação da mulher com a dominação patriarcal absoluta, onde a mulher era criada e educada apenas para ser boa dona de casa, boa mãe e obedecer as ordens de seus maridos. De propriedade do pai, a mulher passava, após o casamento na igreja, para a propriedade do marido. O olhar masculino de que as mulheres são seres inferiores nunca deixou de existir, desde os tempos antigos.
Nesse debate de gênero percebe-se que a desigualdade da divisão dos trabalhos domésticos permanece ao longo de toda a história da humanidade. E a pandemia agravou a opressão, pois as famílias retornaram para dentro de seus lares e a responsável por toda a carga de trabalho foi, na maioria, das mulheres/mães.
A visão patriarcal é presente no nosso contexto sócio estrutural, com pensamentos de que se a mulher teve filhos a responsabilidade é dela. Ora! Ninguém faz filho sozinha! E é necessário que essa mudança de pensamento aconteça em nossa sociedade. Já não podemos mais suportar e permitir frases machistas e extintivas de responsabilidade paterna como: “Quem pariu o Mateus que o embale”, “Não quis fazer? Agora aguente”, “ser mãe é padecer no paraíso”.
Nesse contexto, a maternidade precisa passar por uma construção sociocultural e deixar de ser um parto e ser um instrumento libertador. Precisamos enxergar a maternidade real e verdadeira e emancipá-la da romantização e da opressão. A luta de gênero e divisão do trabalho doméstico precisa ser debatida, e não pode ficar apenas dentro dos lares com mães em silêncio e sobrecarregadas. Não somos guerreiras! Somos mães humanas vivendo em uma sociedade patriarcal e estamos exaustas.
Trago aqui o relato de uma mulher de 38 anos, mãe de uma menina de 5 anos e um menino de 3 anos: “A mulher sente diversas pressões quando opta pela maternidade. Já começando com o medo da demissão, a preocupação em sair do serviço para realizar consultas, a ansiedade na escolha do parto e até mesmo a decisão de um médico que aceite o que ela realmente deseja.” (depoimento retirado do texto “Sem romantismo: a maternidade como ela é”, por Luísa Massa, encontrado no https://bebe.abril.com.br/gravidez/sem-romantismo-a-maternidade-como-ela-e/).
O artigo não era para falar sobre o Direito Achado nas Ruas, Campos, Rios e Florestas Amapaenses? Sim, mas essa Mãe que aqui vos escreve, resolveu falar sobre O Direito Achado dentro dos Lares, relatando como foi e como é para nós Mulheres/Mães o cotidiano de sobrecarga de trabalho, e o quanto a pandemia nos levou à exaustão física e mental, crises de ansiedade e depressão. Contei apenas algumas histórias vividas pelas nossas personagens Mães, na sua maioria Amapaenses.
Falando de Direito Achado na Rua, trago aqui a construção dialética de Roberto Lyra Filho e sua visão de libertação humana e concretização dos Direitos Humanos. Nesse contexto, precisamos pensar e debater sobre a desigualdade de gêneros em todos os seus aspectos, inclusive sobre a divisão de trabalhos domésticos, responsabilidade paterna e maternidade real, são pautas importantes para a libertação e desromantização da Mulher/Mãe e concretização de seus direitos.
Aqui uma apenas uma reflexão sobre Mulheres/Mães da pandemia e o quanto precisamos lutar por essa igualdade de gênero e pelo fim de uma sociedade patriarcal, na esperança de um dia sermos libertas das amarras do machismo, preconceito.
Peço ao leitor que ao final dessa leitura pergunte a uma mãe próxima a você se ela precisa de ajuda. E vamos refletir sobre o papel da mulher dentro dos lares na busca por concretizar a libertação feminina. Viva o Direito Achado nas Ruas e nos Lares! Viva as Mulheres! Viva as Mães! Mulheres/Mães, Empoderem-se e Libertem-se!
* Algumas entrevistas foram feitas por mim e as mães pediram para não divulgarem seus nomes.
Autora Convidada
Fabiana da Silva Oliveira. Juíza Titular da Comarca de Pedra Branca do Amapari e Posto Avançado de Serra do Navio, Tribunal de Justiça do Estado do Amapá. Formada pela UniAnhanguera-Goiás. Especialização em Direito Civil pela UFG. Mestranda em Direito pela UNB