Desde o final dos anos 2000, a humanidade gradualmente passou a acessar a Internet com o objetivo de buscar a interação via mídias sociais. Em relação à literatura médica atual, porém, ainda não foram realizados estudos específicos com ênfase em mídias sociais e pandemias.
No artigo “Social media during a pandemic: bridge or burden?”, publicado no SP Medical Journal, os psiquiatras Pedro Shiozawa e Ricardo Riyoiti Uchida, do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Ciências Médicas, Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP), apontam que a principal questão não é quanto se usa as mídias sociais, mas como essas mídias e novas tecnologias são utilizadas.
Em relaçã aos cenários atuais como o da pandemia do COVID-19, nas internações, na solidão surge a questão: o uso da mídia social pode ajudar a superar o fardo do isolamento inevitável?
Duas estratégias principais podem ser derivadas dos dados sobre o uso diário das mídias sociais que já estão disponíveis:
1 – o uso das mídias sociais pode se tornar uma estratégia de comunicação em tempo real para ajudar a circular dados e informações durante uma pandemia. Isso decorre das recomendações feitas na pandemia do COVID-19, no uso generalizado da tecnologia da informação de ponta para aumentar a conscientização sobre algum evento específico foi destacado como uma abordagem fundamental para lidar com a crise; e
2- o uso das mídias sociais pode colocar as pessoas lado a lado se elas foram forçadas a se separarem, o que as deixa estressadas, como geralmente é visto durante as quarentenas. Nesse aspecto, as mídias sociais têm a capacidade de ser uma ponte e de aproximar as pessoas quando são incapazes de se ver fisicamente.
Enquanto as possibilidades do trabalho home office, aulas on-line, de adotar novas estratégias de comércio, manter relacionamentos afetivos e até desfrutar do lazer e da cultura já vinham ocorrendo nos últimos anos através das telas de smartphones e computadores, foi o isolamento social, devido ao surgimento do novo Coronavírus (Covid-19), que potencializou seu uso para conseguir manter certas rotinas durante a pandemia.
Hoje, através da hashtag #FiqueEmCasa, as pessoas podem desfrutar de treinamento físico, aulas de ioga, entrevistas com celebridades, shows, promoções de entregas em domicílio, cursos on-line, campanhas de solidariedade e até memes, o que faz das redes sociais ferramentas vitais nestes tempos, uma vez que, para o ser humano é vital se comunicar e manter o contato com o mundo.
No entanto, embora as redes sociais tenham se tornado aliadas fiéis para muitos durante o confinamento, inclusive até para se “desconectar” do que está acontecendo, também é verdade que, para outros, a grande rede pode ser uma fonte de ansiedade (pela grande carga de informações dessa crise sanitária e até pela saturação de tantas atividades oferecidas), de frustração (por não possuir o que outros aparentemente têm), podendo até ser um sério problema de dependência. Por tudo isso, a pesquisadora e professora do Programa de Pós-graduação em Saúde da Criança e da Mulher (PGSCM) do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) Suely Deslandes fala na entrevista abaixo, sobre o papel das redes sociais durante a pandemia:
Diante da quarentena pelo novo coronavírus, quais as vantagens e a utilidade da internet na adaptação à pandemia?
Como indicam várias cartilhas e orientações de instituições de saúde, a internet nesse momento de isolamento social possibilita manter as interações com amigos, familiares e vizinhos. Mesmo aqueles que não estão podendo fazer o isolamento social, com a suspensão das aulas e de muitas frentes de trabalho, também estão mais tempo em casa e acessando mais a internet. O acesso à internet possibilita que muitos continuem a ter aulas, a manter atividades de trabalho, a participar de atividades culturais e artísticas e acessar suas redes de apoio. É através das redes digitais que se tem acesso a informações sobre a pandemia e as formas de proteção. A internet tem o papel fundamental de manter uma certa rotina e parâmetros de “normalidade” nesse momento de suspensão das atividades presenciais. Como cito em artigo de minha autoria com o professor Tiago Coutinho (“O uso intensivo da internet por crianças e adolescentes no contexto da Covid-19 e os riscos para violências autoinflingidas”), publicado recentemente na Ciência e Saúde Coletiva, vemos que pela primeira vez o contato com o mundo “real” só é possível via conexão digital.
As redes sociais podem ser uma faca de dois gumes durante o isolamento social? Por quê?
Em primeiro lugar, o uso intensivo da internet pode gerar uma adição, um uso compulsivo, definindo uma dependência e centralidade do uso da internet em relação a qualquer outra ação cotidiana. A participação intensiva nas redes sociais também pode gerar um “excesso” de informação ou, em muitos casos, desinformação sobre a pandemia. O excesso de informação pode gerar ansiedade e a difusão da noção de um “medo global”, com ênfase no número de mortes e previsões das curvas de contágio. Por outro lado, a depender das redes a que se está vinculado, as redes sociais podem prover um conjunto de fake news, que descredibilizam a ciência, o conhecimento epidemiológico e as orientações sanitárias.
No caso de crianças e adolescentes, o uso intensivo também pode aumentar as chances de sofrer e praticar violências na ambiência digital.
Como uma pessoa pode manejar o excesso de informações nas redes sociais sobre a crise da saúde, sem deixar de se manter informado?
Alguns autores sugerem que se busque definir um tempo determinado dentro da rotina para buscar informações, evitando assim estar “conectado o tempo todo”. A lógica é de qualidade e não quantidade de informação. Assim, é melhor ter acesso a sites confiáveis (sites de órgãos oficiais de saúde) ao invés de ficar navegando em muitos sites que se contradizem e espalham notícias sem qualquer respaldo científico.
Antes da pandemia, falava-se da relação entre o uso das redes sociais com níveis mais altos de depressão, sensação de solidão e isolamento social. Hoje, por necessidade, a orientação é permanecer em confinamento.
Quais as recomendações para que as redes sociais não dominem a vidas dos usuários e eles possam ter uma quarentena digital “saudável”?
A “rotina saudável” não é possível ser definida a priore, pois cada faixa etária/geração tem uma relação diferente e faz usos diversos das redes sociais. Para os jovens, por exemplo, a sociabilidade digital é essencial. Assim, a navegação on-line percorrerá caminhos diferentes entre games, busca de informação, interações com familiares/amigos/conhecidos, compra e contratação de serviços/mercadorias, entretenimento, aprendizagem escolar ou diversa, hobbies, etc. O que “faz bem” ou é “saudável” pode variar de acordo com a cultura, com os parâmetros de saúde mental e com a idade desse usuário. Os manuais da Organização Mundial da Saúde e do Unicef sugerem que os pais pactuem com seus filhos um tempo de uso da internet por dia, evitando que deixem de realizar outras atividades.
A sociabilidade digital é essencial à contemporaneidade, veio “para ficar” ainda que continue a sofrer constante mutação, de acordo com a incorporação de novas tecnologias. Quando a quarentena terminar continuará a ser essencial. Talvez leve um tempo para o “desmame” gradual dos que ficaram mais aficionados, já para outros que não faziam uso das redes sociais provavelmente passarão a incorporar tais práticas em suas rotinas. Contudo, a sociabilidade presencial, que permite a vinculação das corporalidades que demarcam nossa existência, a força dos sentidos, do toque, do abraço continuará a essencial da vida em comum. Continuaremos nos desdobrando entre as fronteiras cada vez mais borradas entre os mundos online e offline. O que nos parece ainda um desafio imediato é o investimento numa educação digital, para que o uso do internet seja ético, para que as informações ali veiculadas sejam absorvidas de forma crítica e reflexiva e assim possamos usufruir das muitas possibilidades de comunicação, produção e disseminação de conhecimento, afeto, de lutas por direitos e mesmo de serviços e negócios.
https://fcmsantacasasp.edu.br/uso-das-midias-sociais-na-pandemia/
http://www.iff.fiocruz.br/index.php/8-noticias/675-papel-redes-sociais