O viúvo da professora Juliana Faustino Bassetto, que morreu após intoxicação na piscina durante uma aula de natação na academia C4 Gym, na zona leste de São Paulo, recebeu alta do hospital nesse domingo (15/2) e se emocionou ao falar da esposa em um depoimento gravado em vídeo.
Vinícius de Oliveira (foto em destaque), que fazia aula de natação com a esposa naquele dia, disse que ter sobrevivido foi uma “vitória”, mas que “falta a vida da Ju”. Ele estava internado desde o dia 7 de fevereiro, quando clientes do estabelecimento passaram mal durante uma aula de natação.
“Os dois núcleos familiares, que a gente trata como um só, está todo mundo se apoiando e vai todo mundo continuar junto. Não está sendo fácil para mim. É uma vitória ter saído com vida, mas tem aquela falta, sabe? Aquela vitória que está… (choro)… falta, falta a vida da Ju”, disse Vinícius.
Após o mal-estar sentido na piscina, Juliana e Vinícius foram, por conta própria, ao hospital Santa Helena, de Santo André, na Grande São Paulo. A mulher sofreu uma parada cardíaca e não resistiu. Além do casal, ao menos outras cinco pessoas precisaram de atendimento médico devido à intoxicação por cloro.
Vinícius contou que está tentando “não guardar nenhum tipo de ódio” porque não fará bem a ele, mas demonstrou indignação com todos os problemas envolvendo a academia e que só foram descobertos após a tragédia.
“Estava tudo errado, né?”, disse ele, referindo-se à falta de alvarás da academia e falta de qualificação do responsável pela manutenção da piscina, que era um manobrista. “Não se importaram se não tinha alguém especializado fazendo isso [limpeza da piscina]. Estavam colocando em risco a vida dos funcionários que estavam lá, de todos os professores, de todos os alunos. Uma hora ia dar errado.”
Vinícius disse que jamais imaginou que uma piscina poderia ser um ambiente perigoso. “Qual a nossa garantia de que aquilo é um ambiente seguro? Para mim sempre foi. Nunca imaginei que ia entrar com a minha esposa numa piscina e ia sair dela sem ela, praticamente.”
Sócios indiciados por homicídio
Os três proprietários da academia C4 Gym foram indiciados por homicídio por dolo eventual após a intoxicação de alunos na piscina do estabelecimento.
Ao Metrópoles o delegado titular do 42º Distrito Policial (Parque São Lucas), Alexandre Bento, informou que Cesar Bertolo Cruz, Celso Bertolo Cruz e Cezar Miquelof Terração compareceram de forma espontânea à delegacia, na quarta-feira (11/2), acompanhados de advogados, e prestaram depoimento para o delegado responsável pelo caso.
De acordo com o delegado, há indícios de que o manobrista Severino José da Silva, de 43 anos, recebia orientações diretas dos proprietários, por meio de mensagens via WhatsApp, sobre a aplicação de produtos químicos na piscina, mesmo sem possuir qualificação técnica para o procedimento.
Segundo o delegado, as especificações técnicas apontam que “a carga de cloro que usavam em um dia era para uma semana”, como forma de maquiar a água e a piscina nunca fosse fechada.
A Justiça de São Paulo, no entanto, negou a prisão dos sócios sob justificativa de que não há razão para que eles sejam detidos. Na decisão, a juíza Paula Marie Konno destacou que os investigados se apresentaram à polícia, prestaram esclarecimentos e não representam risco para a investigação. Ela também ressaltou que a C4 Gym encontra-se lacrada e já foi periciada.
A juíza, no entanto, impôs medidas cautelares alternativas à prisão. Os sócios devem se apresentar mensalmente à Justiça, além de informar e justificar atividades. O trio também está proibido de se aproximar do endereço da academia, de manter contato com testemunhas e de se ausentar da Comarca por mais de sete dias sem autorização.
“Recebemos com satisfação a decisão judicial que garante aos nossos clientes o direito de aguardar a apuração dos fatos em liberdade, sendo certo que cumprirão fielmente todas as cautelares alternativas impostas pela justiça”, disse a defesa dos sócios.
“Reiteramos que eles permanecem inteiramente à disposição das autoridades competentes para quaisquer esclarecimentos, em qualquer momento, confiando que a investigação prosseguirá de forma técnica, isenta e em estrita observância às garantias constitucionais”, concluiu a nota.
Morte após aula de natação
- Em 7 de fevereiro, uma aluna morreu e ao menos outras seis pessoas foram internadas em estado grave após nadarem na piscina da C4 Gym, no Parque São Lucas, na zona leste de São Paulo.
- Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, sofreu uma parada cardíaca após a aula de natação.
- Ela estava acompanhada do marido, Vinicius de Oliveira, de 31 anos, que também sentiu mal-estar na piscina.
- Eles comunicaram a situação ao professor responsável e, depois da aula, foram por conta própria ao Hospital Santa Helena, de Santo André, no ABC paulista.
- No hospital, Juliana não resistiu. O marido dela foi internado em estado grave.
- O fato foi registrado em boletim de ocorrência no 6º Distrito Policial de Santo André.
- Há ainda o registro de ao menos outra pessoa internada em estado grave no Hospital Vila Alpina, na zona leste de São Paulo.
- O menor de idade foi levado pelo pai ao hospital e ele também nadou na piscina da academia, onde apresentou dificuldade de respirar.
- Aluna de 29 anos foi internada na UTI após sentir náuseas, vômitos e diarreia.
“Impossível de respirar”
Um dos alunos que estava na aula de natação relatou ao Metrópoles o que aconteceu enquanto estavam na piscina. O advogado Eduardo Esteves Rossini, de 37 anos, disse que funcionários da academia C4 Gym fizeram uma mistura de cloro em um balde e deixaram ao lado da piscina.
“Jogaram alguma coisa que deu reação química. Sentimos queimar os olhos, nariz, garganta e pulmões. Ficou impossível de respirar”, afirmou.
Segundo Rossini, quem estava mais próximo ao balde sofreu mais — a mulher que morreu, o marido dela e o adolescente, que foram internados em estado grave. “Eles inalaram mais”, disse.
O advogado procurou atendimento médico na ocasião e precisou retornar ao hospital, nessa segunda-feira (9/2), devido a uma piora no quadro de saúde. “Acordei com a garganta muito inflamada e expelindo um pouco de sangue. Estou tomando algumas medicações e fazendo exames”, relatou.
Vídeo mostra desespero de alunos
Câmeras de segurança flagraram o momento em que alunos e instrutores passam mal durante a aula de natação na piscina da academia. Nas gravações (veja abaixo), é possível ver as vítimas sendo retiradas da água com dificuldades de movimento e respiração.
Outra câmera filmou Juliana sendo levada para a recepção da academia, após ser retirada da piscina. Ela senta no chão, coloca a mão no peito, faz sinal como se estivesse tonta e parece tossir.
Em nota, a direção da Academia C4 Gym destacou que “lamenta profundamente o ocorrido em sua unidade” e que “está colaborando integralmente com as autoridades competentes”.
Fonte: Metrópoles

