Eu não sei quem haverá de saturar primeiro, se eu escrevendo essas cartas ou você que talvez nem as leia. Mas, enquanto continuar essa grande festa que hoje se internacionaliza com a nossa Amazônia, vou continuar escrevendo. Ainda que só eu mesmo as leia.
Realmente confesso, jamais esperei vivenciar o que agora vejo e assisto acontecer. Que pobreza de espírito e que fraqueza nacionalista está acompanhando essa sua gente e respingando mesmo em você. Será Lula, que todos tem real noção do que estão fazendo à Nação brasileira? Isso já não é mais uma sacolinha andando solta por aí, mas sim um inteiro saco de Papai Noel que presenteia o mundo com mais que compartilhamento de soberania sobre essa região que apesar de ter este nome, antes de mais nada, é Brasil.
Todos, você incluído, jamais tiveram a preocupação em esclarecer a sociedade nacional, muito bem esclarecido, o que vocês oferecem ao pedirem tanto dinheiro e principalmente qual a exigência externa que com ele vem junto.
As coisas estão realmente se tornando exageradas e se aproximando de uma irreparável loucura permanente. Estão falando demais em dinheiro e de grana que ninguém prestará conta. Talvez aí a vantagem em recebê-la. Esse jogo de cena que hoje tem movido os “interesses amazônicos”, talvez a médio e longo prazo, por estarem sendo efetuados sem nenhuma clareza ou projeto prévio, pode nos causar danos maiores e permanentes.
Vamos abrir um parêntese para tratar de um assunto que você tem evitado e que nós estávamos fora dele por se tratar de briga de cachorro grande. Vamos falar da melhor ferramenta que o Brasil dispõe para uso de proteção territorial e social à Amazônia, não só no seu anteparo como de sua estabilidade, o Exército Brasileiro. Você se envolveu mal politicamente com esse pessoal fardado e está carregando estes preconceitos, dores e até desprezo para onde não devia.
Mas, vou lhe inteirar de algo não notado na vida nacional. Saindo de Minas Gerais e vivido um tempo no nordeste brasileiro e em seguida mais 40 anos na Amazônia, pude entender bem o que une e o que separa o povo brasileiro. Existe uma reclamação fajuta de que em nosso país, preconceitos e separações classistas sejam promovidos por bens materiais, posses de cada um e até cor. Estamos todos enganados, Lula. Em nossa sociedade, divisionária é a instrução, daqueles que estudaram com aqueles que não tiveram essa oportunidade. Dois extremos formidáveis, uma elite culta e outra que não foi bafejada pelo ensino. Pois é, essa última aí é a grande maioria da Amazônia, e com ela diplomado não gosta de conversar, e por outro lado, lá o prático trabalhador, dono de uma ciência própria ignora o diplomado e este por sua vez ao primeiro não dá confiança. Só nos restando a conviver e receber as atenções daqueles que apesar de estudarem, ao vestirem fardas do Exército Brasileiro, e para cá vindo, são os únicos que conversam com a gente e únicos que compactuam conosco não só a ocupação, mas também o orgulho de estar aqui e a nacionalidade. Do mundo civil, quem para cá vem e traz a alma, daqui sai. Do mundo militar, também para cá, só verdadeiros profissionais, os de ventos políticos, ficam aí pelo sul mesmo.
E agora ao tratar das doenças tão propagadas, vistas por vocês políticos, como monopólio indígena, talvez estejam indo no caminho certo. Porém, se não forem atrás das causas ou pelo menos procurar quem as conhecem, causarão um dano maior com a criação do vício da dependência. E aí Lula, não tem medicina, marinha, aeronáutica, e você estará lascado. Só lhe restará o dito exército que agora renega, inda que legalmente esteja sob suas ordens, ou nós mesmos, de quem você não gosta tanto. A primeira coisa que vocês deveriam buscar entender é sobre a quem vocês buscam ajudar e tratar, neste caso os índios que chamam, de ianomâmi.
Dos ianomâmi você só viu a ponta do iceberg, cuja gente o presidente do país vizinho não se preocupou e não deu conta de cuidar. Ianomâmi são eles Lula, não estes, que estão aí na antiga missão da MEVEA, ong da igreja batista americana que há muitos anos implantou esse posto de atração. Gente séria, escudada nos serviços das Asas de Socorro. E não são bem ianomâmis e sim de outra etnia, Maiogong, assim como as outras comunidades mais ao norte que são os Yanam. Todos caribeês. Mas, como ultimamente ianomâmi está dando mais assunto, vamos todos de ianomâmi. E a este último Lula, povo inveteradamente nômade, sem nenhum aporte de cultura ou de subsistência fixa, aconteceu que ao buscarem meios de se proverem, facilitados por mãos de outros ocupantes que chegavam, que você e seus administrativos chamam de “criminosos”, mas que há séculos existem como garimpeiros, criaram uma dependência prejudicial e insatisfatória. Indiscutivelmente, uma coisa boa estes, mal “afamados criminosos” realizaram, trouxeram a luz seres que o mundo se por eles arrecadava, não os enxergavam no anonimato amazônico. Porém, dizerem que esta tragédia foi provocada por essa gente Lula é uma puta maldade. Nenhum mal neles identificado tem origem advindo dos seres humanos que lhes estão próximos hoje. A malária veio as Américas nos navios de Cristóvão Colombo e ela não é transmitida de pessoa por pessoa. No caso dessa doença aí, peça a nosso Supremo para ordenar caça a um mosquito sacana chamado Anopheles. Sem machismos, o transmissor é a fêmea. Mas, para não dizer que eu não falei mal de ninguém, procurem saber quem acabou com a SUCAM.
Quanto a subnutrição Lula, pelo amor de Deus, atribuir isso a garimpeiros é coisa de um analfabetismo administrativo total, volte lá atrás, se informe com o Exército Brasileiro as causas disso. Vai descobrir com eles, que estes índios ianomâmis, de expectativa de vida média 32/35 anos, se permitem culturalmente a gravidezes precoces, quase infanto/juvenil e se deslocaram em busca de amparo, a locais extremamente estéreis, de pouca piscosidade e nenhuma caça, tudo agravado por falta total de higiene básica.
Virando as costas aos conhecedores do problema, suas causas e soluções, acabam por se tornarem mais responsáveis do que a quem ignoram ou acusam por essa desgraceira.
Jose Altino Machado
Macapá, 05/03/23
P.s: ao que eu saiba, após seis malárias e difíceis experiências com companheiros, medicina alheia as doenças tropicais, tais como malárias, arbo-vírus, leishmaniose etc etc, delas não entende bulhufas… pergunte aos milicos.
Cartas a Lula 16
