Até o momento, não foram esclarecidas todas as circunstâncias que levaram a morte da criança, mas os investigadores da 16ª DP, da Barra da Tijuca, já afirmaram que Henry foi assassinado com emprego de tortura.
Tortura
De acordo com a Polícia Civil, Henry Borel já tinha passado por sessões de tortura antes do episódio que levou a morte dele. Segundo a investigação, o padrasto, Dr. Jairinho, utilizava de chutes e golpes na cabeça do menino e Monique sabia do que estava acontecendo desde fevereiro.
A morte
O menino chegou morto a um hospital da Zona Oeste do Rio de Janeiro na madrugada de 8 de março. A criança tinha passado o fim de semana com o pai, o engenheiro Leniel Borel, e foi deixado na casa da mãe, Monique Medeiros, no domingo (7/3) por volta das 19h. Em mensagens trocadas com o pai da criança, Monique disse que estava apreensiva pelo choro do filho na hora de voltar para casa.
De acordo com a versão do padrasto e da mãe, Henry dormiu no quarto do casal enquanto eles assistiam a uma série na TV e que acabaram por dormir. Durante a madrugada, Monique teria acordado e encontrado a criança caída da cama com os olhos revirados e sem respirar. Segundo Monique, ela disse acreditar que o filho tivesse caído da cama.
Foram feitas duas autópsias no corpo da criança. O laudo apontou que a morte foi provocada por hemorragia interna e laceração hepática causada por uma ação contundente. Além da lesão no fígado, também foram encontrados hematomas no abdômen e nos membros superiores, contusão no rim, no pulmão e no crânio.
Para a polícia, o menino morreu em decorrência de agressões. Segundo os investigadores, Dr. Jairinho já tinha histórico de violência contra o menino. Segundo a investigação, o parlamentar se trancou quarto para agredir a criança com chutes e pancadas na cabeça um mês antes do crime —a mãe soube das agressões, ainda de acordo com a polícia. O casal também é suspeito de combinar versões e de ameaçar testemunhas para atrapalhar as investigações, indicando a necessidade manter histórias falsas que isentariam o casal da responsabilidade da tragédia dolosa.
Casos Henry Borel x Isabella Nardoni
Infelizmente é isso: Essa história tem todos os ingredientes de uma tragédia anunciada.
Os elementos já levantados que permitem uma análise inicial, nos remetem ao caso, também horripilante da pequena Isabella Nardoni, restando a sensação de que essa história está se repetindo.
A semelhança que mais chama a atenção é a participação do par parental (pai e/ou mãe), que tem a sagrada missão de cuidar e proteger, ser protagonista da morte da criança, seja pela ação como pela omissão.
Outro aspecto é a associação criminosa entre duas pessoas com pacto de silêncio, de perversidade e egocentrismo que resultaram nessa fatalidade (calar ou omitir em prol do próprio status, ascenção social e conforto), ainda que custe uma vida, mais que isso, a vida do próprio filho.
Ademais, para não nos alongarmos, nos horroriza o descaso dessa dupla do mal, com egos imensos, preocupações com a imagem e ausência de remorso óbvia, demonstrada por comportamentos sociais, de quem tem a consciência limpa (que não é o caso).
Como saber se uma criança é vítima de violência?
Mudança de comportamento é comum em crianças e adolescentes que são vítimas de violência. Ao perceber sinais de violência contra crianças, pais e profissionais devem notificar o Conselho Tutelar.
A violência contra crianças e adolescentes é uma realidade global, que resulta em consequências graves e provoca impactos em todas as áreas da vida das vítimas. O estudo Inspire, conduzido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em parceria com diversas entidades internacionais e divulgado em 2016, estimou que em todo o mundo cerca de 1 bilhão de crianças e adolescentes entre 2 e 17 anos sofreram violência psicológica, física ou sexual no ano anterior à coleta dos dados. O levantamento foi feito em 96 países.
O estudo destaca ainda que meninas e meninos que são vítimas de violência com frequência são desacreditados ao relatarem o que sofreram. Nesses casos, nada é feito para reparar os danos causados. Ainda segundo o Inspire, mesmo que a violência seja “escondida”, suas consequências vão surgir mais tarde e trazer “sobrecarga difusa, duradoura e de alto custo para crianças, adultos, comunidades e nações”.
No final de 2018, a Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), em parceria com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM), lançou a segunda edição do Manual de Atendimento às Crianças e Adolescentes Vítimas de Violência. O documento é destinado principalmente aos profissionais que trabalham com crianças para que sejam treinados a reconhecer rapidamente e saber
O manual classifica a violência em três tipos principais: doméstica ou intrafamiliar, extrafamiliar e autoagressão (essa última inclui colocar-se em atividades de risco, formas de se autolesionar e suicídio).
Ao pensarmos em violência doméstica, geralmente imaginamos pais batendo nos filhos, mas essa categoria pode ser física, psicológica, sexual e manifestar-se por negligência. Há um universo inteiro de formas como a violência pode se dar, como a síndrome de Munchausen (quando um dos pais simula sintomas de doenças inexistentes no filho), intoxicações, envenenamentos, violência virtua e até o extremo filicídio (quando a criança é morta por um dos pais). Entre as comuns, a mais frequente é a negligência, seguida pela violência física, a sexual e a psicológica que, na verdade, permeia todas as outras formas.
Muitas vezes, elas apresentam alergias e problemas de pele de difícil controle, o que pode ser uma consequência direta de sofrimento psíquico. Começam a ficar doentes demais sem justificativa e a ter problemas de linguagem, gaguejar, apresentar sinais de depressão, baixa autoestima, perder a confiança em todos aqueles que lidam com ela.
A violência extrafamiliar é aquela que acontece fora de casa e engloba as violências institucional (praticada por alguém que tenha a guarda temporária da criança, como em uma escola), social (ausência de suporte biopsicossocial, comum em países com grande desigualdade social, como o Brasil), urbana (aquela das ruas, geralmente manifestada em assaltos), macroviolência (representada por terrorismo e guerras) e também algumas formas específicas, como bullying, cultos ritualísticos e, novamente, a violência virtual.
Quando se trata de violência doméstica, é muito comum que os profissionais da saúde e da educação sejam os primeiros a perceber que algo está errado, já que normalmente são os adultos que lidam mais intimamente com a criança fora de casa. Por isso, eles devem ter um olhar preparado para detectar e lidar com tais situações. Em hospitais, logo no inicio.
A negligência é a forma mais frequente de violência. Pode ser física, quando falta alimentação, higiene ou cuidados médicos básicos para a criança ou adolescente; emocional, quando há privação de suporte mental e afeto necessários para o seu desenvolvimento pleno; e educacional, quando os cuidadores não proporcionam formação intelectual (ao privá-los de ir à escola, por exemplo). Assim como no caso das agressões, a negligência física pode ser mais facilmente notada, enquanto a emocional exige maior atenção. No que se refere ao universo escolar, algumas crianças e adolescentes podem apresentar queda no desempenho como reflexo da negligência.
Além dos sintomas evidentes provocados pela agressão em si, as sequelas vão desde sintomas psíquicos mais duradouros até problemas com imunidade. As vítimas podem desenvolver distúrbios do sono (passam a ter insônia ou dormir demais), distúrbios alimentares (comem por ansiedade e engordam muito, podendo chegar a um quadro de obesidade ou o contrário, desenvolvem bulimia ou anorexia) e problemas com urina e fezes (por exemplo, uma criança que já conseguia segurar o xixi para ir ao banheiro passa a urinar na roupa). Muitas vezes, elas apresentam alergias e problemas de pele de difícil controle, o que pode ser uma consequência direta de sofrimento psíquico. Começam a ficar doentes demais sem justificativa e a ter problemas de linguagem, gaguejar, apresentar sinais de depressão, baixa autoestima, perder a confiança em todos aqueles que lidam com ela. Como ela está sofrendo uma violência, perde a confiança no outro e nela mesma. Além disso, pode ter dificuldades de socialização e atraso no desenvolvimento neuropsicomotor.
Em muitos casos, o agressor é, senão algum dos pais, alguém próximo deles, como um tio ou amigo, e é comum que o indivíduo faça ameaças à vítima para impedi-la de contar a alguém o que está acontecendo. Outra situação comum é o agressor ser também o provedor econômico da casa, como um padrasto ou avô. Em tais casos, a família (muitas vezes a mãe) ignora os sinais com medo de que, a partir de uma denúncia, todos passem necessidades. Isso tudo gera uma culpabilização sobre a vítima. Não é à toa que, entre as crianças em situação de rua, mais da metade fugiu de casa para escapar de situações de violência. Infelizmente, a realidade é essa.
O impacto na vida das vítimas é muito grande e, pior, pode se perpetuar. Existe o risco de que a violência seja “replicada” no futuro, já que os comportamentos dos cuidadores têm influência importante no modo como a criança vai aprender a lidar com os problemas. Portanto, se os seus “modelos” usam violência para resolver situações, ela também pode desenvolver comportamentos violentos. Estudos mostram que sofrer ou testemunhar violência na infância é fator de risco para ter comportamentos violentos e também para ser vítima de outras relações violentas
Como ajudar?
O adulto que notar mudanças no comportamento da criança e desconfiar de algo pode e deve conversar com ela sobre o assunto, mas é importante estabelecer uma relação de confiança e deixá-la à vontade para falar. Pode-se compartilhar com ela mudanças que percebemos em seu comportamento e perguntar o que está acontecendo. É fundamental fazer perguntas abertas, não indutivas. O relato livre é essencial para que possamos compreender a situação.
É muito importante acreditar no que a criança ou adolescente diz, dando credibilidade ao seu relato. Muitos adultos costumam duvidar da história, achando que é fantasia ou mentira. O comportamento dificulta a investigação, pois faz com que a vítima não se sinta segura para falar novamente sobre a violência sofrida. Diga que acredita nela, que nenhuma criança merece vivenciar o que ela está contando e que a ajudará com o problema. Também diga que ela não tem culpa pelo que está acontecendo e agradeça por ter confiado em você para contar uma experiência tão difícil.
Denise Morelli
Psicóloga Jurídica POLITEC AP, Tutora EAD SENASP e UNIFAP, Professora Universitária UNIP, IBAESP, UNIFAP, Coordenadora Nacional de Pós Graduação em Criminologia do INFOR, Especialista em Violência e Psicologia Infantil e em Criminologia, Mestre em Educação, Doutoranda em Criminologia.