Só para contextualizar, numa bateria de escola de samba, o surdo maior, chamado surdo de marcação ou primeiro surdo, é o que dá o compasso do samba. O surdo de segunda ou surdo de resposta, é menos grave e é tocado no tempo forte. O surdo de terceira, por sua vez, é aquele que preenche o vazio que existe entre os surdos principais, desenhando um ritmo sincopado, quebrando a normalidade da “conversa” entre os dois instrumentos. Seria um intruso no ritmo ou – como dizem os sambistas – o fofoqueiro do samba. Ciro Gomes, no diálogo da disputa travada entre Lula e Bolsonaro, surge como o intruso que quer porque quer ser protagonista, sem entender que no atual processo eleitoral apenas preenche o vazio existente entre os dois principais contendores.
Só que o papel de surdo de terceira de Ciro Gomes tem detonado sua reputação. A esquerda lulista tacha-o de traidor e recalcado, porquanto só atrapalha o petista com seus vitupérios contundentes que o fazem parecer com os bolsanaristas que tanto repudiam. Já os próprios bolsonaristas o adjetivam de arremedo mal acabado de Bolsonaro, posto que se apropria indevidamente da espontaneidade brutal e deselegante de seu líder, numa tentativa torpe de arrebatar seu rebanho. Assim, o excelente quadro Ciro Gomes resulta num estereotipado arquétipo de recalcado e passa a ser expressão de um homem porre enjoado que provoca acintosamente os transeuntes e passa a ser visto como um inconveniente social a ponto de desejarem que um justiceiro das ruas apareça e o faça arrefecer de suas patifarias.
É pena que Ciro Gomes não entenda ou não queira entender as nuances da disputa política. Conhecimento, resultados ou intelectualidade demais nunca foram medidas isoladas para a escolha do eleitor. Se assim fosse o jogo politico seria previsível como o basquete, onde o bom sempre ganha. Na política outros ingredientes entram no critério de escolha, além dos atributos de conhecimento, resultados ou intelectualidade. Se assim não fosse, nem Lula e nem Bolsonaro seriam os favoritos nas disputas presidenciais. Para ser visto e lembrado, Ciro Gomes se veste de arrogante, estúpido e preconceituoso, ofendendo até o eleitor, cuja escolha advém de critérios pessoais. Ciro Gomes, lamentavelmente, por arrogância, julga-se o perfeito. Nessa hora é sempre bom lembrar a velha e boa lição de Hermann Hesse: “muitos se têm na conta dos perfeitos porque são pouco exigentes consigo mesmo”. Eis a lição!