Poucas perguntas despertam tantas paixões quanto essa. Nos últimos dias, confesso que ela passou a fazer parte da minha rotina. Basta encontrar um amigo na rua, participar de uma reunião, conversar com comerciantes, empresários, servidores públicos ou lideranças comunitárias para que, em algum momento, alguém faça exatamente a mesma indagação “Yuri, a eleição para o Governo do Amapá já está decidida?”
Minha resposta quase sempre decepciona quem espera uma frase de efeito. Eu digo que não. Não porque queira parecer cauteloso ou fugir de uma conclusão. Respondo dessa forma porque acredito que a política exige responsabilidade intelectual. Existe uma diferença enorme entre reconhecer um cenário e decretar um resultado. E são justamente essas duas ideias que, muitas vezes, acabam sendo confundidas.
Vivemos uma época em que a velocidade da informação transformou pesquisas eleitorais em verdadeiros campeonatos de torcida. Quando uma pesquisa é divulgada, parte das pessoas passa a tratá-la como se fosse a própria eleição. Quem aparece na frente comemora como se já tivesse vencido. Quem aparece atrás procura imediatamente alguma justificativa para desqualificar o levantamento. Poucos, entretanto, param para compreender o verdadeiro significado daqueles números.
Uma pesquisa eleitoral não é uma urna eletrônica. Ela não conta votos. Ela mede percepções. É uma fotografia do eleitorado em determinado momento, construída a partir de critérios estatísticos rigorosos, com margem de erro conhecida, metodologia registrada e fiscalização da Justiça Eleitoral. Sua função é revelar como pensa o eleitor naquele instante específico, e não prever com absoluta certeza como ele votará meses depois.
Dito isso, também seria um erro ignorar aquilo que as pesquisas vêm mostrando no Amapá desde o início deste ano, pois quando observamos o conjunto dos levantamentos registrados e divulgados para a disputa pelo Governo do Estado, encontramos um fenômeno pouco comum na política brasileira. Não estou falando apenas da liderança de um candidato. Lideranças acontecem em praticamente todas as eleições. O que chama a atenção é a consistência dessa liderança.
Desde a primeira pesquisa divulgada em 2026, Dr. Furlan aparece na primeira colocação. Vieram levantamentos realizados por institutos diferentes, contratados por empresas diferentes, utilizando metodologias próprias e realizados em momentos distintos da campanha. Ainda assim, o desenho permaneceu praticamente o mesmo. Em todas elas, Furlan liderou. Em todas elas, Clécio Luís apareceu na segunda colocação. E, talvez o dado mais relevante, em todas elas a diferença entre ambos permaneceu relativamente estável.
Na ciência política existe um conceito interessante chamado convergência de pesquisas. Ele ocorre quando diferentes institutos, utilizando técnicas independentes, chegam a conclusões semelhantes. Nenhuma pesquisa é perfeita. Todas possuem margem de erro, limitações metodológicas e estão sujeitas a pequenas oscilações. Entretanto, quando diversos levantamentos apontam para a mesma direção durante vários meses, cresce a confiança de que existe uma tendência real sendo captada.
É exatamente isso que parece estar acontecendo no Amapá. Ao longo dos primeiros meses de 2026, Dr. Furlan permaneceu, em praticamente todos os levantamentos divulgados, oscilando entre aproximadamente 66% das intenções de voto nos cenários estimulados. Clécio Luís, por sua vez, manteve-se entre aproximadamente 25% e 33%. Isso, portanto, não se trata apenas de uma liderança, trata-se de uma liderança que, até aqui, demonstrou estabilidade.
Mas é justamente nesse ponto que eu acredito que precisamos abandonar as paixões políticas e fazer uma análise racional, isso porque, existe uma enorme diferença entre dizer que um candidato lidera as pesquisas e afirmar que uma eleição está encerrada. A primeira afirmação é sustentada pelos números atualmente disponíveis, já a segunda, simplesmente não pode ser sustentada por nenhuma pesquisa séria.
Quem acompanha eleições há algum tempo sabe que campanhas são organismos vivos. Elas respiram, crescem, enfrentam crises, mudam de direção e, às vezes, produzem reviravoltas que pareciam improváveis poucos meses antes da votação. O que dizer das eleições municipais de Macapá em 2020, quando o Dr. Furlan figurava como um nome sem muito destaque, até o episódio do “mais prejudicado…”, protagonizado pelo Senador Davi Alcolumbre, em favor de seu irmão que disputava uma vaga para o executivo.
Por isso, sempre que alguém me pergunta se a eleição acabou, eu respondo que não, verdade ela ainda nem começou em sua fase mais intensa. Para quem já teve a experiência de participar de alguma campanha eleitoral, sabe que a campanha oficial possui uma dinâmica própria. É durante esse período que candidatos passam a falar diariamente com milhares de eleitores por meio das redes sociais, entrevistas, debates, caminhadas, encontros e programas eleitorais. É nesse momento que propostas ganham visibilidade, comparações tornam-se inevitáveis e muitos eleitores começam, efetivamente, a prestar atenção na eleição.
No caso do Amapá, há outro elemento importante a ser analisado, Clécio Luís disputa a reeleição. Governadores possuem vantagens e desafios muito particulares. Por um lado, carregam o peso natural das cobranças pela administração do Estado. Toda decisão de governo produz apoiadores e críticos. Por outro lado, possuem a oportunidade de apresentar realizações concretas, obras executadas, programas implantados e resultados administrativos para convencer o eleitor de que merecem permanecer no cargo. Essa é uma vantagem institucional que nenhum adversário possui, pense no caso da Feira Internacional de Oiapoque, ou na Expofeira, que está prestes a se realizar, e o Governador esteve e estará nesse local aparecendo para milhares de pessoas.
Ao mesmo tempo, Dr. Furlan chega ao processo eleitoral trazendo outro ativo político extremamente relevante, qual seja, sua forte aprovação construída durante sua passagem pela Prefeitura de Macapá e uma identificação popular que, até aqui, se refletiu diretamente nas pesquisas.
Esses dois fatores ajudam a explicar por que a disputa estadual assumiu uma configuração bastante clara desde os primeiros levantamentos divulgados. Entretanto, limitar a análise apenas aos dois candidatos seria simplificar demais um processo eleitoral que é muito mais complexo. Uma eleição para governador não acontece apenas entre dois nomes. Ela envolve centenas de candidatos proporcionais, dezenas de partidos, milhares de lideranças comunitárias, prefeitos, vereadores, deputados, militantes e apoiadores espalhados pelos dezesseis municípios do Estado.
Quando olho para o mapa do Amapá, vejo muito mais do que uma divisão geográfica. Vejo realidades completamente diferentes convivendo dentro do mesmo Estado. Macapá possui um comportamento eleitoral próprio. Santana tem suas características particulares. O Vale do Jari vota de uma maneira. O extremo norte possui outra dinâmica. Municípios mineradores vivem desafios distintos daqueles cuja economia depende do comércio, da agricultura ou da administração pública.
Falo isso porque vivo uma realidade que me permite enxergar um pouco além dos números. Quem conhece o interior do Amapá sabe que existem cidades onde a presença física do candidato vale mais do que qualquer propaganda. Existem comunidades onde uma conversa olho no olho produz mais resultado do que dezenas de vídeos publicados nas redes sociais. Ainda há lugares em que o voto é fortemente influenciado pela confiança construída ao longo dos anos e não apenas pela imagem apresentada durante a campanha.
Outro fator que considero decisivo é a capacidade das campanhas de estabelecer uma narrativa. Toda eleição, no fundo, é uma disputa entre narrativas. Há candidatos que procuram convencer o eleitor de que o Estado está avançando e precisa continuar no mesmo caminho. Outros defendem que chegou o momento de uma mudança. Alguns enfatizam a experiência administrativa. Outros apostam na renovação. Uns priorizam a estabilidade. Outros prometem transformação.
Não existe uma narrativa universalmente vencedora, ela depende do momento vivido pela sociedade e da percepção predominante entre os eleitores. Por isso, considero precipitado afirmar que qualquer campanha esteja definitivamente vencida antes mesmo de o eleitor assistir ao confronto completo de ideias.
Um contorno que ganhou destaque em favor do Dr. Furlan, foi o fato de que as campanhas também serem disputas emocionais, o sentimento de esperança, confiança, identificação, simpatia e credibilidade influenciam profundamente o comportamento eleitoral, e, hoje, ele predomina nessa frente.
Se o resultado fosse conhecido meses antes da votação, campanhas seriam desnecessárias. Debates perderiam o sentido. O voto deixaria de ser uma escolha para se transformar em mera formalidade. Felizmente, não é assim que funciona.
No fim das contas, pesquisas indicam tendências. Campanhas constroem caminhos. Mas quem decide o destino do Amapá continua sendo o eleitor, sozinho diante da urna eletrônica. Talvez seja exatamente por isso que, quando volto à pergunta que dá título a este texto “A eleição no Amapá já está decidida?”, continuo respondendo da mesma maneira.
Contudo, não podemos ignorar a liderança consistente de Dr. Furlan. Desprezar esse fato seria desconsiderar todas as evidências disponíveis. Dito isto, vamos às urnas!
A ELEIÇÃO NO AMAPÁ JÁ ESTÁ DECIDIDA?

