Quando se fala em “reumatismo”, muitas pessoas ainda imaginam doenças exclusivas de idosos. Porém, doenças reumáticas também acometem crianças e adolescentes — e algumas delas podem ser graves, levando a limitações físicas, comprometimento de órgãos internos e até sequelas permanentes quando não diagnosticadas precocemente.
No Amapá, por suas características geográficas, climáticas e socioeconômicas, determinadas doenças reumáticas apresentam relevância especial, exigindo atenção tanto da população quanto dos profissionais de saúde.
Lúpus e a intensa exposição solar da linha do Equador
Uma das doenças mais conhecidas é o Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES), enfermidade autoimune que pode acometer pele, articulações, rins, pulmões, sangue e sistema nervoso.
O Amapá está localizado praticamente sobre a linha do Equador, região caracterizada por alta incidência de radiação ultravioleta durante praticamente todo o ano. Em indivíduos geneticamente predispostos, a exposição solar intensa pode funcionar como fator desencadeante ou agravante do lúpus.
Nos adolescentes, especialmente meninas após a puberdade, o lúpus costuma apresentar comportamento mais agressivo que em adultos. Entre os sintomas mais comuns estão dores articulares, febre persistente, queda de cabelo, manchas na pele, cansaço intenso, anemia e alterações renais.
Febre reumática ainda é realidade em áreas vulneráveis
Outra doença ainda frequente na região amazônica é a febre reumática.
A doença surge após infecções de garganta causadas pela bactéria estreptococo, especialmente quando não tratadas adequadamente. Em áreas ribeirinhas e comunidades mais distantes, a dificuldade de acesso rápido aos serviços de saúde favorece a persistência dessas infecções e aumenta o risco de complicações.
A febre reumática pode provocar artrite, inflamação cardíaca e lesões permanentes nas válvulas do coração. Mesmo atualmente, ainda observamos adolescentes com sequelas cardíacas decorrentes da doença.
Artrite idiopática juvenil: diagnóstico precoce evita sequelas
Entre as doenças reumáticas pediátricas, merece destaque a artrite idiopática juvenil, inflamação crônica das articulações que pode surgir antes dos 16 anos de idade.
A doença possui diferentes formas clínicas, incluindo variantes oligoarticulares, poliarticulares e sistêmicas. Algumas acometem poucas articulações; outras podem atingir múltiplas articulações e até órgãos internos.
Os principais sintomas incluem dor, inchaço articular, rigidez ao acordar, dificuldade para caminhar, limitação dos movimentos e fadiga.
Sem tratamento adequado, a inflamação persistente pode causar deformidades articulares, alterações no crescimento, incapacidade funcional e dor crônica na vida adulta. Muitos pacientes continuam necessitando acompanhamento reumatológico mesmo após atingirem a maioridade.
Felizmente, o SUS disponibiliza tratamento para a doença, incluindo medicamentos imunossupressores e imunobiológicos modernos, capazes de mudar completamente o prognóstico quando iniciados precocemente.
Dor em adolescente não deve ser banalizada
Além dessas doenças, adolescentes também podem apresentar dermatomiosite, vasculites, espondiloartrites e outras doenças autoimunes e inflamatórias.
Muitas vezes, os primeiros sinais são confundidos com “dor do crescimento”, sedentarismo ou excesso de atividade física.
Entre os sinais de alerta estão dor persistente, inchaço articular, febre recorrente, fraqueza muscular, manchas na pele, cansaço excessivo e dificuldade para realizar atividades habituais.
O papel do reumatologista pediátrico
O médico mais habilitado para o diagnóstico e tratamento dessas doenças na infância e adolescência é o reumatologista pediátrico, especialista treinado para reconhecer manifestações muitas vezes sutis dessas enfermidades.
Entretanto, qualquer médico — seja pediatra, clínico geral, médico da família ou ortopedista — pode suspeitar dessas doenças e iniciar a investigação inicial, permitindo encaminhamento precoce ao especialista.
O reconhecimento rápido faz enorme diferença no prognóstico e na qualidade de vida desses pacientes.
Referência no Amapá
No Amapá, pacientes com suspeita ou diagnóstico confirmado de doenças reumáticas pediátricas podem ser encaminhados ao ambulatório de reumatologia pediátrica do Hospital de Clínicas Dr. Alberto Lima, referência estadual para acompanhamento especializado desses casos.
Com diagnóstico precoce, tratamento adequado e acompanhamento multiprofissional, muitos adolescentes conseguem estudar, praticar esportes e ter vida plenamente ativa, reduzindo o impacto dessas doenças na vida adulta.

