Um fardo maior.
Os juros altos são um fator que todos nós enfrentamos no dia a dia, não apenas quem parcela o cartão de credito como também as pessoas que fazem compras parceladas, afinal o dinheiro se alimenta de mais dinheiro. A análise apresentada pela equipe econômica do C6 Bank na edição #226, de 24/8/2026, nos dá a verdadeira dimensão do que ocorre na economia do Brasil e que transcrevo integralmente.
“Olá! Os juros altos são um dos grandes problemas enfrentados por famílias e empresas – e isso não é uma novidade. Mas a Selic elevada também tem sido uma dor de cabeça para a dívida pública.
Até uma década atrás, boa parte da dívida brasileira era atrelada a uma taxa prefixada, definida no momento da emissão. Agora, quase metade do valor financiado tem como fator de correção a evolução da taxa Selic.
Assim, quando os juros alcançam um patamar elevado, o custo da dívida do governo acompanha – como tem acontecido.
Por que o perfil da dívida pública mudou? E o que isso significa para a economia como um todo?
Um fardo maior
Assim como uma família ou empresa, o governo brasileiro tem um orçamento composto por receitas e despesas. Quando as despesas são maiores do que as receitas, é preciso cobrir a diferença emitindo dívida.
O mesmo acontece quando uma dívida antiga do governo chega ao vencimento e é preciso fazer um novo financiamento para pagar o compromisso do passado – é um processo comum, chamado de rolamento da dívida.
É como se o Estado dissesse aos investidores: ‘Preciso de dinheiro emprestado para pagar minhas obrigações. Quem concordar em me emprestar vai receber o dinheiro em prazo determinado e com juros’.
Até uma década atrás, o principal fator que determinava a parcela dos juros era uma taxa prefixada, definida no momento que a dívida era emitida.
Esse valor também tinha como referência a taxa de juros praticada naquele momento, mas ele não mudava ao longo do tempo caso os juros subissem ou caíssem.
Mas a dinâmica mudou. Nos últimos anos, a dívida do governo deixou de ser em maior parte prefixada para ser principalmente pós-fixada.
Isso significa que, ao pedir dinheiro emprestado, o governo se compromete a pagar juros que vão evoluir junto com a própria taxa Selic. Portanto, o custo desses juros ficou mais imprevisível.
Quase metade da dívida pública federal brasileira está atrelada à Selic agora. O problema é que, como se sabe, os juros brasileiros têm vivido um longo período de aperto.
A Selic está em 14% ao ano, esteve em 15% (no maior patamar em quase 20 anos) até pouco tempo atrás e deve continuar em dois dígitos até, pelo menos, 2029, segundo as projeções de analistas de mercado do Boletim Focus.
Como a Selic tem sido cada vez mais importante para a dívida, há um impacto direto. De acordo com o Tesouro Nacional, o custo médio do estoque da dívida interna passou de 10,9% no começo de 2025 para 13,2% em junho de 2026.
No caso das emissões novas (ou seja, dos novos ‘empréstimos’ feitos pelo governo), a conta está ainda mais alta, em 14,2%.
Para o orçamento do governo, isso significa, na prática, a necessidade de dedicar mais recursos para o pagamento de juros. Nos 12 meses até junho, o setor público como um todo dedicou quase 9% do PIB para essa frente.
E aqui, começa um efeito de bola de neve: os juros são altos e o ‘cobertor’ do orçamento público está curto, então o governo passa a emitir mais dívida para honrar suas despesas. E quanto maior a dívida, maior o pagamento de juros… e assim sucessivamente.
Então, como evitar que a bola de neve continue a crescer?
Há quem diga que é preciso recorrer à solução mais óbvia: reduzir a taxa de juros. Afinal, se a dívida está ‘amarrada’ à Selic, na medida que o juro cair, o custo da dívida também deve ficar menor.
O ponto é que a Selic elevada é consequência do problema, e não a causa. Reduzir os juros simplesmente não resolve.
O Banco Central tem mantido a Selic em patamar elevado para cumprir seu compromisso de levar a inflação para a meta. Os juros altos têm o papel de ‘esfriar’ a economia, de forma que os preços parem de subir em ritmo acelerado.
A dose de juros necessária tem sido maior, pois o PIB tem se mostrado aquecido, em parte, inclusive, por causa dos estímulos que o governo tem concedido ao crédito e ao consumo.
Logo, parte desse trabalho passa também pelo equilíbrio das contas públicas. Já fizemos isso no passado: durante boa parte dos anos 2000, o setor público manteve superávits primários relevantes – ou seja, o governo arrecadava mais do que gastava.
Com a contribuição desse equilíbrio do orçamento e do crescimento da economia, a dívida líquida caiu de cerca de 57% do PIB em 2002 para 34% em 2013.
Assim, encontrar a saída para o problema do custo dos juros pode ter como ponto de partida uma solução que o Brasil já adotou no passado.”
Não sou economista porem a obviedade dos argumentos é gritante.
“Quando uma empresa gasta mais do que arrecada ela vai à falência; quando o governo faz o mesmo, ele te manda a conta”.

