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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Rogerio Reis Devisate > LIÇÕES DE DRUMMOND SOBRE AS PEDRAS NO CAMINHO
Rogerio Reis Devisate

LIÇÕES DE DRUMMOND SOBRE AS PEDRAS NO CAMINHO

Rogerio Reis Devisate
Ultima atualização: 31 de maio de 2026 às 07:02
Por Rogerio Reis Devisate 2 meses atrás
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Rogerio Reis Devisate Advogado. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ. Palestrante. Escritor. | Foto:Arquivo Pessoal.
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Drummond é necessidade para os dias atuais, tão fúteis e com as alegrias fabricadas para postagens, tão melancólicos, tão deprimentes, onde a leitura parece perder o páreo para as curti-das em aplicativos e as postagens de dancinhas e mensagens curtíssimas, insensíveis, pouco es-truturadas linguisticamente e que são boas, apenas, como amostras da decadência dos tempos modernos, em que, inclusive, pela primeira vez em cem anos, a nova geração se mostra cogniti-vamente inferior à anterior.
Quando Drummond, metaforicamente, falou que no meio do caminho tinha uma pedra, alertou-nos para algo além do óbvio, pois é preciso que vivamos e não apenas sobrevivamos du-rante esta linda jornada que é a existência das nossas vidas na Terra. Sim, precisamos aceitar o que não se pode mudar. Mas isso não impulsiona o existir, pois apenas nos faz ficar conformados e, de certa forma, enlutados, tristes, melancólicos e derrotados. Ah, quão bom e quão suave é a vitória ante a dificuldade… Como disse Guimarães Rosa, outro escritor mineiro erudito e, da vi-da, sabido, “o que a vida quer da gente é coragem”. De modo distintos, ambos nos impulsiona-ram, nos dando forças para vencer, nos carregando no braço quando achamos que devíamos de-sistir e nos dizendo que não é para isso que estamos aqui, afinal, as pedras inanimadas, sem vida e pesadas, não podem impedir a vitória da mente humana, da alma, da consciência e da vontade de vencer. Coragem!
Quantos castelos construímos na vida, com as pedras que nos atiraram e com as que cole-tamos no chão? Em quantas tropeçamos nos caminhos? O que aprendemos ao encontrar obstácu-los em nossas jornadas? Sucumbimos e nos entregamos à derrota ou lutamos e os superamos? Quantos anos temos hoje e como nos vemos diante do que já vivemos? Quais os planos para o fu-turo?
Sabemos que há algo além dessas coisinhas do dia a dia, que consomem o nosso tempo e nos afastam do descanso real, do convívio com os queridos e dos abraços de saudade. Sentimos a necessidade da crença para, do óbvio mesquinho, tirar as nossas existências tão vinculadas aos compromissos indesejados, ruas congestionadas, juros altos, pagamento de contas e carestia dos produtos nos supermercados. A vida não é só isso!
Ainda temos tempo para respirar profundamente e sentir o ar fresco a nos dar fôlego para continuar. Temos os olhos da alma para distinguir o cheiro daquela flor especial em meio aos jardins da vida, mesmo que estejam tomados por mato e problemas. Temos a capacidade de per-ceber as sutilezas do céu azul e das nuvens que, naquela tela imensa, desenham formas diversas, em sucessivas conformações, dizendo-nos que nada é definitivo…
Ainda temos os riachos onde podemos molhar os pés na água gelada… e as montanhas a nos convidar a olhar o mundo lá de cima e, com novos ângulos, para ver os problemas ficarem tão pequenininhos lá embaixo. Olhando com a alma pura, percebemos que as casas continuam sendo lares, que as camas são as proporcionadoras do justo abraço para o descanso e que os nos-sos bichinhos de estimação seguem se lançando em explosivos festejos de alegria quando volta-mos da rua. Se temos tanto, porque reclamar, desistir e não enfrentar as pedras do caminho?
Visitei as casas de Guimarães Rosa, de Drummond, de Cora Coralina e de alguns outros próceres da escrita nacional. Em comum há casas “de verdade” e não construções frias e sober-bas. Não há detalhes para exibição e sim um convite à percepção, a ter tempo para contemplar detalhes, anotar pensamentos, levar aquela prosa gostosa e tomar café da tarde com um bolo quentinho. Em todas mergulhamos nos cenários onde escreviam e que se projetam para as suas escritas. Nesses ambientes tão simbólicos, recebemos o puxão de orelha acerca do modo corrido com que temos permitido gastar as nossas horas, sempre com a sensação clara de que o tempo tem passado mais rápido, que temos menos tempo para fazer o que gostamos e que o último mo-vimento da partitura se aproxima, a sinalizar o fim da melodia.
Fica clara a chegada dos pensamentos intrusivos que nos banham com as suas palavras como se estas fossem alertas do destino, para que tiremos do caminho as pedras e sigamos o bom rumo, com amor ou sem, mas com vontade de viver. Aliás, é o que exsurge de Drummond em outro texto literário de importância, quando escreveu que “João amava Teresa que amava Rai-mundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Jo-aquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.” Dá-nos a lição de continuidade, de fluxo, de liberdade, de que a vida escreve certo por linhas tortas e que viver com amor é bom mas que a sua perda não é gatilho para o suicídio. Como desistir de algo que não é nosso e do qual somos apenas beneficiados e cuidadores? A vida não pode ficar parada, estagnada, como poça pestilenta e apodrecida. É preciso que tudo flua, que tudo siga, que tudo se movimente, pois pedras que rolam não criam limo.
A vida é imprevisível e por isso é tão importante que seja percebida no seu passar, valori-zando-se cada momento. Imagine se soubéssemos de tudo o que fosse acontecer, a cada dia, a ca-da mês e ano. Seria uma chatice a vida, um fator de desperdício. Imagine, viver sem surpresas, sem novidades, sem descobertas! O bom é viver cada dia intensamente, verdadeiramente, since-ramente. Viver como se olhássemos no espelho e víssemos a nossa imagem e pudéssemos vê-la sempre alegre e próspera, motivada e feliz, endorfinada e se jogando nas trilhas do cotidiano, metaforicamente de qualquer forma, seja de tênis, de bota, de sapato, de sandálias, contanto que haja ação, movimento. … o que interessa é ir adiante, de todo modo, de todo jeito, a todo tempo, tropeçando, deslizando, correndo… indo, indo… e que, se pedras encontrarmos no meio da jorna-da, possamos chutá-las para longe e, sozinhos, correr e saltar com o braço para cima e imitando aquela pose do Pelé, comemorando o gol.
Estamos patinando na paz, neste mundo com novas guerras. Vivemos numa economia pe-rigosa, com juros de 15% há tanto tempo que o país não aguenta; é tão alto que atrai os investi-dores estrangeiros, que podem pegar empréstimos em seus países, com juros menores, para in-vestir aqui – e ainda sair com lucro. Teremos eleições neste ano, mas o povão só quer saber dos destinos do país na Copa do Mundo. Parece que a massa já chutou o balde, afinal tudo muda para que nada se modifique de verdade.
Enquanto isso, o tempo consome os nossos dias e a velhice chega rápido. Precisamos, muito, de Drummond, para que possamos agir juvenilmente, para poder perceber a grandeza nas coisas miúdas, nos momentos de silêncio, no bater das asas das borboletas e da lição de supera-ção das pedras do caminho, para se ter gana, liberdade, horizonte adiante, esperança e as coisas lindas que os poetas de verdade destilam em suas linhas abençoadas: vida.

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Rogerio Reis Devisate 31 de maio de 2026 31 de maio de 2026
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