Luto é pesado demais. É aquela dor que não tem onde colocar. Uma hora vem em onda forte, outra hora fica em silêncio, mas está ali.
Você não precisa passar pelo luto sozinho.
Algumas coisas que costumam ajudar um pouco quando o luto aperta:
- Deixe a dor existir do jeito dela. Não tem jeito certo de viver o luto, não tem prazo. Chorar, não chorar, sentir raiva, culpa, alívio, tudo pode fazer parte.
- Corpo também sente. Tente beber água, comer algo leve, respirar fundo por alguns minutos. Se conseguir, uma caminhada curta ajuda a não ficar só na cabeça.
- Rituais pequenos ajudam. Escrever uma carta, separar fotos, acender uma vela, ouvir uma música que lembra a pessoa. É uma forma de homenagear e dar um lugar pra saudade.
- Não se isole por muito tempo. Chama alguém que você confia, mesmo que seja só para ficar junto em silêncio. Falar “hoje está difícil” já é suficiente.
Se a dor ficar muito sufocante, por favor não fica sozinho com ela. Aqui no Brasil você pode falar a qualquer hora com o CVV, ligando para 188 ou no site http://cvv.org.br. Eles acolhem com muito carinho. Se for um luto muito recente e intenso, conversar com um psicólogo também pode dar um suporte importante.
Luto infantil
É uma das dores mais difíceis.
Vou dar aqui as duas orientações, que são diferentes:
Se é uma criança que perdeu alguém:
A criança sente a perda tão fundo quanto um adulto, só que ela ainda não tem palavras para isso. O que mais ajuda:
- Fale a verdade de forma simples, sem metáforas.
Evite dizer “foi dormir”, “virou estrelinha” ou “foi viajar” — isso pode gerar muito medo. Use palavras reais e curtas: “o vovô morreu. Isso quer dizer que o corpo dele parou de funcionar e ele não vai mais voltar. É muito triste e a gente pode sentir saudade juntos.” - Deixe perguntar muitas vezes.
É normal ela perguntar a mesma coisa 10 vezes. “Por quê? Onde está? Volta quando?”. Responda sempre com calma e da mesma forma. Repetir é o jeito dela de entender. - Mantenha a rotina.
Escola, hora de comer, hora de brincar. Rotina traz segurança quando tudo parece ter desabado. - Deixe o sentimento sair como der.
Às vezes vai ser choro, às vezes raiva, às vezes brincando de “enterro” com bonecos. Brincar é como a criança elabora o luto. Não precisa corrigir, só estar perto: “eu vi que você ficou bravo/triste. Quer um abraço?” - Inclua nos rituais.
Se ela quiser ir ao velório, desenhar uma carta, escolher uma flor, deixe. Excluir “para proteger” costuma deixar mais confuso.
O que não ajuda: dizer “não chora”, “você tem que ser forte”, “agora você é o homenzinho da casa”.
Se é o luto pela perda de uma criança:
Não existem palavras que deem conta. É um luto que rompe a ordem natural da vida e costuma vir com muita culpa, revolta e um vazio imenso.
Por favor, não se cobre para “superar” ou ser forte rápido. Algumas coisas que outras famílias relatam que trouxeram um pouco de amparo:
- Dar nome e história para o que viveu. Falar dela, guardar objetos, fazer uma homenagem quando sentir vontade.
- Não viver isso sozinho. O luto de um casal, de avós, de irmãos, é diferente para cada um — tentem se contar como estão, sem julgamento.
- Cuidado com frases que as pessoas dizem tentando ajudar mas que machucam, tipo “você é jovem, vai ter outro”. Você tem o direito de se afastar se algo dói.
- Procure apoio especializado. O luto infantil deixa marcas muito profundas. Um psicólogo com experiência em luto pode ajudar muito. Grupos de apoio para pais enlutados também acolhem de um jeito que só quem passou entende.
Se a dor estiver muito forte, fique perto de alguém que você ama. E se sentir que não está aguentando, ligue para o CVV 188 — 24h, gratuito, eles atendem pais e familiares enlutados também.
Para saber mais:
Filmes sobre luto ajudam porque colocam em imagens aquilo que a gente não consegue colocar em palavras.
Para chorar, acolher e se sentir menos sozinho:
- Viva – A Vida é Uma Festa (Coco) – O melhor sobre luto para ver com criança. Fala de saudade, memória e como manter quem partiu vivo dentro da gente. Lindo e leve.
- Up – Altas Aventuras – Os primeiros 10 minutos resumem uma vida inteira de amor e luto. Depois fala sobre recomeçar.
- Manchester à Beira-Mar – Um luto cru, sem romantizar. Sobre culpa e sobre como a gente continua vivendo mesmo quebrado. Bem pesado.
- Aftersun – Sobre uma filha adulta tentando entender o pai que ela perdeu. Silencioso e muito tocante.
Sobre perder alguém muito próximo:
- Meu Pai (The Father) – Para quem está vivendo o luto de alguém que ainda está vivo, como no Alzheimer. Ajuda a entender a confusão.
- A Chegada (Arrival) – Não parece ser sobre luto, mas é. Sobre amar sabendo que vamos perder.
- Questão de Tempo (About Time) – Um filme gostoso que fala sobre valorizar cada dia comum com quem a gente ama.
Para ver COM uma criança enlutada:
- Divertida Mente 1 e 2 – Explica para a criança que tristeza é necessária e tem seu lugar.
- Meu Amigo Totoro – Duas irmãs lidando com o medo de perder a mãe doente. Muito delicado, sem falar de morte diretamente.
- O Rei Leão – O clássico sobre explicar a morte e a continuidade da vida para os pequenos.

