Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira foi um desses personagens que o futebol, sozinho, não consegue explicar. Médico, craque, boêmio, intelectual e militante da democracia, fez da própria vida uma sucessão de contradições. Conhecia como poucos os limites do corpo, mas viveu como se o seu não os tivesse.
Essa contradição acompanhou o Doutor até nas madrugadas. Sócrates bebia muito — e sabia exatamente o que isso significava. Amigos tentaram convencê-lo a reduzir o álcool. Por algum tempo, trocou a cerveja comum pela sem álcool; depois descobriu o vinho e passou a bebê-lo com a mesma desmedida com que atravessava as noites de conversa.
Não era apenas a bebida. Sócrates tinha uma paixão quase filosófica pela mesa, pela conversa, pelo encontro. Dizia que a cerveja era a bebida mais social do mundo porque permitia às pessoas permanecerem juntas durante horas.
É nesse Sócrates — boêmio, agregador, excessivo — que a história de Zeca Baleiro encontra seu verdadeiro lugar.
Depois de um show em Ribeirão Preto, Zeca entrou numa dessas rodas com o Doutor. A madrugada terminou às seis da manhã. O músico voltou carregado para o hotel, perdeu o voo e, incapaz de cumprir a agenda normalmente, precisou gastar o cachê alugando um helicóptero para chegar ao compromisso seguinte. Enquanto arrumava as malas, ligou a televisão.
Lá estava Sócrates.
Ao vivo, em São Paulo, falando de futebol com absoluta naturalidade.
Zeca perdera o avião. Sócrates parecia ter perdido apenas mais uma noite de sono.
A história provoca riso, mas contém também uma tragédia. O médico sabia que nenhum organismo é invencível. O boêmio insistia em viver como se o seu fosse. Sócrates conhecia a anatomia humana; talvez tenha sido incapaz de aceitar a anatomia dos próprios limites.
Mas seria pequeno lembrá-lo apenas pelo copo. Sócrates foi um dos raros jogadores brasileiros que transformaram prestígio esportivo em intervenção política. Na Democracia Corinthiana, em plena ditadura, ajudou a levar para dentro de um clube uma palavra que ainda lutava para voltar plenamente às ruas: democracia.
Ali, o camisa 8 encontrou algo maior que o futebol. Como escreveu Marx, “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. No Corinthians de Sócrates, a ideia ganhava chuteiras: jogadores discutiam, votavam e decidiam coletivamente.
Quando o Brasil foi às ruas pelas Diretas Já, o Doutor também estava lá. Não aceitava que o jogador fosse apenas músculo, espetáculo e silêncio. Pensava, lia, discutia política e tomava partido. Cabia nele a advertência de Brecht: “O pior analfabeto é o analfabeto político.”
Sócrates jamais foi um deles.
E talvez poucas palavras combinem tanto com sua inquietação quanto as atribuídas a Che Guevara: “Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros.”
Sócrates tremia.
Contra o autoritarismo. Contra a obediência cega. Contra a transformação do jogador em mercadoria muda.
Morreu em 4 de dezembro de 2011, aos 57 anos. No mesmo dia, o Corinthians conquistou o Campeonato Brasileiro. Parecia uma dessas ironias que somente a História ousaria escrever: enquanto o corpo do Doutor se despedia, a arquibancada que aprendera a amá-lo levantava uma taça.
Sócrates não foi revolucionário porque empunhou armas.
Foi revolucionário porque empunhou ideias.
Jogou de cabeça erguida quando o Brasil ainda reaprendia a levantá-la.
E deixou uma lição que ultrapassa qualquer estádio:
a bola pode até ser redonda — mas, diante da injustiça, é preciso escolher um lado!
Carlos Lobato

