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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Yuri Alesi > O BRASIL CAMPEÃO – O CASO DO JUROS REAL NUMERO UM DO MUNDO
Yuri Alesi

O BRASIL CAMPEÃO – O CASO DO JUROS REAL NUMERO UM DO MUNDO

Yuri Alesi
Ultima atualização: 28 de junho de 2026 às 09:42
Por Yuri Alesi 4 horas atrás
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Advogado Sênior, do Escritório de Advocacia Alesi, Guerreiro & Teles, especialista em Direito Tributário e Administração Publica. Ex-Assessor Especial da Procuradoria Geral da Assembleia Legislativa do Estado do Amapá, Ex-Vereador de Oiapoque-AP.
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Para quem me acompanha, sabe o quanto gosto de falar sobre economia. Mas confesso, que existem notícias que deveriam nos causar vergonha coletiva. Não porque sejam apenas ruins, mas porque revelam, de forma cristalina, o quanto nos acostumamos com o absurdo. E escrevo num tom de critica, porque estamos em ano eleitoral, talvez a única forma de mudarmos esse cenário é levando politica a sério.
Tem passado quase que despercebido do grande público, que anda anestesiado pelo efeito copa do mundo, a noticia de que o Brasil voltou a ocupar o primeiro lugar no ranking mundial dos juros reais. Sim, somos campeões. Mas não de futebol, de inovação, de educação ou de qualidade de vida. Somos o país que oferece o maior retorno real para quem empresta dinheiro ao governo.
E eu faço uma pergunta simples a você que está lendo neste momento, você consegue imaginar um campeonato em que o prêmio para o vencedor é justamente o retrato do fracasso? Pois é exatamente isso que estamos celebrando silenciosamente.
Muita gente ouviu essa notícia e simplesmente mudou de canal, ou não deu qualquer atenção, como se fosse mais um daqueles assuntos restritos aos economistas engravatados, aos operadores da bolsa ou aos analistas do mercado financeiro. Mas não é. Na verdade, essa talvez seja uma das notícias que mais afetam a vida do cidadão comum, incluindo, nós amapaenses, que acordamos cedo, pegamos ônibus lotado, enfrentamos filas nos postos de saúde, que parcelamos compras no cartão de crédito e que lutamos para fechar as contas no fim do mês.
Quando se diz que o Brasil possui o maior juro real do planeta, não estamos falando apenas de um número bonito em uma planilha. Estamos falando do preço que cada brasileiro paga para viver em um país que se tornou especialista em transformar problemas econômicos em dificuldades permanentes para sua população.
Talvez seja preciso explicar, de forma simples, o que significa esse tal de juro real. Imagine que você empreste cem reais para alguém. Essa pessoa promete devolver cento e quinze reais no mês seguinte. Parece um ótimo negócio. Mas, se durante esse período tudo ficou mais caro por causa da inflação, parte desse ganho desaparece. O juro real é justamente aquilo que sobra depois que se desconta a inflação.
Repare na gravidade disso. Para convencer investidores a aplicar dinheiro nos títulos públicos brasileiros, o governo precisa oferecer uma remuneração muito superior àquela praticada pelas maiores economias do planeta. Isso significa que emprestar dinheiro ao Brasil precisa ser extremamente vantajoso. E por quê? Porque quanto maior é a percepção de risco, maior é o prêmio exigido por quem empresta. Não existe milagre na economia. Quem paga essa conta não é o governo. Somos nós.
Sempre que o governo precisa pagar juros elevados para financiar sua dívida, esse dinheiro sai dos impostos que todos pagamos. Sai do trabalhador que compra um pacote de arroz. Sai do comerciante que recolhe tributos. Sai do empresário que gera empregos. Sai da dona de casa que paga a conta de energia. Sai do agricultor que compra diesel. Sai do aposentado que mal consegue acompanhar o aumento do custo de vida.
O dinheiro que poderia estar construindo hospitais, escolas, rodovias, creches, universidades, saneamento básico ou investindo em tecnologia acaba sendo consumido pelo pagamento dos juros da dívida pública. É como se uma família passasse a trabalhar apenas para pagar o banco.
O mais preocupante é que nos acostumamos com essa realidade. Parece normal ouvir falar em dívida pública trilionária, em déficits fiscais, em aumento do endividamento ou em novas emissões de títulos públicos. Mas não é normal. Nunca foi e nunca será.
Imagine um cidadão que ganha dez mil reais por mês e gasta doze mil. Durante algum tempo ele consegue sobreviver fazendo empréstimos. Depois faz outro empréstimo para pagar o primeiro. Mais tarde, faz um terceiro para pagar os dois anteriores. Em algum momento, a maior parte da renda deixa de servir para manter a casa e passa a ser destinada apenas ao pagamento dos juros. É exatamente isso que acontece quando um país perde o controle de suas contas públicas.
Juros elevados normalmente são consequência de um conjunto de fatores ligados a inflação resistente, insegurança fiscal, crescimento baixo, baixa produtividade, elevado endividamento público e desconfiança dos investidores. Não existe uma única causa. Existe um ambiente econômico que vai se deteriorando lentamente até que o remédio necessário se torna cada vez mais amargo.
Para deixar ainda mais clara a situação, se o custo do dinheiro aumenta, menos pessoas compram, menos empresas investem, menos empregos são criados e menos riqueza é produzida. Não existe economia capaz de prosperar sustentadamente quando o preço do crédito se torna um obstáculo permanente ao crescimento. É por isso que me incomoda quando vejo discursos triunfalistas sobre indicadores isolados. Um país não pode se orgulhar de ser um dos maiores produtores de alimentos do planeta, possuir riquezas minerais incomparáveis, deter uma das maiores reservas de água doce do mundo, ter um mercado consumidor gigantesco e, ao mesmo tempo, carregar a medalha de ouro na categoria dos juros reais.
Durante décadas, o Brasil foi construindo uma cultura política na qual praticamente toda demanda social era respondida com aumento de despesas públicas. Sempre havia espaço para criar um novo programa, ampliar um benefício, conceder um reajuste, inaugurar uma política pública ou assumir novas obrigações. Quase nunca havia a mesma disposição para discutir de onde viria o dinheiro para financiar tudo isso de forma permanente.
Se um governo arrecada menos do que gasta durante muitos anos consecutivos, alguém precisará financiar essa diferença. E esse alguém exigirá uma remuneração compatível com o risco que está assumindo. Existe uma frase muito conhecida no mercado financeiro que diz: “os números sempre vencem”. Quanto mais observo a realidade brasileira, mais percebo a força dessa afirmação.
Aproveito para fazer um destaque importante sobre a divida publica. A dívida pública, por si só, não é um problema. Todos os grandes países possuem dívida. Os Estados Unidos possuem uma dívida gigantesca. O Japão também. Diversas economias desenvolvidas convivem com elevados níveis de endividamento. Então, qual é a diferença? A diferença está na confiança.
Investidores acreditam que esses países possuem instituições sólidas, economias altamente produtivas, capacidade de crescimento e previsibilidade suficiente para honrar seus compromissos ao longo do tempo. Em outras palavras, o tamanho da dívida importa, mas importa ainda mais a confiança de que ela permanecerá sustentável.
No Brasil, infelizmente, convivemos com uma sucessão de incertezas fiscais que alimentam dúvidas permanentes sobre a trajetória das contas públicas. Quando essa confiança diminui, o prêmio de risco aumenta. E quando o prêmio de risco aumenta, os juros sobem. É um mecanismo quase automático.
Enquanto isso, quem vive fora do universo econômico costuma ouvir uma explicação simplificada: “os bancos estão lucrando”. Sim, os bancos lucram. Mas reduzir toda essa discussão à ganância do sistema financeiro é fechar os olhos para um problema muito maior. Os bancos trabalham com o preço do dinheiro. E esse preço é influenciado, antes de tudo, pelo ambiente econômico em que estão inseridos. Se o governo precisa pagar juros elevados para captar recursos, dificilmente o crédito ao cidadão será barato. Não existe mágica financeira capaz de romper essa lógica.
Diante de tudo isso, considero preocupante ver o Brasil ocupando a primeira posição no ranking mundial de juros reais, porque não se trata de um detalhe estatístico. Trata-se, acima de tudo, um sintoma. E sintomas existem para nos alertar de que algo não vai bem.
E o pior erro que poderíamos cometer seria olhar para esse indicador e concluir que ele não diz respeito a nós. Mas diz, e muito. Talvez seja um dos indicadores que melhor traduzem o estado de saúde de uma economia, porque ele sintetiza inflação, risco fiscal, confiança dos investidores e expectativa de crescimento em um único número.
Quando esse número coloca o Brasil no topo do mundo, definitivamente não há motivo para comemoração. Reflita sobre isso!

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Yuri Alesi 28 de junho de 2026 28 de junho de 2026
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