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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Paulo Madeira > O FERMENTO NA CRISE
Paulo Madeira

O FERMENTO NA CRISE

Paulo Madeira
Ultima atualização: 5 de setembro de 2026 às 16:47
Por Paulo Madeira 4 horas atrás
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Quem abriu algum jornal de circulação nacional nos últimos sete dias, ou navegou em alguma rede social aberta, ou mesmo trocou mensagens numa rede fechada de amigos, certamente leu que o Brasil está enfrentando uma crise sem precedentes, que piora a cada dia, num crescendo que faz lembrar a “Velha roupa colorida”, do genial Belchior, em escala reduzida: o que há alguns dias era novo, hoje é antigo.
Para lidarem com as mudanças diárias do grau da crise, ou das crises, os redatores vasculham o dicionário à busca de expressões que melhor representem o instante, que capturem o olhar e prendam a atenção do leitor. Surgem, então:
Um terremoto no sistema financeiro! Um mar de lama! Um tsunâmi na Justiça! Uma avalanche na reputação do Congresso! Uma crise inominável em várias camadas! (fazer referência a camadas virou sinônimo de compreensão global dos problemas).
Em tempos de comunicação veloz, e da falta de tempo para reflexões, com as exigências do mundo real nos empurrando para o contentamento com resumos. resenhas e sinopses, é preciso ter cuidado redobrado. Não há resumo desinteressado nas notícias, e mesmo que o interesse seja legítimo e de boa-fé, não deve servir para pautar as ações das pessoas na convivência social. É preciso a compreensão do todo, com a análise contextual da informação para que o conhecimento seja sólido. Do mesmo modo que soa risível alguém apresentar-se como leitor voraz, por ter devorado dezenas de orelhas de livros, soa patético que alguém se arvore conhecedor da conjuntura, por ter devorado milhares de post e recortes sobre todos os assuntos mais debatidos no momento, mormente levando em conta as sinuosidades do Doutor Algoritmo. Vamos com calma!
Não precisa recuar tanto na história mundial, e muito menos na história nacional, para constatar que as crises nas instituições, públicas e privadas, sempre rondaram nossas vidas. O componente humano produz crises como processo natural da evolução. O que faz com que algumas crises pareçam maiores que as outras é o fermento empregado.
O fermento metafórico, do mesmo modo que o fermento real, proporciona uma reação na massa que nos faz ver algo bem maior do que veríamos sem esse agente na composição. Um fermento bem trabalhado traz aparência natural, e geralmente não percebemos as bolhas que o processo gera. É preciso compreender a formação das bolhas para poder separar o que é denso, substancial, do que é apenas aparente.
No Brasil, desde a redemocratização, convivemos com o fenômeno dos fermentos cíclicos, gerados nas eleições presidenciais. Observando as campanhas e repercussões nos espaços dos grandes jornais, e mais recentemente nas grandes plataformas da rede mundial de computadores, é como se a cada ciclo de quatro anos o Brasil estivesse iniciando um mergulho para um abismo sem fim, com enfrentamentos de problemas nunca vistos. Alguns gritam que nunca houve tanta fome, outros berram que nunca houve tanta violência e tanta tolerância com a bandidagem, outros alardeiam que jamais ocorreu tanta corrupção, e por aí vai. Toda essa fermentação faz parte das regras do jogo democrático. Toda linha política monta cenários para atrair eleitores, e mostrar problemas maiores do que eles realmente são, com a promessa de resolução através de intervenções diferenciadas. É um método para conquistar o eleitorado. Isso não é um problema, em si, pois sempre sobra a possibilidade de enxergar para além da casca, vendo as bolhas que formam o discurso.
O problema começa quando o fermento não é natural, e nasce a partir de manipulações tão elaboradas que não permitem identificar as bolhas, ao ponto de fazer crescer na massa a sensação de que tudo é realmente substancial e denso, exigindo uma resposta, ainda que fora da institucionalidade.
A receita empregada no Brasil no início dos anos 1960, na onda da doutrina do Senador estadunidense Joseph McCarthy, com sua sanha de “inquisidor anticomunista”, é um exemplo acabado de um fermento não natural, que inflou massas para exigirem uma saída através da força das armas, pois a aparência era de risco iminente para as famílias, para a crença em Deus e para a propriedade, e muitos tinham pavor do que os comunistas poderiam fazer com suas criancinhas.
Um estudo sério da história do Brasil, dos anos que antecederam o golpe militar de 1964, permite concluir, sem muito esforço, que enfrentávamos problemas sérios de ordem econômica, mas nem de longe estávamos diante de uma crise existencial que comprometeria a vida em família, a propriedade privada e o exercício dos credos religiosos. Com o fermento que veio de fora, os problemas reais foram inflados, fantasmas foram criados, a institucionalidade foi quebrada, e os problemas do mundo real continuaram.
Não estávamos em 1964 na crise do fim do mundo, e não estamos agora. Tivemos problemas reais lá, e temos aqui. Ninguém, em sã consciência, pode minimizar a gravidade institucional decorrente da suposta teia que enredou autoridades de todos os poderes, especialmente nas cúpulas, no chamado “escândalo Master”. Daí a dizer que “estamos num mar de lama”, que “o Supremo acabou”, que “a Justiça perdeu toda a credibilidade”, “que ninguém acredita mais nas instituições”, e tantas outras frases bombásticas, vai uma longa distância. Há fermento empregado e temos que ver para além da casca.
Ao longo do dia, enquanto são chamadas edições extraordinárias para a cobertura do “terremoto na Justiça”, dona Maria José compareceu ao fórum da comarca de Oiapoque e recebeu uma medida protetiva. Dona Josefa da Silva garantiu um auxílio-acidente na vara de Fazenda Pública de Macapá, e em Porto Alegre uma Juíza fez uma palestra sobre protocolo para julgamento com perspectiva racial. O Judiciário brasileiro tem capilaridade, está funcionando e a institucionalidade não está em risco em razão de problemas pontuais, que exatamente por serem pontuais, devem ser resolvidos na justa medida.
Não se trata aqui de fugir dos fantasmas. Devemos lembrar da parábola africana contada por Nelson Mandela, que em seu livro de memórias falou do caso de um sujeito que vivia atormentado por um fantasma, e por não aguentar mais o tormento, arrumou tudo que tinha e foi pegar um trem para mudar de cidade. Nem bem o trem começou a movimentar ele começou a perceber no vagão os mesmos fenômenos da casa, com barulhos e objetos arremessados. O fantasma tinha embarcado junto. Se há fantasmas, enfrentemos os fantasmas. O Judiciário brasileiro já foi testado e tem condições de enfrentar seus fantasmas, revendo procedimentos, adotando um papel de menor protagonismo político, deixando os embates sociais e políticos para o campo próprio das agremiações.
Não podemos cair na cilada de inflar artificialmente os nossos problemas nacionais, empregando fermentos dos que querem exatamente isso, para que seja gerada uma sensação de grave desequilíbrio conjuntural, como pedido de socorro ao exterior. Nós temos problemas, vamos enfrentá-los e resolvê-los com a força da nossa gente. Não precisamos de tutor.

Paulo Madeira 5 de setembro de 2026 5 de setembro de 2026
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Por Paulo Madeira
Juiz de Direito em Macapá/AP. Mestre em Direito Constitucional pela UnB
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