A crítica feita pelo jornalista Juca Kfouri à decisão da Grupo Globo de transformar a influencer Virginia Fonseca em “repórter especial” da Copa do Mundo ultrapassa o simples debate corporativo ou televisivo. Trata-se de uma discussão sobre a própria degradação do jornalismo como atividade intelectual e social. O que está em jogo não é a presença de influenciadores em coberturas midiáticas, algo compatível com a lógica contemporânea da comunicação híbrida, mas a substituição paulatina da técnica jornalística pela lógica algorítmica do engajamento. A audiência tornou-se mais importante que a apuração; a viralização passou a valer mais que a informação; o entretenimento tomou o lugar da análise. O sociólogo Guy Debord já advertia, em “A Sociedade do Espetáculo”, que a imagem acabaria ocupando o espaço da realidade. Hoje, a advertência parece consumada: o jornalista perde espaço para quem domina métricas digitais, ainda que não domine história, política, cultura ou linguagem jornalística. O espetáculo venceu a notícia.
O problema não reside em Virginia Fonseca especificamente, mas no critério utilizado pelas empresas de comunicação para definir relevância pública. O talento jornalístico foi substituído pela capacidade de gerar cliques, curtidas e compartilhamentos. O filósofo Umberto Eco afirmava que as redes sociais deram voz a “legião de imbecis” que antes falavam apenas nos bares após uma taça de vinho. A frase, ainda que dura, refletia a preocupação com a erosão dos filtros de qualidade intelectual. No passado, o jornalismo exigia formação, experiência, leitura, repertório cultural e compromisso ético. Havia a figura do repórter como intelectual da vida cotidiana, alguém preparado para interpretar fatos e contextualizar acontecimentos. Hoje, muitos conglomerados midiáticos parecem acreditar que popularidade virtual é equivalente à competência profissional. O resultado é uma comunicação cada vez mais superficial, infantilizada e emocionalmente manipulável. O sociólogo Zygmunt Bauman descreveu esse fenômeno como parte da “modernidade líquida”, em que tudo se torna instantâneo, descartável e efêmero — inclusive a credibilidade da imprensa.
Diversos jornalistas já denunciaram esse processo de degradação. Eugênio Bucci sustenta que o jornalismo só preserva sua legitimidade quando mantém compromisso com o interesse público e não com o entretenimento mercadológico. Alberto Dines alertava que a imprensa deixa de cumprir seu papel civilizatório quando abandona a crítica e passa a servir apenas ao consumo rápido. Já Neil Postman, em “Amusing Ourselves to Death”, advertia que as sociedades modernas corriam o risco de morrer não pela censura, mas pelo excesso de entretenimento transformado em informação. O cenário atual confirma a tese. A notícia virou produto de distração; a cobertura esportiva, política e cultural passou a obedecer à lógica da celebrização permanente. Não importa mais o conteúdo, mas o alcance. Não importa a qualidade da pergunta, mas o potencial de repercussão. A consequência disso é devastadora: o público deixa de ser cidadão informado para transformar-se apenas em consumidor de estímulos digitais.
A crítica de Juca Kfouri, portanto, é pertinente porque aponta para uma crise muito maior do que uma escalação equivocada para a Copa do Mundo. Ela revela o colapso gradual de uma cultura jornalística construída durante décadas por profissionais que enxergavam a imprensa como instrumento de formação social. Quando a imprensa abandona o jornalismo para perseguir apenas audiência, ela deixa de informar e passa apenas a entreter massas fatigadas e emocionalmente condicionadas. O resultado inevitável é a imbecilização coletiva: menos reflexão, menos profundidade e menos capacidade crítica. A sociedade passa a admirar quem viraliza, não quem pensa; quem performa, não quem investiga. E talvez resida exatamente aí a tragédia contemporânea: nunca tivemos tantos meios de comunicação e, paradoxalmente, tão pouco jornalismo de verdade.
O Funeral do Jornalismo

