“Doutor, meu dente do siso está nascendo, empurrando os outros dentes e me causando muita dor!”. Essa é, sem dúvida, uma das queixas mais ouvidas nos consultórios odontológicos diariamente. Historicamente, o dente do siso (terceiro molar) carrega a fama de ser o grande vilão do sorriso e o culpado universal por qualquer desconforto na região posterior da mandíbula. No entanto, a ciência e a prática clínica rigorosa nos mostram que a realidade fisiológica é bem mais complexa.
O VERDADEIRO VILÃO DO APINHAMENTO
Para a Ortodontia baseada em evidências, culpar exclusivamente o siso pelo apinhamento (o “encavalamento” dos dentes) na fase adulta é um equívoco. O Dr. Rivaldo Bueno, especialista em Ortodontia e DTM, explica que o grande responsável por esse fenômeno costuma ser o crescimento terminal da mandíbula, um processo natural do final da adolescência. O vetor desse crescimento e o desequilíbrio das forças musculares entre os lábios, a língua e a mastigação atuam diretamente sobre as arcadas. O siso acaba sendo apenas um coadjuvante nesse cenário. Portanto, indicar a extração apenas com a promessa de “evitar que os dentes entortem” carece de fundamentação científica sólida.
A CIRURGIA PRECISA E A CONFUSÃO COM A DOR OROFACIAL
Se o siso não é o único vilão do alinhamento, quando devemos removê-lo? É neste ponto que a avaliação criteriosa do especialista em Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial (CTBMF) se faz indispensável. A indicação cirúrgica verdadeira se pauta em danos reais: um siso impactado causando reabsorção no dente vizinho, formação de lesões císticas, ou quadros de pericoronarite (inflamação dolorosa e recorrente da gengiva).
Contudo, o Dr. Laércio Lima alerta para um erro de percurso muito comum e perigoso: confundir uma Dor Orofacial complexa com a dor de um dente do siso. Muitos pacientes chegam ao consultório com dores intensas, irradiadas para o ouvido, fundo dos olhos ou cabeça, acreditando piamente que a extração cirúrgica do terceiro molar será a solução mágica.
Muitas vezes, o que o paciente apresenta, na verdade, é um quadro de enxaqueca, uma nevralgia do nervo trigêmeo (dor neuropática severa) ou dores musculares profundas. Realizar a cirurgia de extração sem um diagnóstico diferencial rigoroso não apenas falha em curar a dor do paciente, como o expõe a um procedimento cirúrgico completamente desnecessário. A dor continua, e a frustração aumenta.
A CONEXÃO COM A DTM E O MÉTODO CONSCIENTE
A presença de um siso mal posicionado pode, de fato, criar “contatos prematuros” — toques desequilibrados na mordida. Para fugir desse desconforto, o paciente altera inconscientemente a sua forma de mastigar, gerando uma sobrecarga severa na musculatura facial e na Articulação Temporomandibular (ATM), desencadeando uma DTM (Disfunção Temporomandibular).
É diante dessa sobreposição de sintomas que a visão integrativa do Método Consciente entra em ação. Esta abordagem exige um olhar investigativo e acolhedor para as dores do paciente. O tratamento jamais deve se resumir a “arrancar um dente” de forma protocolar, mas sim a mapear criteriosamente se a dor que aflige aquela face tem origem dentária, muscular, articular ou neurológica.
A decisão entre manter ou extrair os sisos exige imensa responsabilidade. A união entre a Ortodontia, que planeja a estabilidade a longo prazo, e a Cirurgia Buco-Maxilo-Facial, que atua com controle de danos e expertise em dor orofacial, é o caminho mais seguro. O seu sorriso e a sua qualidade de vida merecem muito mais do que soluções simplistas; merecem ciência, diagnóstico preciso e respeito pela sua biologia.
O Mito do Siso: A Verdade Sobre a Sua Face e o Perigo do Diagnóstico Precipitado

