Há tempos não vivíamos um período tão curioso, aqui e por este mundão.
Para começar, quem imaginaria que se virariam contra os Estados Unidos alguns dos países europeus que são por eles protegidos, há décadas, em razão da OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte? É o que vemos acontecer quando França, Alemanha, Suécia e Noruega enviam tropas para a Groenlândia, após o interesse manifestado por Trump, na região.
Para exemplificar e simbolizar a dimensão dessa questão, dos compromissos e do apoio norte-americano em torno da 2ª Guerra Mundial, somente no ano de 2006 a Inglaterra terminou de pagar os empréstimos contraídos junto aos Estados Unidos, 61 anos antes. O jogo foi pesado e sem o apoio militar e os financiamentos proporcionados pelos norte-americanos e Aliados, mui-
tos países da Europa sucumbiriam definitivamente ao Nazismo. Além disso, mesmo que fossem vitoriosos contra os alemães, possivelmente sofreriam com o avanço da Cortina de Ferro e das forças do bloco soviético, passando por uma nova onda de destruição e ocupação.
Agora, com os interesses norte-americanos na Groenlândia, focado nas riquezas e no gelado território como barreira de contenção dos Russos e Chineses, o mundo parece ter lembrado que existe aquela terra gelada. A propósito, embora pouco se fale nisso, há detalhe muito importante em jogo, pois, com o degelo da calota polar, se imagina surgir novas rotas para o transporte marítimo, reduzindo o percurso dos navios e os custos do frete.
Aquela investida dos países europeus na Groenlândia parece se inspirar na Mitologia Grega, quando Gaia conspirou com Cronos e fez este se virar contra o pai, Urano. Não se trata, aqui, de defender os EUA ou os seus manifestados interesses, mas de entender que o jogo envolve muitas coisas e que, sem os norte-americanos, a OTAN e os países europeus não têm condições de enfrentar eventual investida imperialista russa ou chinesa. A propósito, é crível que a Rússia e a China estejam fazendo contas neste sentido, com a vulnerabilidade manifesta da Europa – que parece cavar a própria cova.
Por aqui as coisas não são muito diferentes. Hoje, fica difícil sustentar em sala de aula algumas das teorias que fundamentam o Direito, como as afetas à competência originária dos tribunais, com a questão do banco Master avocada pela mais alta Corte. Quando alas políticas e vozes autorizadas questionam certas atitudes dos tribunais, isso me remete à mensagem de Monteiro Lobato, na coletânea A Barca de Gleyre, quando, sobre outro escritor, disse: “Se Neto tivesse a coragem de podar-se, que lindo não ficaria!” A questão é que, sobre isso, tudo ou quase tudo já foi dito e bem dito. A estupefação social é que ainda insiste em sobreviver e avaliar aspectos que não se sustentam, quando a suprema voz decisória já formou o seu sentido.
Inquéritos sigilosos são uma nova curiosidade tupiniquim, a contrariar a Constituição Federal que valoriza a publicidade e a transparência, para maior controle social. O exemplo do sigilo do inquérito do Master é uma delas. Aliás, a memória insiste em nos relembrar das listas de expurgo da Ditadura, quando pessoas eram cassadas ou tinham suspensos os seus direitos políticos, sem saber o motivo, sem publicidade, no sigilo das motivações decisórias. Naquele tempo, tudo era feito para se salvar o país e as instituições de um apontado inimigo, como fez o Ato Institucional número 1, que afastou pessoas ligadas ao governo anterior, de Jango.
Não posso deixar de abordar que tenho ouvido dificuldades para se sustentar certas questões em salas de aula. Como explicar aos alunos, por exemplo, o enterro sumário, na origem e sem contraditório e ampla defesa, do procedimento administrativo iniciado no Conselho Federal de Medicina e o teor da sua Nota à Sociedade Brasileira, de 07 de janeiro de 2026. Isso se torna curioso pois muito já se falou, no passado, sobre garantismo da Justiça contra excessos do Estado e é interessante como o tempo faz soprar poeira sobre assentos fundamentais do sistema jurídico-político-social.
Geração após geração, a humanidade segue e apenas veste novas roupas para não parecer que se copia. Falta de criatividade inovadora, falta de capacidade de progredir ou vontade de melhorar traída pela cobiça de sempre? Isso me faz pensar que muitas decisões políticas não são mesmo sobre melhorias para o povo ou em prol de avanços sociais, parecendo-se mais próximas à máxima de Saint-Simon, quando disse “Ôte-toi de là que je m’y mette”, que se traduz por “saia daí para que eu possa assumir o seu lugar”.
Enquanto se toca a dança das cadeiras, vamos vivendo a conteinerização de tudo, transformando a vida e as emoções e valores em padrões encaixotáveis. A superficialidade é uma marca. A imediatidade do consumo, outra. O desejo de copiar padrões, mais um – basta ver como um “meme” inovador é seguido à exaustão, normalmente envolvendo futilidades e distrações. O pensar crítico, a emissão de opiniões fundamentadas e o questionamento ou a defesa de valores são ações que dão trabalho e que, por isso, parecem estar fora de moda.
Enquanto vamos nos distraindo com risos e coisinhas sem utilidade, o petróleo mostra que ainda é uma riqueza de alto valor estratégico, a guerra da Ucrânia segue o seu rumo, a China e a Rússia não se levantaram para defesa da Soberania venezuelana, o Maduro foi preso em 47 segundos e isso fez com que todos ficassem surpresos sobre a presteza e ação certeira dos atores norte-americanos envolvidos na operação, o Ministro da Fazenda diz que o caso Master pode ser a “maior fraude bancária do país” (CNN Money, 13.1.2026), o povo ocupa as ruas contra a ditadura iraniana que já acumula os seus mais de 3.400 mortos (G1, 14.1.2026) pela repressão em curso, o povo cubano sofre com o agravamento da crise econômica, o Brasil ainda se vê com equipamentos militares pouco modernos em meio às indicações de aumento dos gastos militares por vários países, nossa dívida pública aumentou e chegou a R$ 8,48 trilhões em novembro (Ministério da Fazenda, 31.12.2025), a nossa taxa de juros é a 2ª maior do mundo, é de cerca de 30% a inadimplência no endividamento da famílias e das empresas no Brasil e, estando no Grupo C da Copa do Mundo, enfrentaremos o Marrocos que tem bom histórico de jogos e que chegou à semifinal em 2022. De tudo isso, talvez essa seja a real maior preocupação de grande parte dos brasileiros…
A grande questão é que, apesar das apostas altas e da confiança dos apostadores, “a banca” sempre ganha, com o sistema se mantendo forte e protegido e contando com instrumentos úteis, como o sigilo em Emendas e, agora, em inquéritos.
Deve haver quem pense que qualquer um pode falar o que quiser sobre o que fizeram ou não, sobre valores e o certo ou o errado, a crítica ou a fofoca, desde que sobrevivam aos processos e com os bolsos cheios. Enquanto isso, os comuns mortais seguem as suas vidas como podem, afinal, sempre fizeram isso.
O QUE FALAR QUANDO NÃO ADIANTA DIZER NADA?

