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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Tito Guimarães > O que faz uma mulher feliz é ser livre para amar
Tito Guimarães

O que faz uma mulher feliz é ser livre para amar

Tito Guimarães
Ultima atualização: 30 de agosto de 2026 às 08:20
Por Tito Guimarães 4 horas atrás
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Ele olha a revista, onde uma mulher está sentada, em um monte, sobre a grama baixa, um longo tapete verde, recortado pelo azul do céu claro que sem nuvens. Perfeito jogo de contraste.

  • Ela foi uma mulher feliz.
    A senhora Lurdes Alberta, mais de 90 anos, amparada por um neto gigantesco. Ele repetia a frase:
  • Ela foi muito feliz. Uma mulher muito feliz.
    Não era a verdade. Eu a conheci, profundamente, vivi com sua enorme infelicidade e insatisfação com a vida, com os pais, com as irmãs, com os filhos.
    Ela não viveu a vida que quis, muito menos a que sonhou. Não foi nunca, em nenhum momento, uma mulher feliz.
    Terrivelmente amargurada esteve, muitas vezes, mais na loucura, destilando um ódio incomensurável a pessoas, povos e àqueles mais próximos, em quem seu marcante desprezo carimbava frases demolidoras.
  • Hoje, eu não tenho mais opções, dizia dona Lurdes. Se eu tivesse a oportunidade de viver de novo jamais seria uma mulher honrada.
    Dona Lurdes Alberta pronunciava as sílabas, sem vacilações e com firmeza:
    “Mil vezes eu seria uma prostituta. Sonho em como minha vida teria sido mais bela, mais alegre, mais verdadeira, se eu tivesse sido uma prostituta.”
    Dona Lurdes é ouvida apenas pelo jovem Nestor, “meu menino” ela dizia do seu médico cardiologista, responsável pelo acompanhamento diário, há quatro anos, da sua melhor “surpresa”.
  • Ela morreria dentro de algumas horas. Isto ouvi há quatro anos. Ela ainda está aí. Firme, serena e também audaciosa.
  • Eu posso falar o que penso. Caso queira ou seja necessário, posso reescrever minha porca história. Por que a opção pela prostituição como mulher? Não apenas a prostituição como profissão ou como prazer ou como depravação. Tudo isto, mas como a melhor oportunidade que uma mulher tem quando busca autenticidade, felicidade, não submissão a pessoas queridas, amantes, filhos, filhas. Por quê? Porque não teria, aqui, esta vida falsa, esta vida vivida e não vivida. Não usufruída, onde fui, todos os dias e todas as noites, apenas uma peça insignificante.
    Ela está diante do seu gigante. Ele a levanta. Ela põe as mãos sobre um bordado na mesa. O bordado envolve sua bela mão.
    Olha em meus olhos.
  • Falo isto a você e falo isto pela primeira vez. Não falo diante dos meus filhos. Você que é um grande amante sabe porque eu gostaria de ter sido uma grande amante. Perdi meu tempo, joguei fora toda uma vida.
    Outro dia, olhando a paisagem da costa brasileira, na Bahia, ela me pediu para acompanhar sua filha mais nova.
    -Vá, ela ainda tem uma oportunidade. Ela merece.
    Duas semanas depois, morria também dona Lurdes Alberta, aos 94 anos. Não mais acordou. Seu rosto parecia sereno.
    Morrera, com certeza, com ódio da morte. Ela queria viver e Zorba, 0 Grego, era seu filme preferido. Principalmente, a última cena em que, agarrado à janela, Zorba resiste à morte. Inutilmente.
    Fui ao seu lado, com Ada ao meu lado, o marido ao lado de Ada, os filhos do casal com suas mulheres. Caminhávamos como é possível caminhar uma imensa hipocrisia onde não havia nenhuma tristeza.
    Um vento espalhava, sacana, os cheiros suados dos nossos corpos, alguns num imenso tesão de cio. O calor aumentava a cada passo e o suor escorria das roupas dos que faziam mais força no caminhar. A camisa azul colava em diversos músculos, no peito, nos braços, do homem amante.
  • Ela foi uma mulher feliz.
    Olhei para trás e era a mesma voz. Era o mesmo erro. A mesma visão amiga e sonhadora.
  • Por quê?
    Entardecia, o calor firme. Agora, sem vento. Caminhávamos. Ada e o marido na frente. Eu atrás.
  • Ada também não era uma mulher feliz.
    Os dois olharam para trás, como a confirmar o que eu falava. Talvez eles não tivessem ouvido. Ela limpou o nariz com um lenço e ele puxou seu braço mais para perto. Olharam de novo para a frente e continuaram.
    O céu estava azul, sem nuvens. Escurecia. Nas nossas costas, o poente explodia em milhares de tons de vermelho.
    Mas eu não iria olhá-lo, hoje.

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