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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > João de Deus Lobato > Quando falta energia, o prejuízo vai muito além do escuro
João de Deus Lobato

Quando falta energia, o prejuízo vai muito além do escuro

João de Deus Lobato
Ultima atualização: 30 de agosto de 2026 às 07:52
Por João de Deus Lobato 4 horas atrás
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Em uma residência, a falta de energia traz calor, desconforto, alimentos que podem estragar, internet que deixa de funcionar e equipamentos que param. Em um supermercado, pode significar produtos perdidos. Em uma indústria, produção interrompida. Mas, em um hospital, uma interrupção de energia pode representar algo muito mais grave: pode colocar uma vida em risco. É por isso que continuidade do fornecimento de energia elétrica não é apenas uma questão de conforto. É qualidade de vida, atividade econômica, segurança e, em determinadas situações, sobrevivência.
Por isso, qualidade no fornecimento de energia não significa apenas ter energia chegando ao imóvel. Significa recebê-la com continuidade, tensão adequada e segurança, e ter o serviço restabelecido adequadamente quando ocorre uma interrupção.
E os números do Amapá merecem atenção. Em 2025, o DEC da CEA Equatorial foi de 27,97 horas e o FEC de 12,29 interrupções. Houve uma melhora importante em relação a 2024, quando esses indicadores haviam alcançado 34,54 horas de DEC e 14,40 interrupções de FEC. Isso representa uma redução de aproximadamente 19% no tempo médio das interrupções e de 15% na frequência. A evolução precisa ser reconhecida. Mas os números ainda são elevados. No Brasil, em 2025, os consumidores ficaram, em média, 9,3 horas sem energia, com 4,66 interrupções. Em outras palavras, o DEC da CEA ficou aproximadamente três vezes a média nacional e seu FEC, cerca de 2,6 vezes.
O DEC indica, de forma simplificada, quantas horas, em média, um conjunto de consumidores ficou sem energia. O FEC informa quantas vezes, em média, o fornecimento foi interrompido. A ANEEL considera nesses indicadores as interrupções com duração igual ou superior a três minutos.
Aqui aparece uma informação que, à primeira vista, pode parecer contraditória. No Ranking de Continuidade da ANEEL de 2025, que considera o Indicador de Desempenho Global de Continuidade, o DGC, a CEA Equatorial aparece em 6º lugar entre 18 distribuidoras de pequeno porte, com DGC de 0,51.
Mas existe outra forma de observar esses resultados. Quando se ordenam essas mesmas 18 distribuidoras pelos valores absolutos de DEC e FEC registrados em 2025, a situação muda significativamente: a CEA aparece em 18º lugar no DEC, a última colocação, com 27,97 horas, e em 17º lugar no FEC, com 12,29 interrupções.
Como explicar essa diferença? O DGC não compara simplesmente qual distribuidora teve menos horas ou menos interrupções. Ele relaciona os resultados de DEC e FEC de cada empresa aos respectivos limites regulatórios estabelecidos para ela pela ANEEL. Assim, uma distribuidora pode apresentar bom desempenho em relação aos limites que lhe foram fixados e, ao mesmo tempo, possuir números absolutos de duração e frequência de interrupções elevados quando comparados aos de outras empresas.
Essa diferença é importante para que o consumidor compreenda os números sem conclusões apressadas.
Mas os indicadores da concessão não contam sozinhos toda a história. O próprio Amapá possui realidades distintas em relação à forma como a energia chega aos consumidores. E existe um município que merece atenção especial.
Oiapoque: uma realidade diferente dentro do próprio Amapá
Há uma particularidade importante. O Amapá possui 16 municípios e, atualmente, 15 sedes municipais estão atendidas pelo Sistema Interligado Nacional, o SIN. A exceção é Oiapoque, no extremo norte do Estado, que permanece classificado como Sistema Isolado. Isso significa que o município não conta com a mesma rede elétrica interligada que permite intercâmbio de energia entre diferentes regiões do país. Sua segurança de abastecimento depende essencialmente das fontes de geração disponíveis localmente.
O caso é bastante interessante porque o sistema de Oiapoque foi estruturado para combinar três fontes de geração. Historicamente, o município dependeu da geração termelétrica a óleo diesel. Posteriormente foi incorporada a geração solar fotovoltaica, com aproximadamente 4 MW, e está ocorrendo a entrada progressiva da PCH Salto Cafesoca, pequena central hidrelétrica com potência total de aproximadamente 7,5 MW. Com a participação das fontes renováveis, a tendência é reduzir significativamente o uso do diesel, deixando a geração térmica principalmente como reserva e segurança para o sistema. É praticamente um pequeno sistema híbrido, combinando hidrelétrica, solar e geração térmica de backup.
Há estudos, inclusive, avaliando a utilização de armazenamento em baterias em Oiapoque. Se essa solução for futuramente incorporada, teremos um exemplo ainda mais interessante de como solar, hidrelétrica, baterias e geração térmica podem trabalhar conjuntamente para aumentar a confiabilidade do fornecimento. Oiapoque mostra, portanto, que falar em falta de energia no Amapá exige compreender realidades diferentes. Uma interrupção em Macapá, inserida no SIN, possui características diferentes de uma interrupção em um sistema isolado, onde a disponibilidade depende diretamente das fontes locais.
O que diz a legislação
A principal norma que disciplina a relação entre distribuidoras e consumidores é a Resolução Normativa nº 1.000/2021 da ANEEL, complementada pelos Procedimentos de Distribuição, o Prodist. Ela reúne direitos e deveres dos consumidores e estabelece regras sobre atendimento, continuidade, compensações e outras obrigações das distribuidoras.
Além do DEC e do FEC, que são indicadores coletivos, existem indicadores que mostram o que efetivamente ocorreu em cada unidade consumidora. O DIC mede quanto tempo aquele consumidor ficou sem energia, o FIC quantas interrupções sofreu e o DMIC registra a duração da maior interrupção contínua.
Quando os limites individuais estabelecidos pela ANEEL são ultrapassados, a distribuidora deve calcular uma compensação financeira automática, creditada na conta de energia no prazo de até dois meses após o período de apuração. O consumidor não precisa solicitar essa compensação. Portanto, não é necessário que milhares de consumidores tenham ficado sem energia ou que o DEC global da empresa ultrapasse determinado número. O que aconteceu naquela unidade consumidora também é considerado.
Se durante uma falta de energia ou no restabelecimento do fornecimento algum aparelho for danificado, existe ainda a possibilidade de solicitar ressarcimento à distribuidora. Mas esse é outro assunto, com regras e procedimentos próprios, e será justamente o tema do nosso próximo artigo.
Faltou energia. O que fazer?
O primeiro passo é descobrir se a falta parece ser individual ou coletiva. Observe se os vizinhos, a iluminação da rua ou as áreas comuns do prédio também estão sem energia. Se apenas sua residência ou estabelecimento estiver afetado, verifique, com segurança, se houve atuação do disjuntor da instalação interna. Em instalações trifásicas também pode ocorrer perda de uma fase, situação em que parte dos equipamentos funciona e outra parte não.
Se houver indício de defeito na rede da distribuidora, mesmo que aparentemente somente sua unidade tenha sido afetada, registre imediatamente a ocorrência e guarde o número do protocolo.
No Amapá, a CEA Equatorial disponibiliza diferentes caminhos para informar falta de energia. A Central de Atendimento 0800 096 0196 funciona 24 horas. Pelo WhatsApp, a assistente virtual Clara atende pelo número (96) 3082-2949. O consumidor também pode utilizar o Aplicativo Equatorial Energia ou acessar o site oficial da empresa, onde existe a opção para informar falta de energia.
É recomendável manter no celular o número da conta contrato ou os dados do titular, justamente para não precisar procurá-los no escuro ou em uma situação de emergência.
Se o atendimento inicial não solucionar o problema, o consumidor deve procurar a Ouvidoria da CEA Equatorial, informando o protocolo anterior. O telefone é 0800 096 1406. Persistindo o problema, pode recorrer à ANEEL pelos telefones 167 ou 0800 727 0167, pelo aplicativo ANEEL Consumidor ou pelos canais digitais da Agência. O caminho recomendado é simples: primeiro a distribuidora, depois sua Ouvidoria e, se ainda não houver solução, a ANEEL.
Faça seu próprio histórico das faltas
Para quem convive com interrupções frequentes, tenho uma recomendação simples: faça seu próprio histórico. Anote no celular a data e a hora em que a energia faltou, o horário em que retornou, a duração da interrupção, o número do protocolo, se atingiu somente seu imóvel ou também a vizinhança e se ocorreram falta de fase ou oscilações.
Fotografias e prints dos atendimentos também podem ajudar. Em empresas e condomínios, medidores ou analisadores de energia capazes de registrar automaticamente os eventos tornam esse acompanhamento ainda mais preciso. Esse histórico permite ao consumidor conhecer melhor a qualidade do fornecimento que efetivamente recebe, comparar a frequência e a duração das ocorrências e conferir eventuais compensações lançadas em sua conta.
E nos consumidores atendidos em média tensão?
Supermercados, hospitais, hotéis, indústrias, grandes prédios comerciais e outros consumidores podem ser atendidos em média tensão e possuir subestação própria. Nesses casos, uma ocorrência relativamente comum é a atuação da chave fusível e a queima do chamado elo fusível.
Aqui não cabe improvisação. Primeiro é necessário saber onde está a chave que atuou e de quem é a responsabilidade pelo equipamento. A Norma Técnica NT.00002.EQTL da Equatorial estabelece situações em que a chave fusível localizada na derivação do ramal de conexão é de responsabilidade da distribuidora e outras em que existe uma segunda proteção, junto à estrutura do transformador, sob responsabilidade do consumidor.
Se a proteção que atuou pertence à rede da distribuidora, deve ser aberta uma ocorrência para que a CEA Equatorial faça o atendimento. Se estiver na instalação sob responsabilidade do consumidor, a intervenção deverá ser realizada por profissionais habilitados e capacitados, seguindo todos os procedimentos de segurança. Para consumidores de média tensão e grandes clientes no Amapá, a Equatorial informa também a Central de Atendimento Corporativo 0800 091 0116.
Nunca se deve permitir que porteiro, zelador ou pessoa sem qualificação tente substituir um elo fusível ou manobrar equipamentos de média tensão. Apesar de aparentemente simples, essa operação envolve riscos graves de choque elétrico, arco elétrico, queimaduras e até acidentes fatais.
Geradores, baterias e BESS
Quando a continuidade é crítica, entra outro assunto: energia de backup. O gerador continua sendo uma alternativa importante para empresas, condomínios e consumidores com cargas essenciais. Entretanto, sua instalação precisa ser projetada corretamente. A Equatorial possui norma específica para o assunto. Um princípio fundamental é que o gerador do consumidor não pode energizar inadvertidamente a rede da distribuidora durante uma falta de energia. Por isso, são necessários sistemas adequados de transferência, intertravamento e proteção.
Hoje, porém, existe uma nova alternativa ganhando espaço: baterias e sistemas BESS, Battery Energy Storage System. Em uma residência, um sistema fotovoltaico com inversor híbrido e baterias pode manter circuitos essenciais funcionando durante uma interrupção. Em empresas, um BESS pode assumir cargas críticas quase instantaneamente, evitando a parada de computadores, telecomunicações, sistemas de segurança e determinados processos.
Há uma informação importante: ter painéis solares não significa automaticamente continuar com energia quando a rede cai. O sistema fotovoltaico convencional conectado à rede normalmente se desliga por segurança durante uma falta de energia. Para funcionar como backup, é necessário que a instalação tenha arquitetura própria para isso, normalmente com inversor híbrido, baterias e circuitos de cargas essenciais corretamente projetados.
Não me surpreende, portanto, ouvir relatos de consumidores amapaenses que já adotaram energia solar associada a baterias justamente para aumentar sua segurança diante das interrupções. Isso mostra como o armazenamento de energia está deixando de ser apenas uma tecnologia do futuro para se transformar em uma solução prática de resiliência energética.
Também é possível proteger melhor os equipamentos quando a energia retorna. DPS, aterramento adequado, proteções contra sobretensão e subtensão e, dependendo das características da carga, dispositivos que evitem o religamento imediato podem reduzir os riscos. Para computadores, equipamentos eletrônicos e sistemas de comunicação, nobreaks corretamente dimensionados também são importantes.
Nenhuma dessas soluções, entretanto, deve transformar a falta de energia em algo que o consumidor precise simplesmente aceitar. Geradores, baterias, nobreaks e BESS aumentam a segurança de quem depende da energia, mas não substituem a obrigação da distribuidora de prestar um serviço contínuo e com qualidade.
Os dados mostram que houve evolução nos indicadores da CEA Equatorial em 2025. Isso é positivo. Mas mostram também que o consumidor do Amapá ainda permaneceu, em média, muito mais tempo sem energia e sofreu mais interrupções do que a média brasileira.
Porque energia elétrica pode até ser invisível, mas sua ausência aparece imediatamente em nossa casa, no comércio, na produção, na saúde e na qualidade de vida. E, quando falta com frequência, deixa de ser apenas um inconveniente. Transforma-se em custo, insegurança e prejuízo para toda a sociedade.
Para quem quiser continuar essa conversa sobre energia, mercado, tecnologia e os desafios do setor elétrico, fica o convite para acompanhar o podcast ÉLivre com João Lobato, disponível no YouTube. Basta procurar por “ÉLivre com João Lobato”.
João de Deus Lobato é engenheiro eletricista, ex-executivo da distribuidora do Pará, articulista semanal do Diário do Pará, do portal DOL e da Gazeta do Amapá, consultor em energia e apresentador do podcast ÉLivre com João Lobato.

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