Essa afirmação é possível primeiro porque o conceito de verdade e mentira ainda é muito elaborado para a compreensão infantil. Logo, um indivíduo não pode se comprometer conscientemente com algo que sequer conhece. Segundo, a criança não tem noção de justiça, então não consegue perceber as consequências de suas afirmações.
Além disso, a criança ainda tem um pensamento egocêntrico, leva em consideração apenas sua satisfação pessoal, seu ponto de vista e o prazer imediato, sendo assim, numa situação embaraçosa, ou difícil, ela pode inventar uma história para livrar-se dela.
Essa conduta infantil, que é mais próxima da fantasia e imaginação do que da mentira propriamente dita, recebe o nome de pseudomentira. Sem perceber, criança deforma espontaneamente a realidade a partir de seus desejos. Jean Piaget chega a considerar que a mentira está num mesmo plano que a brincadeira e as invenções no pensamento das crianças pequenas.
O adulto pode ignorar a pseudomentira ou confrontar a versão apresentada pela criança com a realidade, sem se valer de ameaças ou punições. Se queremos que a criança se comprometa em dizer sempre a verdade, temos que ensinar a todo momento que a valorizamos e aceitamos verdades, mesmo aquelas que não nos agradam, ou que sejam motivo de decepção.
Como lidar com as mentiras?
1. Dê o exemplo. Os pais não devem esquecer que as crianças observam tudo aquilo o que os adultos fazem e, normalmente, agem de forma semelhante. Então muito cuidado! Não vale dizer que é errado mentir e ao mesmo tempo fingir que não está disponível para não ter que atender uma ligação indesejada ao telefone.
2. Mantenha a calma. A criança pode se sentir mais insegura e amedrontada se perceber que os pais estão nervosos, e assim ela certamente terá mais dificuldades para assumir o erro.
3. Não crie armadilhas para contradizer a criança. Se perceber que seu filho está mentindo, fale abertamente com ele sobre o assunto. Por exemplo, se os pais sabem que a criança não fez a tarefa da escola, ao invés de perguntar: “Você fez a lição de casa?”, podem dizer: “Vi que você não fez a lição de casa. O que aconteceu?”.
4. Explique as consequências de não falar a verdade. A criança precisa entender que ao contar uma mentira pode quebrar a confiança que os outros têm nela.
5. Esteja preparado para ouvir verdades nem sempre boas ou diferentes daquelas que você gostaria. A criança precisa se sentir segura para falar a verdade.
6. Não dê punições. A criança pode chegar à conclusão de que uma mentira vale a pena, desde que ela suporte o castigo. Algumas crianças podem ainda pensar em formas mais elaboradas de mentir, para evitar serem descobertas.
7. Dê à criança a oportunidade de corrigir o erro. A possibilidade de reparar um dano normalmente é muito mais eficiente do que um castigo e certamente vai contribuir de maneira positiva para o amadurecimento emocional da criança.
8. Ajude a criança a pensar em outras possibilidades ao invés de mentir. Os pais podem auxiliar os filhos a resolverem seus conflitos buscando sempre soluções verdadeiras para eles.
9. Não chame a criança de mentirosa e nem chame a atenção na frente dos colegas ou de outros adultos.
10. Cuidado para não invadir a intimidade da criança. Algumas vezes os pais acusam os filhos de mentirem porque eles não querem falar sobre determinado assunto. Ter segredos é permitido e a privacidade deve ser respeitada. O importante é que os pais se mostrem disponíveis e acolhedores, assim, quando as crianças se sentirem prontas, poderão falar sobre esses assuntos se quiserem.
Evolução dos mentirosos
Saiba como a capacidade de enganar se aprimora ao longo da infância
2 ANOS
Aos 2 anos, a criança já imita os outros – principalmente os mais velhos. Também é capaz de obedecer instruções simples, como “pegue o sapato e guarde no armário”. Entende cerca de 200 palavras, fala umas 50 e já consegue construir frases com 2 ou 3 delas. Mas nem tudo é beleza. Afinal, ela aprendeu o que significa “meu”, mas não “seu”. De repente, a belezinha de bebê passa a gritar, chutar, morder, brigar, desafiar quem manda nele. E, quando faz alguma coisa que não deveria, já é capaz de contar uma mentira. Em testes para avaliar a honestidade, 20% delas mentem.
4 ANOS
A criança já sabe de 2 500 a 3 mil palavras, entende algumas figuras de linguagem, constrói períodos compostos e conta histórias. Com isso, suas brincadeiras de faz de conta também se tornam mais complexas – e as mentiras, abundantes. Nessa idade, 80% das crianças mentem com facilidade em testes. Isso, porém, não significa que ela seja boa no engano. Para contar uma mentira bem-sucedida, é necessário manter a história coerente do início ao fim. E aí está seu ponto fraco. Basta fazer-lhe algumas perguntas para a criança cair em contradição.
7 ANOS
Chega a idade escolar – e, com ela, um novo passo para a mentira: agora, a criança consegue manter sua história sem se contradizer. Isso revela uma nova capacidade importantíssima da mente da criança. Ao mesmo tempo que planeja e memoriza uma versão mentirosa, consegue manter-se atenta e inibir pensamentos que sejam contrários a essa versão.
13 ANOS
Ao entrar para a adolescência, o filho se torna capaz de mentir com palavras e com o corpo, feito um adulto. Até então, conseguia criar um discurso coerente, mas seu olhar facilmente a entregava. Num estudo com crianças de 7 a 15 anos, as de até 9 anos mantiveram menos tempo o contato visual quando mentiram. Em vez disso, olhavam para cima, numa expressão de pensamento. Já as mais velhas sabiam que manter “olho no olho” era sinal de sinceridade.
Admitir erros e delitos não é fácil para ninguém, muito menos para uma criança. Por isso, é importante demonstrarmos nossa satisfação quando, apesar de saber sobre nossa reprovação, ainda assim ela faz a opção de dizer a verdade.
Então, quando seu filho/aluno, admitir uma falha, é importante valorizar isso sem críticas ou acusações, buscando reconhecer sua atitude, sem desmerecer o problema criado, mas buscando soluções. Essa simples ação tende a favorecer sua autoestima e fortalecer o vínculo de confiança entre vocês.
Muitas vezes, nós adultos ensinamos a criança a mentir sem nem perceber. Quando a motivamos a mentir sobre seus sentimentos usando expressões como “homem não chora”. Quando fazemos uma pergunta que provavelmente provocará uma mentira defensiva.
Superar a manifestação da mentira exige um esforço conjunto do adulto e da criança. É papel do adulto informar a criança que identificou algo falho em seu discurso, debater sobre os pontos de vista envolvidos e conduzir o diálogo para um caminho que a criança passe a perceber a necessidade da confiança no relacionamento entre vocês e gradativamente vá compreendendo e importância de se dizer a verdade.
Onde há espaço para o diálogo e onde os delitos são tratados a partir do respeito mútuo, de forma construtiva, com foco na solução, não há motivo para mentir. Isso a criança também aprende!